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Noites do Oriente
(Daughter of Hassan)
Penny Jordan



Este Livro faz parte do Projeto_Romances, sem fins lucrativos e de fs para fs. A comercializao deste produto  estritamente proibida

NOITES DO ORIENTE
Descendo as sombrias escadarias do palcio de Qu' Har, o pequeno pas rabe que estava visitando, Danielle esbarrou de repente num homem desconhecido, coberto com 
um manto negro. Sem esperar por uma palavra dela, ele a beijou selvagemente, fazendo Danielle vibrar louca de paixo. Trmula e emocionada, ela ouviu o estranho 
declarar: - Eu sou Jordan Saud Ibn Ahmed, o homem que voc recusou para marido. Foi muito ingnua em pensar que me conformaria coma a sua recusa. - No, Jourdan 
no se conformaria mesmo, Danielle logo descobriu. Ele estava acostumado a obter tudo o que queria; era um conquistador icorrigvel. E, para tla em sua cama, como 
esposa, seria capaz at de rapt-la.






      CAPITULO I
       
       - Papai, que presente maravilhoso! No devia me estragar desse jeito com tanto mimo - queixou-se Danielle, os grandes olhos verdes fixos no rosto barbudo 
do padrasto, alto e elegante nos trajes rabes.
       - Bobagem! - Ele colocou o colar de diamantes no pescoo delgado de Danielle. - Voc no  minha filha legtima, mas  a menina dos meus olhos. Gosto de mim-Ia 
e no sei como isso poderia estrag-Ia. Na verdade, esmeraldas combinariam mais com seus olhos. . .
       Danielle riu, encarando o padrasto com amor. Seu pai verdadeiro linha morrido antes de ela nascer. Quando estava com treze anos, a me casou-se com o xeque 
Hassan Ibn Ahmed, chefe de um imprio do petrleo.
       Danielle e o padrasto se deram bem desde o comeo. O xeque j era casado, mas no tinha filhos. A primeira mulher havia se divorciado dele e, embora no tivessem 
conversado a respeito, Danielle imaginava que ele no podia ter filhos, o que aumentava o amor e a amizade entre eles.
       Danielle tinha a impresso de que a famlia do padrasto no aprovava o segundo casamento dele. O que explicava o fato de nunca  serem visitados no elegante 
apartamento de St. John's Wood, a residncia de Londres, ou na fazenda de Dorset, prxima da universidade em que Danielle tinha estudado.
       Pensassem o que pensassem do casamento do xeque Hassan, estava claro que a famlia admirava seu talento e a perspiccia para os negcios e as finanas. No 
fosse assim, no lhe, teriam confiado a responsabilidade de uma atividade daquela importncia. O xeque vivia e trabalhava em Londres, mas a matria-prima que alimentava 
sua companhia vinha de uma propriedade dirigida pelo irmo mais velho dele, numa estreita faixa entre o Kuwait e a Arbia Saudita.
       De vez em quando, os compatriotas lhe faziam visitas, mas Danielle os via raramente. Primeiro porque h apenas dois anos tinha terminado o curso de aperfeioamento 
na Sua, e segundo porque Hassan preferia no envolver a esposa e a enteada nos negcios.
       Depois de um ano na Sua, Danielle voltou  Inglaterra decidida a procurar um emprego, o que deixou o padrasto horrorizado. Foi por esse motivo que quase 
chegaram a se desentender, e tambm por isso Danielle interpretava aquele presente como uma maneira de retomarem o bom relacionamento. No havia necessidade de trabalhar, 
argumentava Hassan; e, depois, o que ela pretendia? Sugeria que ele no tinha condies de sustent-Ia?
       Danielle pediu  me que explicasse ao padrasto que, no Ocidente, as garotas decidiam trabalhar por livre e espontnea vontade, pois no concordavam em ser 
sustentadas por suas famlias at se casarem.
       Hassan, entretanto, parecia no compreender seu ponto de vista. E s depois de muita insistncia permitiu que ela fizesse o curso de cozinha Cordon Bleu que 
tanto almejava.
       Esperava que o padrasto se mostrasse mais flexvel, quando lhe contasse que com o aprendizado pretendia abrir um restaurante. O dinheiro deixado pelo pai 
no era muito, mas dali a trs meses, ao completar vinte e um anos, poderia retir-Io e finalmente atingir seu objetivo.
       A arte culinria havia exercido grande atrao sobre ela, desde, que freqentava a escola sua, onde os cursos de maquilagem e manequim complementaram o 
aprendizado ideal para aquele corpo to feminino e esguio, que j deixava entrever uma mulher atraente, recm-sada da adolescncia. Suas colegas eram todas riqussimas, 
vindas dos mais diversos pases, mas Danielle destacava-se por ser a nica inglesa que tinha por padrasto um rabe bem-sucedido.
       Como a me, Danielle possua fartos cabelos loiros que caam sobre os ombros. Embora os olhos da me fossem azuis, os dela eram verdes como esmeraldas; uma 
herana do pai escocs.
        Era preciso reconhecer que as coisas no haviam sido fceis para me e filha depois que perderam o chefe da famlia. Moravam modestamente numa pequena casa 
ao norte de Londres, mantida graas aos esforos da me e com os magros recursos de que dispunha. Quando a menina completou dez anos, a me viu-se obrigada a voltar 
a trabalhar como secretria na companhia de petrleo, onde, finalmente, conheceu o homem que se tornaria seu segundo marido.
       Ali lembranas de Danielle foram interrompidas pela entrada da me no quarto.
       - Vai ficar para o jantar, minha filha? - perguntou.
       Apesar dos quarenta anos, Helen Hassan poderia passar por irm de Danielle, que sorriu ao ver a me usando roupas caras e jias discretas. Era difcil imaginar 
que aquela mulher bonita e simptica um dia tivesse se preocupado com o preo de um par de sapatos! Mas como haviam sido tempos marcantes, hoje Danielle no se permitiu 
viver com extravagncia. Embora nunca tivesse dito, desejava que seus pais no fossem to ricos. Adoraria dividir um apartamento com as amigas e lutar para, no fim 
do ms, repartir todas as despesas. Esse tipo de experincia a deixava fascinada. Mas eles, sem dvida, se sentiriam magoados se sugerisse sair de casa. Alm disso, 
conhecendo a educao recebida por Hassan, ela sabia perfeitamente que o padrasto desaprovava o grau de liberdade de alguns de seus colegas.
       Saa esporadicamente com alguns rapazes, sem contudo prolongar os encontros. DanieIle percebia que o olhar austero de Hassan impunha respeito e mantinha-os 
 distncia. Jamais havia sido necessrio afastar uma aproximao mais ntima. Talvez porque ningum a achasse atraente, pensou, olhando, insegura para o imenso 
espelho barroco pendurado na parede, um sorriso leve e malicioso despontando nos lbios.
       - E ento, minha filha? - repetiu a me. - Vai ficar para jatar conosco? Os Sancerre foram convidados. Vieram de Paris e Philippe quis saber se voc estaria 
presente.
       Danielle fez uma careta.
       Philippe Sancerre era filho de um homem de negcios, amigo do pudrasto. Um francs que tinha conhecido em Paris h um ano. Embora jovem, apenas cinco anos 
mais velho que ela, tratava-se de uma pessoa bastante experiente com as mulheres. DanieIJe deduziu isso pela maneira como ele a beijou numa noite em que tinham jantado 
juntos. Com olhos alegres e cabelos castanhos, Philippe a agradava, porm deixava-a embaraada quando por vezes ficava observando com ateno as linhas sensuais 
de seu corpo.
       Naturalmente Danielle no era uma jovem desinformada. Sabia das armadilhas e prazeres do sexo, mas havia uma grande distncia entre conhecer e experimentar 
um contato fsico. Nesse campo, reconhecia, no passava de uma garota ingnua, o que no deixava de lhe parecer ridculo. Afinal de contas, perguntava-se com ironia, 
quem no mundo de hoje, com quase vinte e um anos, ainda continuava virgem? Mas fazia questo de permanecer assim at que aparecesse um homem especial, digno de possu-Ia 
inteiramente.
       - Sim, vou ficar para o jantar - respondeu, certa de que veria um ar de felicidade estampado no rosto da me. Ao contrrio de algumas mulheres da sua idade, 
Helen Hassan no conseguia disfarar o orgulho que sentia pela presena da filha sensual e encantadora.
       No havia qualquer ponta de inveja diante da beleza daquela jovem a quem amava com dedicao.
       
       
       Danielle aplicou uma sombra esverdeada, piscou os olhos e recuou para observar melhor o efeito refletido no espelho. No quarto, havia delicados mveis dourados 
e objetos franceses do sculo XVIII, quase todos presentes do padrasto ao completar dezoito anos. Devia ser-lhe grata pelo resto da vida; refletiu, no pelas atenes 
recebidas, mas por fazer de sua me uma mulher apaixonada e amada.
       O colar de diamantes emitia raios de fogo entre os seios escondidos pela seda do seu vestido de noite. Hassan no lhe impunha o uso, de roupas orientais mais 
discretas, porm sabia que ele preferia v-Ia com roupas modestas e esperava que no se queixasse por ter escolhido aquele traje. Ao entrar na ampla sala de estar, 
percebeu que os olhos de Philippe se iluminaram de admirao diante, de sua elegncia. Ele e o pai levantaram num sinal de respeito e Philippe cruzou a sala para 
tomar-lhe as mos e beij-Ias ,com ardor.
       - Philippe! - ela exclamou, quase num sussurro, constrangida com o gesto inesperado.
       Madame Sancerre sorriu bondosamente, vendo o filho beijar as mos de Danielle mais uma vez antes de se afastar.
       - Assim voc deixar Danielle embaraada, querido - observou a mulher, gentilmente. - Ela no est acostumada com esses mpetos, no  verdade, petit!
       Antes que Danielle respondesse, madame Sancerre voltou-se para Helen Hassan e disse, com certa inveja:
       - Helen, voc dev.e se orgulhar de sua filha. Minha Catherine, apesar de ter apenas dezoito anos,  uma rebelde. No faz nada comme ei fault; no se comporta 
como une jeune fille bien leve. Mas no adianta! Quando lhe digo que no conseguir um bom casamento, ela ri e argumenta que no quer casar. Diz que vai estudar 
advocacia e construir a prpria vida. Assim, encerra o assunto!
       Madame Sancerre balanou a cabea, desanimada, mas dando a entender que secretamente aprovava a determinao da filha.
       O padrasto aproximou-se de DanieIle e a abraou.
       - Tem razo, madame - respondeu  senhora -, ns sentimos orgulho de Danielle. Ela  o que se pode chamar de filha perfeita: bem-educada, bonita, inteligente...
       DanieIle corou.
       - Uma jia rara! - acrescentou madame Sancerre, sorrindo. -  necessrio cuidar muito bem dela, meu caro.
       - Farei o possvel e o impossvel para proteg-Ia. - Hassan falou Com tal seriedade, que Danielle sentiu vontade de protestar, de dizer-lhe que era uma pessoa 
comum como qualquer outra, com defeitos e qualidades, no uma flor para ser guardada dentro de uma redoma.
       Mas madame no parava de falar e ela no teve oportunidade de expressar sua opinio. Aos poucos a conversa acabou girando sobre assuntos mais gerais.
       Depois do jantar, DanieIle e Philippe conversaram a ss, enquanto os pais discutiam negcios e as mes faziam consideraes sobre moda.
       - Chrie - disse Philippe -, h muito tempo no nos vamos.
       Convena seu padrasto a lev-Ia para Paris na prxima vez que ele viajar.
       - Sinto muito, Philippe, mas no vai dar - respondeu Danielle, afastando a mo que ele insistia em tocar - Em breve recomearei meus estudos.
       - Estudos? Ah, sim, o curso e culinria! Voc deveria faz-Io em Paris, o verdadeiro bero da arte. O que acha da idia? Talvez seu pai no aprove, sabendo 
que estar longe e desprotegida, estou certo?
       - Sim, sem dvida ele no concordar com a idia. Um dia, quem sabe...
       - Um dia a liberdade ser conquistada, no ? - ele completou, sorrindo. - S espero que v direto ao meu encontro. Danielle, voc  adorvel... uma atraente 
mistura de adolescente e mulher. Quando se tomar madura, ser irresistvel!
       Danielle compreendia muito bem as observaes picantes de Philippe. Ele era famoso por suas ousadas tentativas de conquista.
       - Voc no se cansa de flertar, no? - disse-lhe.
       - Eu? Flertar? - ele exclamou, erguendo as sobrancelhas - Nunca! Ainda mais com voc, mignonne! Seu protetor jamais permitiria e, alm disso, meus pais dependem 
dele nos negcios. Agora, se est procurando um dom-juan de verdade, um homem temperamental e dominador, no precisa ir muito longe. Basta olhar para a famlia de 
Hassan. Ele nunca lhe falou sobre Jourdan?
       Ao ouvir aquilo, Danielle arregalou os olhos, sentindo o corpo enrijecer. 
       -  inacreditvel! - continuou Philippe. - Jourdan  o sobrinho predileto dele!
       - Talvez j tenha falado. .. No me lembro. Afinal, os parentes so tantos! - Danielle mentiu, ao mesmo tempo que no compreendia por que havia ficado perturbada 
com a simples meno de um primo desconhecido. Jourdan! Que nome estranho!
       O orgulho, entretanto, fez com que dominasse a curiosidade crescente e no perguntasse nada a respeito dele.
       - Se ele tivesse lhe falado de Jourdan, com certeza voc lembraria - Philippe insistiu. - No entendo como pde esconder a relao dos dois, pois so  muito 
prximos. Hassan considera-o mesmo como um filho.
       Os olhos de Danielle revelavam absoluta incredulidade. Se Jourdan fosse to importante para seu padrasto, como Philippe dizia, era impossvel que Hassan nada 
tivesse dito sobre ele. Alm disso, no deixaria de visit-Ios, pelo menos de vez em quando.
       - Mas h uma coisa - acrescentou Philippe. - Jourdan nunca aprovou o casamento de Hassan com sua me, embora talvez j tenha esquecido tudo. O casamento, 
afinal,  um fato consumado, e ele  um homem sensato demais para continuar se opondo inutilmente, principalmente porque teria muito a perder.
       - Por outro lado, quais as vantagens que teria, colocando-se a favor? - DanielIe afinal perguntou.
       Philippe olhou-a intrigado e sorriu.
       - Hassan no lhe contou como chegou a controlar a indstria de petrleo de Qu'Rar?
       - Meu padrasto no costuma discutir negcios com mulheres - respondeu, contrariada ao revelar tal fato.
       Depois de alguns anos de convivncia com o padrasto, Danielle acabou compreendendo que aquela atitude ligava-se mais a um desejo de poup-Ia e  me das preocupaes 
dirias, que a deciso de exclu-Ias de uma parte da vida dele. Reconhecia, porm, que os resultados, em Imbos os casos, no pareciam diferentes.
       O xeque Hassan era bondoso e seu cuidado com elas era contnuo, Mas Danielle estremecia s de pensar no que seria dela e da me le tivessem que se submeter 
a um homem oriental que considerasse as mulheres meros objetos domsticos. Como todas as moas europial, DanielIe desejava ser independente. Contudo respeitava 
o modo de pensar do padrasto, pois no queria ofender ou magoar o homem que tanto tinha feito por ela e a me.
       - Sabe que Jourdan concordaria plenamente com isso? - continuou Philippe, em tom de brincadeira. - Sem tirar nem pr, ele  o que !te costuma chamar de chauvinista. 
Quando esteve em Paris pela ltima vez, fiquei abismado com a opinio dele sobre o sexo frgil, ma chrie, e ainda mais com a maneira com que as mulheres reagiam 
s idias dele. Naturalmente, poder e riqueza combinam muito bem, em Jourdan no falta nada, embora sua ambio seja desmedida. . .
       Philipe olhou-a de relance para observar sua reao. Mas Danielle no demonstrou nada. Parecia mergulhada numa aparente irritao causada por aquele tal sujeito 
que, segundo Philippe, desprezava as mulheres e as usava para se divertir, desfazendo-se delas depois, como copos descartveis.
       - Voc sabia que o pai de Hassan, como administrador pleno dos bens da famlia, pde escolher livremente o filho para suced-Io?
       Ela no sabia, mas, no querendo admitir, confirmou com a cabea e esperou que Philippe continuasse. Apesar de reservada, sentia grande curiosidade a respeito 
da famlia do padrasto.
       - O xeque Den Ibn Ahmed tinha quatro filhos, dos quais Hassan era o predileto e por isso seu sucessor direto. Mas ele no possua filhos. Os trs irmos demonstraram 
franco descontentamento com isso. Por fim, lbn Ahmed compreendeu que um homem sem filhos no seria de fato a escolha mais certa para a conduo de Qu'Har. Depois 
de consultar os conselheiros, montou-se numa companhia para controlar a produo de petrleo e os rendimentos da Qu'Har, e Hassan, ainda o preferido, passou a administr-Ia. 
Foi uma deciso sbia, pois com Hassan a companhia se diversificou e cresceu, e os lucros so empregados para beneficiar no apenas a famlia, mas tambm seu povo. 
Talvez voc no saiba, mas os ancestrais de Rassan pertenceram a uma pequena tribo que ficou famosa por sua bravura e independncia. Foi um dos meus antepassados 
que persuadiu o xeque a mandar os filhos se educarem no exterior, e a partir da comeou a relao entre a famlia de Hassan e a minha. Papai diz que seu padrasto 
compensou amplamente a dvida moral para com o meu av atravs do volume de negcios que ele nos deu e continua dando at hoje. . .
       - E voc, no concorda com isso?
       - Sem dvida, ele tem sido generoso - admitiu Philippe -, todavia poderia tornar a ajuda mais efetiva. Por exemplo, um cargo importante em uma de suas inmeras 
companhias representa pouco para ele e seria de inestimvel valor para ns. Concorda?
       Como Danielle sabia que, para seu padrasto, um homem, deveria vencer na vida com seu prprio esforo, preferiu no responder. Em algumas ocasies, Philippe 
mostrava-se agradvel e encantador, mas no parecia to dedicado ao trabalho quanto o pai. No entanto, era  natural que, acostumado a uma vida sofisticada em Paris, 
Philippe, ambicionasse uma riqueza maior para o futuro.
       Sem dvida ele a achava atraente, se casaria com uma mulher ambm rica, mas talvez uma francesa calma e. tranqila que acabass fechando os olhos para os 
negcios do marido. Ela jamais faria tal coisa, concluiu, surpresa com o prprio pensamento. S se casaria com um homem capaz de am-Ia intensamente e compartilhar 
com  ela todos os acontecimentos de sua vida profissional e emotiva. Sorriu com tristeza: com certeza existiam poucos homens dispostos quela comunho verdadeira. 
Mesmo o padrasto, que amava Helen, tinha interesses dos quais a exclua.
       Ser que sua me conhecia o passado de Hassan?, perguntou-se.
       Claro que sim, embora nunca tivesse comentado nada com ela. Mas por qu? Precisava admitir uma coisa: s depois de ter voltado da Sua  que sua me comeou 
a trat-Ia como adulta, e no podia esquecer que, para ela, sempre seria a filhinha querida e inexperiente.
       Danielle refletiu que havia amadurecido muito nos ltimos anos.
       Tinha uma sensibilidade que atraa as pessoas com problemas, a procur-Ia e a desabafar-se com ela. Esse tipo de experincia colaborou para fortalecer ainda 
mais os traos maduros de sua personalidade.
       Nem por isso deixava de compreender que, quando se est envolvido emocionalmente, torna-se muito difcil encontrar qualquer soluo ou julgar com imparcialidade.
       Fazendo um balano de sua vida, prometeu-se uma coisa: ser fiel a si e  jamais fazer concesses que no achasse necessrias e justas.
       - Aborreo voc com toda essa conversa? - perguntou Philippe.
       Danielle respondeu com um sorriso. Na verdade, estava interessada. E mesmo que no estivesse, pensou Philippe, orgulhoso e egosta como era, no acreditaria 
que ela pudesse se cansar com a histria. Para ele, as mulheres sempre se sentiam encantadas com sua presena.
       - No, de jeito nenhum - respondeu pausadamente. - Por favor, continue.
       - Ainda no lhe contei o melhor. Quando a mulher de Hassan percebeu que ele no seria o cabea de Qu'Rar, mas s administraria os negcios de longe, pediu 
o divrcio. Oh, sim, as muulmanas, segundo o Coro, tm esse direito, porm poucas chegam a utiliz-Io.
       Sem uma famlia rica e poder para sustent-Ias, as divorciadas levarn uma vida em geral infeliz. Mas ao que parece, Miriam nunca desejou casar com Hassan, 
e sim com o irmo mais velho dele. Hassan recusou as demais esposas permitidas pelo Coro. Ele j estava ciente de que seria impossvel ter um filho e contou a meu 
pai que a perspectiva de enfrentar problemas com trs esposas no o entusiasmava.
       Assim, alm de dar-lhe o controle absoluto dos rendimentos do petrleo, o pai dele escreveu no testamento, com a presena de toda a farnflia, que Hassan escolheria 
seu prprio sucessor -   entre os membros da famlia,  claro. Fazer o contrrio seria absurdo; mas excetuando essa exigncia, Hassan viu-se livre para indicar quem 
quisesse, e at a poca do casamento com sua me a opo tinha recado sobre Jourdan.
       Philippe no demonstrava, mas o tom de voz denunciava que havia um clima de oposio  figura de Jourdan. Gostaria de lhe perguntar a razo, DanielIe pensou. 
Seria. por causa dele que o padrasto no as linha levado at Qu'Rar ou nunca havia trazido nenhum membro da famlia para visit-Ios? Intrigava-se cada vez mais com 
o tal desconhecido. Em nome de qu ele ousava afastar as duas famlias? Ela sabia que muitos rabes desprezavam os compatriotas que se casavam com pessoas de outra 
cultura, mas, pelo que Philippe ,contou, Jourdan no havia cortado relaes com o tio, e, com conrteza, no era inteno dele criar uma rixa familiar.
       - A verdade  que ningum da famlia ficou contente com o casamento de Rassan e sua me - continuou Philippe. - Afinal de contas, Hassan  um homem rico e 
poderoso, e, embora Jourdan possa herdar dele esta posio, a idia de que toda riqueza ser partilhada por estrangeiros ultrapassou os limites de tolerncia da 
famlia.
        Uma palavra chamou a ateno de Danielle, uma palavra que el repetiu diversas vezes a si mesma: "estrangeiros".
       - Que estrangeiros? - perguntou, ansiosa.
       - Ento voc no sabe? - replicou Philippe, satisfeito. - Na veias de Jourdan corre uma ,mistura de sangues. De fato, ele deve Hassan ser aceito pela famlia 
e ocupar uma posio importante. Ele  filho do irmo caula de Hassan que, quando jovem, estudou numa universidade de Paris. Foi l que acabou conhecendo a mulher 
qu seria a me de Jourdan, embora no tivesse casado com ela. Ningum da famlia ficou sabendo do caso e da criana, at que Suad foi assassinado numa briga de rua. 
Hassan viajou ento para Paris para se inteirar dos acontecimentos e descobriu que o irmo vivia com Jeanenette. Ao constatar que ela estava grvida de Suad, ofereceu-lhe 
dinheiro em troca de plenos direitos legais sobre o beb, quando este nascesse. Jeannette concordou e, to logo nasceu a criana, o tio levou para Qu'Har. Comenta-se 
na famlia que Hassan tinha a inteno de criar Jourdan como o filho que no pde ter, e at o momento de Jourdan ir para a escola viveu sob a proteo dele...
       O corao de Danielle ficou cheio de dor, tocado pela dramtica histria daquele menino abandonado. Como Jourdan podia ser to ingrato com quem tinha lhe 
salvado a vida de um destino incerto? Como podia ele, criado como filho verdadeiro pelo tio, ignor-Io, quase se voltando contra ele? E Hassan? Por que nunca lhe 
contou sobr a existnCia daquele homem?
       Como se lesse os pensamentos dela, Philippe comeou a fornecer  respostas para todas as perguntas, mas antes que pudesse complet-Ias foi interrompido pela 
chegada de Hassan e monsieur Sancerre, que o chamaram para se juntar a eles.
       - Ah, esses homens! - exclamou madame Sancerre, acompanhando com os olhos a sada de Philippe. - Mas no resta dvida, petite de que Philippe prefere a sua 
companhia  do xeque e do pai.
       - A senhora no estar sendo injusta? - replicou Danielle, querendo ser gentil.
       - Ora, vamos, chrie - protestou a senhora. -  uma mulher encantadora. Ento no percebeu que Phillippe tem uma forte queda por voc?
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO II
       
       - Ento no notou mesmo que Philippe est interessado em voc? disse Rassan, conversando com Danielle sobre o jantar da noite Itnterior, quase repetindo as 
palavras de madame Sancerre.
       - Ele  simptico - ponderou ela -, mas acha que todas as jovens razoavelmente bonitas tm o dever de se curvarem a seus ps.
       Danielle fez uma careta de desagrado. O padrasto riu e passou a mo nos cabelos dela.
       - E como todas as moas que so muito mais do que razoavelmente bonitas, voc ignora os galanteios dele, no  isso?
       O padrasto estava bem-humorado e demonstrava alvio por ela no achar Philippe interessante. Mas por qu?, perguntou-se Danielle, sorrindo. Naturalmente, 
Hassan preferia mant-Ia segura em casa e talvez visse no relacionamento dos dois jovens o perigo de perd-Ia.
       - Philippe no passa de uma companhia agradvel - afirmou ela, olhando-o fixamente.
       Aquele parecia o momento adequado para lhe falar sobre as coisas que comeavam a preocup-Ia. Mas no tinha inteno de mago-Ia. Queria apenas deixar claro, 
para o padrasto e para a me, que j era suficientemente adulta para tomar as prprias decises.
       - O senhor no pode continuar censurando todos os meus namorados - disse com suavidade, mas procurando provoc-Ia.
       Hassan olhou-a como homem e no como pai. Danielle corou ao perceber que os olhos dele lhe percorriam o corpo todo at se deterem nos olhos verdes e faiscantes.
       - Sim, voc j  uma mulher adulta - concordou, com voz , sria. - Danielle, sabe que me preocupo muito com a sua felicidade, no? - Ela fez que sim com a 
cabea. - Ento no existem motivos para discutirmos, certo?
       - Certo. . . - respondeu, surpresa com o final repentino da conversa. No fundo, sentia que, com aquele silncio sbito e aquela brevidade, de alguma forma 
ele a tinha manobrado.
       
       
       Ele precisa compreender e aceitar que no vou viver aqui em casa para o resto da minha vida, Danielle disse a si mesma naquela tarde, enquanto se arrumava 
para sair com duas amigas da escola,. Uma, delas ia ser modelo e a outra era danarina e tinha acabado de assinar contrato para um espetculo no West End. Danielle 
invejava-Ihes a liberdade, embora tivesse certeza de que no se adaptaria quele tipo de relacionamento inconseqente e superficial que as colegas mantinham com 
alguns homens. Eles entravam e saam da vida delas sem deixar qualquer marca. . .
       Gostava dos homens como amigos, mas no conseguia se imaginar envolvida num caso amoroso srio e regular, pois, para surpresa dela, a idia de um contato 
mais ntimo no a entusiasmava. Seria uma mulher frgida? No, essa era uma palavra forte demais para uma natureza to feminina! Simplesmente, pensou, ainda no 
tinha descoberto o sexo, o que precisava encarar com muito bom humor.
       Sorrindo e achando engraadas aquelas consideraes, vestiu jeans, deixando as roupas mais caras de lado. Era uma garota romntica, refletiu, afinal o sexo 
feito por simples prazer no significava nada para eIa. Qualquer aproximao mais ntima deveria ser fundamentada no amor.
       Suas duas amigas eram bastante divertidas. Embora pertencessem a famlias relativamente abastadas, freqentavam feiras e bazares em busca de roupas baratas 
e usadas, e mostravam predileo por modelos da dcada de vinte ou trinta. Como Danielle, tambm vestiam jeans e camisetas surradas. Quando se encontraram, estavam 
alegres e dispostas, falando muito sobre os planos para o futuro. Ao descreverem o apartamento em que moravam e o modo de vida que levavam, Danielle sentiu uma pontinha 
de inveja.
       - E voc, Danielle - perguntou Corinne, a danarina -, quais so seus planos?
       - Estou pensando em abrir um restaurante. . .
       - Um restaurante?! - exclamou a moa, erguendo as sobbrancelhas - Puxa! Voc  um bocado ambiciosa, hein? Sempre tive a Impresso de que pensava s em casamento! 
Bem que estranhava o fato de voc no namorar, principalmente por causa da posio social da sua famlia.
       - O que tem uma coisa a ver com a outra?
       - Refiro-me ao seu padrasto, Dan. No me diga que ele ainda no pensou em casar voc com algum escolhido por ele mesmo? Quero dizer, no Oriente Mdio casamento 
arranjado ainda  uma realidade, principalmente nas classes mais altas. Sabe, h alguns meses uma colega minha namorou um desses homens. Ficou com ele um bocado 
de tempo. Ela me disse que eles so fogo, e que  preciso ler muita. estrutura para aceitar ficar ao lado deles como se fosse um objeto. . . sempre  disposio. 
. .
       Danielle sorriu meio sem graa, julgando a observao de Corinne de mau gosto.
       - Ele encheu Vanessa de jias e roupas, mas quando chegou a hora do casamento caiu fora. Parece que tinha uma bela noivinha esperando por ele... Nossa, Vanessa 
ficou louca de raiva e disse isso pra ele. Pensa que adiantou? Ele morreu de rir! Falou que havia pago por ela, coisas do gnero. . .
       - Pelo menos ela foi recompensada  altura - observou Linda, com cinismo. - J ouvi falar de casos como este, muitos deles com muulmanos. Aprenderam que 
o dinheiro compra tudo e na hora de concluir negcio nunca saem perdendo. Mas  claro... uma garota esperta pode se dar muito bem. . . jias, viagens, roupas. . 
.
       Danielle sentiu-se mal com a conversa.
       - Bem, preciso ir andando - disse, repentinamente, passando as mos nos cabelos.
       Ela mesma no, sabia o que a tinha deixado to ofendida; se o fa to de a garota entregar o corpo em troca de jias, ou o homem que havia pago por ela. Mas 
concluiu que o homem parecia o respon!lvel pelo sentimento repulsivo que a invadia naquele momento, porque simplesmente tinha usado a mulher para satisfazer-se, 
sem se importar, com os sentimentos que deveriam sustentar um relacionamento.
       - Ainda tem mais - Corinne continuou. - Na verdade, Vanessa no se importou muito com tudo isso, pois segundo ela o tal de Jourdan  era realmente uma gracinha. 
Valeu a pena! No estou dizendo que ela no o levava a srio. Na realidade, a vontade dela era casar com ele. . .
       Jourdan! Danielle estremeceu ao ouvir o nome. Talvez fosse tolice pensar que se tratava da mesma pessoa de quem Philippe havia falado. Mas parecia pouco provvel 
,que existissem dois rabes ricos com o nome idntico. 
       - Est se sentindo bem, Danielle? Voc est to plida! Corinne reparou.
       - Estou bem, Corinne - mentiu, pegando a sacola e levantando do banco do parque -, mas preciso mesmo ir embora. Prometi que chegaria cedo em casa para jantar.
       No era verdade. Porm, de repente sentiu necessidade de saber mais sobre a famlia do padrasto. Ele ou a me precisariam falar, com ela sobre o assunto.
       A caminho de casa, espantava-se por nunca antes haver sentido, curiosidade a respeito da falta de contato entre as famlias. Talvez fosse assim, pensou, por 
ter estado tanto tempo fora, estudando, envolvida pelo estreito mundo escolar e pelos problemas de ordem, pessoal.
       
       
       Enquanto tomavam caf, aps o jantar, Danielle tocou no assunto.
       - Danielle! - exclamou a me, surpresa com a intromisso da filha em algo to particular.
       - Deixe, Helen - interveio Hassan, com um sorriso. - Ela tem todo o direito de perguntar. Alis, nunca entendi por que no quis saber antes.
       - Talvez por imaturidade ou por estar preocupada exclusivamente com a minha vida - admitiu Danielle, com sinceridade.
       - E quem despertou seu interesse? - Hassan olhava fixo para ela, sondando-a. - Teria sido Philippe Sancerre?
       - Em termos - disse Danielle. Sabia das ligaes profissionais entre o padrasto e a famlia de Philippe e no desejava causar problemas para o rapaz. - Em 
parte, porque, vivendo mais aqui em casa, percebi o quanto vocs estavam desligados dos outros.
       - Bom - comeou Helen -, acho que posso lhe explicar a razo principal desse afastamento. A famlia Ahmed no aprovou nosso casamento. De certa forma estavam 
certos. . . afinal, no me conheciam! Sabe, Danny, Hassan precisou abrir mo de muitas coisas para ficar conosco.
       Danny!, exclamou Danielle consigo mesma. A me a havia chamado pelo apelido carinhoso de quando ainda era criana! Sorriu, os olhos midos de lgrimas, como 
os da me.
       - Minha famlia foi teimosa e cegamente preconceituosa - comentou Hassan, e virou-se para a esposa. - Voc, querida, por favor, nunca duvide de que desfrutei 
com prazer de cada segundo da minha vida a seu lado. - Ele abraou Danielle carinhosamente. - A felicidade que vocs duas me do  inestimvel, como a chuva que 
fecunda um deserto.
       - E agora poderemos ser ainda mais felizes - comentou Helen, lurridente, e voltou-se para Danielle. - A famlia de Hassan quer a reconciliao.
       - Inclusive Jourdan? - Daniele no pde evitar o tom amargo.
       Hassan retirou o brao dos ombros dela e lanou um olhar carregado de cumplicidade para Helen, que fez com que Danielle sentisse um medo nunca antes experimentado.
       - O que sabe a respeito de Jourdan? - perguntou ele, com tranquilidade.
       - Sei apenas que se ops ao seu casamento com mame, que considera as mulheres meros objetos de satisfao sexual e que, quando se cansa delas, abandona-as 
sem a menor considerao.
       - Jourdan  um homem criado no deserto - explicou Hassan, sem procurar contradiz-Ia. -  um homem decidido, um pouco duro, talvez at mesmo insensvel em 
algumas ocasies, mas possui qualidades inegveis. Nenhum homem pode viver como um gavio cruel pelo resto da vida. H de chegar o momento em que ir precisar da 
delicadeza de uma mulher sincera, quando o corao mais rido e duro reclamar pela calma e pela paz de um osis. No caso de Jourdan, este outro lado de seu carter 
ainda no veio  tona. Danielle. . . no vou lhe perguntar como soube dessas coisas sobre meu sobrinho, pois j encontrei a resposta. No  de bom tom que algumas 
pessoas, cientes de sua fraqueza e incapacidade, procurem caluniar outras mais dignas, sem estas sequer estarem presentes!
       - Philippe no  desse tipo - protestou, chocada com o cinismo do padrasto.
       - No? Por acaso voc sabe que o pai dele me pediu sua mo em casamento em nome do filho?
       A expresso de espanto de DanieIle revelou que ignorava toda a situao.
       - Danielle. .. no culpe Philippe. Aquele rapaz  sofisticado, mantm um padro de vida bastante elevado. Voc  filha de um homem extremamente rico,  bonita, 
muito bonita! Philippe ama a beleza e o luxo, isso  natural. Depois, eu e o pai dele temos negcios. . . no acha normal que a mentalidade prtica de um francs 
se volte para um casamento conveniente?
       - Pensei que ele gostasse de mim. . . - murmurou, em tom de queixa. - No sabia que. . .
       - Mas voc no gosta dele? No houve nada entre vocs dois? - perguntou a me.
       - Felizmente no - respondeu. - Oh, mame, a senhora tirou a sorte grande! Amada por dois homens... E eu? Se todos que aparecerem forem como Philippe e Jourdan, 
ser impossvel acreditar na existncia de um amor verdadeiro.
       - Jourdan? Por que menciona Jourdan? - perguntou o padrasto. 
       Ela mesma se mostrou surpresa. No fundo no queria ser to independente quanto imaginou a princpio. Desejava apenas encontrar algum que na realidade a amasse. 
E essa viso romntica do amor provavelmente ligava-se  evidente adorao que o padrasto dedicava  sua me. Hassan era um caso nico entre os rabes, e, naquele 
momento, cresceu em importncia ao ser comparado com os homens em geral.
       Danielle tentou ordenar rapidamente os pensamentos, apressada pelo padrasto, que a fitava aguardando resposta. Estimulada pelo  olhar provocativo dele, ergueu 
a cabea com certo orgulho.
       - No  verdade que no seu pas as mulheres so obrigadas a casar contra a prpria vontade? E o que voc me diz dessas infelizes que entregam seu destino 
nas mos de um marido desconhecido?  Pois Jourdan aprova tudo isso!
       - Mas ento voc condena um homem pelo simples fato de um outro, bastante invejoso, deturpar seu carter? - perguntou Hassan, com brandura. - Danielle, voc 
me surpreende.
       - No foi apenas Philippe que. . . me contou sobre Jourdan.
       O olhar atnito do padrasto fez com que ela se sentisse embaraada e culpada por continuar com a argumentao.
       - Por acaso, sem saberem que eu o conhecia, umas amigas falaram sobre ele. . . - ela explicou. - Ele se envolveu com uma moa em, Paris.
       - Uma putain - Hassan exclamou, num gesto brusco. - Uma mulher que vende o corpo em troca de. . .
       - Isso no importa! - protestou, imediatamente. - Tratava-se de uma pessoa, um ser humano com sentimentos! Se os homens no a pagassem por esse tipo de coisa, 
elas no estariam por a se perdendo!
       - Um homem tem necessidades - explicou Hassan, discordando. - Quando no pode satisfazer-se de outra maneira,  natural que as procure. Nem sempre  possvel 
conciliar envolvimento emocional e apelos fsicos! Ento, nesse caso, que resta a fazer? Ora, Danielle, eu a julgava bem mais compreensiva. Mas condenar um homem 
porque procura saciar um apetite natural!. . .
       Danielle baixou a cabea, os olhos midos de lgrimas.
       E.mbora se amassem, ela e o padrasto no tinham os mesmos pontos de vista. Havia uma grande distncia entre os dois, quando se tratava de avaliar o sexo masculino.
       E se lhe perguntasse sobre as necessidades da mulher? Sobre os movimentos femininos? Poderiam ser saciados da mesma maneira? Claro que no! Sem dvida o padrasto 
ficaria chocado e deprimido: Mais uma vez os padres morais, diferentes para o homem e para a mulher, eram o ponto central da discusso! Entretanto o sexo feminino 
no dependia apenas dos desejos do homem. O problema era mais complexo, pois as prprias emoes da mulher encarregavam-se de prende-Ia. Se o homem conseguia satisfazer 
suas necessidades sem nenhum elo afetivo, a mulher, ao contrrio, raramente se entregava sem emoo. Que injustia!, desejou dizer. Mas calou-se. Limitou-se a reunir 
todos as foras para pensar com sensatez.
       - Naturalmente ningum  infalvel! Um homem pode fraquejar e ser perdoado. Mas esse no  o caso de seu sobrinho! Longe de apenas saciar a sede, ele parece 
sentir prazer em continuar errando. Siceramente, sinto pena da mulher que se casar com ele. Ou das mulheres que sero suas esposas. . .
       - No, voc est errada, Danielle. - Os olhos dele expressavam dor e admirao pelas consideraes contundentes da filha,- Jourdan tem direito a uma nica 
esposa - explicou Hassan. - Imagino que Filippe tenha lhe contado a histria do nascimento de meu sobrinho. Porm no deve ter mencionado a promessa que fiz  me 
dele, antes de pegar a criana aos meus cuidados. Prometi a ela que Jourdan receberia uma educao catlica. Ela morreu poucos dias depois do parto mesmo assim decidi 
cumprir o prometido. Portanto, Danielle, apesar da posio que ele ocupa em Qu'Har, meu sobrinho  to catlico quanto voc.
       Daniele conteve o choro, envolvida por uma estranha sensao de irrealidade, por um pressentimento inexplicvel que a invadia e era intensificado pela expresso 
do rosto da me, cujos olhos no saam de cima dela.
       - Como minha filha adotiva - acrescentou Hassan -, um dia voc tambm se tornar extremamente rica. Nunca falamos disso antes por falta de oportunidade. Como 
sabe, alm de eu ser dono de grande riqueza, controlo tambm a propriedade da famlia, que s pode passar de pai para filho, de irmo para irmo e de tio para sobrinho... 
As mulheres no tm direito  herana. Quando eu morrer, minha, fortuna pessoal ser dividida entre voc e sua me, mas minha posio na companhia de petrleo ser 
disputada entre meus irmos, j que no possuo filhos legtimos. A luta pelo poder em Qu'Har oscila sutilmente entre eles, ambos bastante invejosos e dominados pela 
ambio. Se u morrer sem deixar-lhes minha parte na companhia, com certeza explodir uma guerra civil no nosso pequeno pas, e em seguida tudo o que papai e eu 
mesmo construmos fatalmente ser destrudo.
       Ele fez uma breve pausa e continuou:
       - Alm de tudo isso, sou extremamente preocupado com a sua segurana. Repito, Danielle: com a minh morte, voc se tornar riqussima. Tudo o que eu e sua 
me temos tentado fazer  proteg-la contra inescrupulosos e interesseiros. Procure entender.
       Danielle sentiu-se vencida. Ento ele acreditava que ela no tinha condies de cuidar de si mesma?
       - Sendo assim, papai, peo-lhe que no me deixe nada. ., Prefiro vencer por meus prprios esforos...
       Diante dessas palavras, Hassan procurou abrandar a voz e medindo a extenso do que dizia. De repente, descobriu que estava na frente de uma garota bela e 
frgil, de olhos verdes como pedras preciosas, e muito decidida!
       - Danielle, voc  uma mulher bastante sensata. Sei que conhece os perigos de uma riqueza excessiva e que nunca abusar desse privilgio. Mas no se preocupe. 
J tomei as devidas providncias para a preservao da minha parte na companhia. E j tratei de assegurar a herana que um dia passar s suas mos...
       Hassan olhou para Helen significativamente, deixando claro que havia entre eles um acordo misterioso. Um frio percorreu o corpo de Danielle, que sentiu medo 
ao ver-se deixada de lado naquela questo.
       - Como assim? - perguntou finalmente.
       Hassan aproximou-se, tomou-lhe as mos e fitou-a com carinho.
       - Minha frgil avezinha, no precisa ter medo... Jourdan sabe o tesouro que guardo comigo. Uma prola que no tem preo, e que ele tambm preservar com todo 
amor... Quando voc se tornar sua esposa, tudo isso...
       
       
       E a voz de Hassan foi desaparecendo como por encanto. Danielle havia gravado apenas as ltimas palavras: "Quando voc se tornar sua esposa..." Ento era ela 
a infeliz mulher prometida para Jourdan? Por deus, exclamou para si mesma. Agora entendia tudo!
       Danielle!
       A voz da me, macia e ansiosa, f-la despertar e voltar  realidade.
       - Estou bem, mame. S que no vou casar com Jourdan. Prefiro passar fome a ter de viver com esse homem!
       Quanndo acabou 'de falar, percebeu o quanto havia sido infantil. Custou a crer naquela deciso absurda que seus pais tinham tomado. Era preciso que entendessem 
de uma vez por todas que. ela era madura o suficiente para escolher os rumos de sua vida.
       - Mame, sei que a senhora  capaz de me entender. - Ela insistiu.
       - Claro, querida - respondeu a me, olhando o marido de relance. - Mas Hassan pensa apenas no seu bem-estar. Danny, querida, eu e seu pai tentamos proteg-la...
       - Oh, mame! - exclamou Danielle, suspirando. - No pode mas me manter em casa como se fosse uma bonequinha frgil. Alm disso, depois de ter ouvido as aventuras 
de Jourdan com as mulheres, nosso casamento seria um desastre!
       - Danielle - alertou Rassan, com calma -, Philippe Sancerre lhe falou dele com muita malcia. .. Claro, no posso responder pelo passado de meu sobrinho, 
mas sei que, como todos os homens, ele encara o casamento com seriedade, e tenho certeza de que depois de casados...
       - No me interessa o quanto  srio o casamento para Jourdan - interrompeu-o. - Mesmo que falssemos de um outro homem, no mudaria meu ponto de vista. No 
estou discutindo a personalidade dele. O que questiono  o prprio princpio do casamento arranjado, sejam quais forem as razes. Oh, entendo que deseja meu bem-estar, 
mns esse casamento me repugna. No posso concordar com isso!
       - Querida, compreendo como se sente agora - disse Helen.- Hassan, procure entend-la. Danielle no  muulmana. Dificilmente poderia aceitar um papel passivo 
e ceder a um marido dominador.
       - No estou pedindo isso a ela - Hassan se defendeu, obsevando o corpo encolhido e tenso de Danielle.
       - Ento concorda que no poder haver casamento? - perguntou Danielle.
       - Se  essa sua vontade... Mas, confesso que estou decepcionado. Tenho certeza de que o casamento daria certo. Naturalmente, terei de contar sua deciso a 
Jourdan...
       - Em breve ele encontrar outra mulher que o queira - completou Danielle, lembrando da amiga de Corinne.
       - Ele tambm ficar desapontado quando souber que foi recusado... mas talvez a culpa seja minha.Esqueci que voc no  minha filha, de fato, embora a considere 
como tal. Ou, cOmO diz sua me,uma filha oriental...
       Hassan parecia abatido
       - Sei que fez tudo para assegurar meu futuro - Danielle falou, com pena dele. - E lhe agradeo por isso. Todavia, um dia encontrarei um homem que eu possa 
respeitar, com quem partilharei minha vida, e no algum que me deseje apenas para gerar filhos. Alm disso, no me sinto preparada para o casamento...
       - Talvez no. . . por enquanto. Mas j que no quer casar com, Jourdan, pelo menos poderia visitar minha famlia... em meu nome como sabe, em breve terei 
de ir aos EUA a negcios. Sua me ir comigo. Eu me sentiria feliz, Danielle, se aceitasse aproveitar essa semanas de frias para mostrar.  minha famlia a filha 
adorvel bonita que ...
       - Quer que eu v a Qu'Rar? Oh, mas isso  impossvel!... - Ela falou e logo se interrompeu. Ia dizer que no podia ficar sozinha com pessoas estranhas, que 
tinham condenado o casamento entre Hassan e sua me. Alm disso, no Se sentiria bem ao lado do homem que tinha acabado de recusar como marido! Mas achou melhor 
deixa essa discusso para depois.
       
       
       Mais tarde, enquanto Danielle se preparava para dormir Helen a procurou.
       - Filha - ela comeou, sentando na beirada da cama e observando-a com olhos meigos -, queria pedir-lhe que fosse a Qu'Rar.
        muito importante para Rassan, mais do que voc possa imaginar! Naturalmente compreende a tristeza que ele sente por no ter filhos Principalmente considerando 
a posio que ocupa. T-la como filha deixa-o felicssimo. No lhe negue o prazer de apresent-la para o membros da sua famlia...
       - Uma famlia que nos rejeitou, mesmo quando ele trabalhava para lhes dar dinheiro... No, mame, no posso fazer isso. N seria honesta se fingisse que...
       - Nem por seu pai? - interrompeu Relen. - Jourdan perder prestgio na famlia com a recusa do casamento, mas o mesmo acontecer com Hassan...
       Danielle parou para meditar naquelas palavras, sentando-se ao lado da me e olhando fixamente para o cho. Compreendia a importncia dnquela viagem, no entanto 
no desejava se comprometer.
       - Entendo como papai se sente... Mas... A senhora sempre soube que eu seria incapaz de aceitar um casamento desses, no  mesmo?
       - Sim, minha filha. Porm Hassan tinha certeza de estar agindo da maneira mais correta. Estava convencido de que assim garantiria seu futuro. Penso que s 
sua reao explosiva acabou mostrando a Impossibilidade dos planos dele. - Interrompeu-se, encarou Danielle . perguntou: - Agora que est segura de seus sentimentos, 
que tudo j foi esclarecido, no poderia aceitar esse pequeno convite?
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPTULO III
       
       s vezes a aceitao de um pequeno convite acaba exigindo esforo imensos, Danielle constatou, enquanto olhava pela janela do avio jato - um dos onze da 
companhia Qu'Har Air. Mas aquele e especial, pois pertencia  famlia de Hassan.
       Um jovem gentil e prestativo, Saud, tinha sido deslocado do trabalho normal nos escritrios da companhia para acompanhar Dal1ieIl naquela viagem. E ela estava 
encantada com isso.
       O barulho dos motores potentes do avio diminuiu, sugerindo q estavam chegando ao destino.
       Perdendo o controle, Danielle alisou a saia de seda com dedos trmulos. O tecido era verde-claro e discreto, e realava-lhe a cor dos cabelos e o bronzeado 
da pele. Examinou as mos e os braos surpreendeu-se por estar to queimada, o que era raro para uma inglesa tpica como ela. Na verdade, tinha apenas tomado um 
pau do sol ameno da Inglaterra e, segundo Hassan, deveria estar prepara para enfrentar o caloro de todo o ms de agosto em Qu'Har, tem em que permaneceria por l.
       Sentiu curiosidade de saber o que os familiares de Hassan iria achar dela. Embora tivesse prometido a si mesma que no se preocuparia com esse tipo de coisa, 
agora desejava que tudo corresse be principalmente por causa do padrasto. Por sorte, Jourdan - aconselhado por Hassan, para evitar que se encontrassem - estava em 
Paris numa viagem de negcios. Sem dvida seria embaraoso conhecer, homem que no havia aceitado para ser seu marido.
       O jato aterrissava devagar. Pela janelinha, ela pde ver um cu  muito alzul e limpo. Voltou casualmente a cabea para trs e viu que Saud a fitava. Surpreendido, 
o rapaz desviou o olhar com timidez, evitando encar-la. Trajava-se com bom gosto, tinha cabelos pretos e lisos e era filho de um dos primos de Hassan e funcionrio 
da companhia. Nos pases rabes, essas trocas familiares eram uma virtude nao um hbito condenvel, refletiu Danielle, lamentando no ter linda sobre a vida e os 
costumes da gente com quem iria conviver durante um curto perodo de tempo. E se, desavisadamente, transgredisse alguma lei? Na verdade, no tinha por que se preocupar... 
Jamaile, a primeira mulher do irmo mais velho de Hassan, concerteza lhe explicaria tudo o que precisasse saber.
       Em pouco tempo o avio parou no aeroporto, castigado pelo sol quente. Agradecida pela presena do tmido acompanhante, ela desembarcou naquela terra estranha.
       - Gostou da viagem, senhorita? - perguntou-lhe o piloto, com polidez.
       - Sim, obrigada.
       Embora estivesse acostumada com o respeito que as pessoas em geral tinham por ela, Danielle nunca soube avaliar o verdadeiro sentido da palavra deferncia 
at se tornar membro da famlia Ahmed. E pela primeira vez, naquele momento, percebia o que significava  de fato pertencer quela famlia. .. Isso a encorajava a 
enfrentar aquele solo desconhecido.
       Com calma caminhou em direo ao carro que a esperava. Nenhuma palavra seria suficiente para descrever o Mercedes preto e brilhante estacionado pomposamente 
 sada do aeroporto, denunciando a posio de seus anfitries.
       Durante grande parte do percurso at o palacete, Danielle permaU calada, olhando encantada os edifcios que se erguiam dos dois lados da avenida principal. 
 medida que se afastavam do aeroporto, divisar, muito ao longe, uma, grande extenso de deserto, entremeada aqui e ali por palmeiras. De repente, sem que esperasse, 
surgiram estufas construdas sobre terras cultivadas que, conforme Saud lhe explicou, faziam parte de um novo plano para diminuir a dependncia de Qu'Har dos produtos 
de importao.
       - A estufa e a usina recm-construdas no litoral so resultado da vontade de xeque Hassan, para que todo o povo usufrua a riqueza petrlfera do pas.
       Sim, pensou Danielle, olhando os sinais da tecnologia em toda a su volta. Aqui est uma coisa de que esse rapaz pode se orgulhar!
       - V aquele prdio branco l adiante? - perguntou Saud.
       - Sim. O que ? .
       - Uma nova escola s para mulheres. Foi uma idia to ousada que criou uma poro de problemas, at os lderes religiosos resolveram cOncordar com a implantao.
       Danielle percebeu um tom de desagrado na voz de Saud.
       - Tem alguma coisa contra a educao de mulheres? - perguntou, procurando provoc-lo.
       Ele ficou sem saber o que responder, limitando-se a balanar a' cabea. Entretanto, nos .olhos, estampava-se um forte sinal de desaprovao.
       Danielle preferiu suavizar a conversa para no embara-lo mais.
       - Bom, aqui  diferente do Ocidente - observou, diplomaticamente. - Fale-me um pouco sobre sua famlia. Isto , se no se
       importa.
       - Oh, no. Claro que no! Bom... o Emir  o chefe da famli e do pas. Sou filho do primo em segundo grau dele e por isso n, tenho muita importncia na hierarquia 
da famlia. De fato, foi s trabalhando nos escritrios do xeque Hassan, meu tio, que passei ocupar certa posio na companhia.
       - Mas voc  formado, no? - Insistiu, lembrando o que padrasto tinha falado a respeito do rapaz. - Por que no procuro trabalho em outro lugar?
       - No quis sair daqui. Qu'Har  o meu lar, e o lar de meus pais O xeque Hassan custeou meus estudos, e os de uma poro de gente e a nica maneira que encontrei 
para retribuir foi utilizar meus conhe cimentos em prol do desenvolvimento do meu pas.Danielle sentiu-se comovida pela simplicidade com que Saud falava, ali estava 
o outro lado do soldado do deserto: a ingenuidade e a lealdade.
       - Ele  um homem generoso e sensato - comentou Saud, com seriedade. - Todos ns s temos de lhe agradecer...
       - Principalmente Jourdan - arriscou Danielle, pensando cuidados de Hassan para com ele, desde pequeno.
       - Ah, sim, Jourdan - Saud repetiu com entusiasmo.
       Danielle olhou para ele e viu um olhar cheio de orgulho admirao.
       - Papai fala que Jourdan  o sucessor natural do xeque Hassan, e que sem ele nosso pas ficaria numa situao to ruim que logo desaparecia do mapa - explicou 
o rapaz. - Ele  o que chamamos "ddiva do Profeta".
       - Como assim, ddiva do Profeta? - Apesar de sua averso por aquele homem desconhecido, Danielle no conseguia deixar de se interessar por ele.
       -  o nome que a gente d para quem nasce com a fora, o conhecimento e a capacidade de manter nosso povo unido - Saud explicou. - Na nossa casa sempre nasceu 
algum com essas qualidades em pocas de conflito e ae necessidade. O pai do xeque Hassan tambm achou que o filho era uma ddiva, at saber que ele no poderia 
ser pai. Numa famlia como a nossa, com tantos irmos e filhos, existe sempre rivalidade. E s vezes dessa tenso toda surgem os que lutam para conquistar o poder 
e o controle de tudo. O pas  pequeno, mas riqussimo em petrleo. - lamentvel que a nossa gente no consiga administrar essa riqueza com sabedoria.  importante 
planejar hoje para o futuro, quando talvez no tenhamos o petrleo, e  exatamente isso que o xeque Hassan vem tentando fazer. A maioria dos planos, contudo, j 
foram colocados em prtica. Muito dos nossos melhores homens estudaram no exterior, e somas ulculveis de dinheiro foram aplicadas no aprendizado e em equipamentos 
tecnolgicos. Mas tudo isso de nada valer se ningum estiver preparado para continuar o trabalho iniciado pelo xeque Hassan.
       Precisamos de um homem fortssimo, capaz de vencer todos os obstculos, feroz como um gavio e esperto como uma serpente. Jourdan  esse homem...
       - Feroz como um gavio -, repetiu Danielle com desagrado. Aquilo soava autoritrio e agressivo: Esperto como uma serpente. Imaginava uma mente maquiavlica 
capaz de construir todos os meandros de uma intriga. Sabia quanto os muulmanos apreciavam a sutileza e precisavam desse dom para alcanarem sucesso no mundo negcios 
rabes. Um homem que se deixasse enganar no seria bem-visto por um rabe, para quem o respeito era tudo.
       - Voc gosta muito de Jourdan, no? - disse com naturalidade, perguntando-se se Saud estaria ou no a par do casamento desfeito. Era estranho que, sendo Jourdan 
to importante dentro da famlia real, no lhe tivessem escolhido uma moa rabe.
       - Eu o admiro muito - concordou Saud. - Algumas pessoas s no entendem por que ele segue a religio da me. Contudo o Coro 
       reconhece o valor de todas as religies, e Jourdan aceita os preceitos do Coro e procura segui-las como qualquer um da nossa raa.
       - Ele parece ser um modelo de perfeio - Danielle observou, com certa frieza. -  uma pena no poder conhec-lo...
       Entretida com o cenrio que se estendia at o horizonte, ela no percebeu o olhar de surpresa de Saud.
       O carro avanava para um arco aberto numa enorme parede branca, to brilhante quanto a luz do sol, e DanieIle fechou os olhos para  proteg-los. Quando voltou 
a abri-los, o automvel estava parando na frente de um edifcio baixo e comprido com muitas janelas fechadas e um delicado trabalho em mosaico decorando a entrada.
       - Vou deix-la aqui - disse Saud, saindo do carro. - O criado a levar at o alojamento feminino, onde Jamaile a receber.
       - Vamos nos ver outra vez?
       Saud corou e lanou um olhar ansioso para o motorista, que se aproximava, como se dentro dele crescesse uma incontrolvel vontade de ficar a ss com ela, 
para que ningum os ouvisse conversando.
       - Pedirei a papai permisso para rev-la - respondeu, quase murmurando.
       O motorista tomou o lugar e em poucos minutos o carro arrancou, passando por baixo de outro arco decorado com frisas em arabesco, que dava para um ptio fechado. 
Numa das quatro paredes, uma porta se abriu. Sentindo-se como Alice no Pas das Maravilhas, Danielle compreendeu que devia entrar por aquela porta. Ela assim fez, 
como se vivesse um sonho, ciente de que uma ou outra porta, na parede ao lado, tambm tinha se aberto. No se voltou para ver, mas algum pegou sua bagagem e seguiu 
silenciosamente atrs dela. Atravessou a porta escancarada e de repente viu-se envolvida pelo aroma forte de incenso de jasmim.
       - Queira seguir-me, por favor!
       A moa que falava estava vestida de preto dos ps  cabea e tinha a voz baixa e melodiosa. Comearam a andar e Danielle ouviu o tilintar de argolas colocadas 
nos tornozelos dela. No final do longo corredor, ela abriu uma porta e indicou a Danielle que a seguisse.
       Era um aposento quadrado, com um pequeno div debaixo de uma janela, junto a uma pequena fonte.
       - Se me permite...
       A moa puxou Danielle gentilmente para sentar no div e tirou-lhe as sandlias de salto alto. Em seguida, lavou-lhe as mos e os ps com a gua da fonte, 
cujo perfume era suave e extico.
       Os gestos da jovem eram decididos e rpidos, o olhar modesto e triste. Ela deve ser uma espcie de criada, Danielle pensou, enquanto a moa se levantava e 
ia at o outro lado do aposento, de onde voltou trazendo um par de chinelos bordados.
       -  necessrio us-los na presena de Jamaile - explicou.-  costume joelhar-se e aproximar-se, depois sair sem voltar as costas.
       Mas no seu caso basta ajoelhar-se. Para voc, as formalidades habituais foram dispensadas...
       O ingls da jovem era perfeito, to perfeito que fazia Danielle envergonhar-se por no saber uma palavra da lngua rabe.
       - Onde aprendeu falar ingls to bem?
       - Foi papai quem me ensinou. E estou aqui s por causa disso. Jamaile quer que todas as filhas e netas aprendam essa lngua.
       - Por qu?
       - Para que possam estudar na Inglaterra. Ela deseja que as garotas da famlia recebam uma boa educao. Diz que  importante para que elas no sejam rejeitadas 
pelos homens por causa da ignorncia. Mas agora, se permite, vou lev-la at a presena dela.
       Estavam numa ante-sala que conduzia  cmara ampla com teto abobadado, adornado com pinturas e alto-relevo.
       - Meu Deus! - exclamou Danielle, maravilhada com tanta beleza. Que cores! Eram mltiplas e ricas em tonalidades, como se fossem jias faiscantes sob um intenso 
raio de sol!
       Numa extremidade da cmara, erguia-se uma plataforma com uma poltrona luxuosa, delicadamente esculpida, e, atrs dela, uma parede com arabescos, repleta de 
formas abstratas e coloridas que pareciam ter atingido uma beleza inimaginvel. Pedras semipreciosas tinham sido incrustadas e brilhavam com os raios do sol que 
atravessavam as frestas das venezianas fechadas.Danielle, como que voltando de um prolongado delrio, finalmente percebeu que a moa havia sado. Uma porta no painel 
pintado se abriu e ela, lembrando das explicaes, ajoelhou-se com rapidez sobre o pequeno tapete colocado para esse fim no piso ladrilhado.
       Com a cabea abaixada, ouviu um leve tilintar de metais e o farfalhar de sedas. No ousou olhar para cima, at que uma voz macia, e agradvel ecoou:
       - Venha c, minha filha, quero conhecer o tesouro de Hassan...
       Daniella ps-se de p e deu alguns passos indecisos em direo ao trono. Deparou-se com o olhar atento de uma mulher baixa, mida, luxuosamente vestida, os 
dedos cobertos de anis e jias pendurudas no pescoo.
       - Os cabelos dela tm a cor do deserto depois da chuva - comentou a mulher com uma outra, que estava parada atrs do trono.
       Danielle no tinha notado a presena dela at Jamaile falar.
       - Na Inglaterra - disse uma outra acompanhante -, essa cor indica vivacidade.
       Jamaile sorriu e com um gesto pediu a Danielle que subisse na plataforma.
       - Como so afortunados os homens ingleses - comentou. -, Enquanto aqui nossos patrcios julgam as mulheres pela reputao, l basta olh-las para perceberem 
se esto diante de uma mulher geniosa, temperamental como uma potranca rabe, ou dcil como uma pomba.
       - Ela observou Danielle com ateno. - Qual delas, na sua opinio, um homem escolheria?
       - No sei. - Danielle respondeu, hesitante. - Imagino que os homens, assim como as mulheres, tm necessidades diferentes. Uns preferem mulheres serenas, outros, 
temperamentais.
       - Ela fala com prudncia - Jamaile disse s acompanhantes.- Hassan no mentiu: sua beleza  como a dos nenfares e outras flores aquticas, plidas e delicadas, 
que se fecham em si mesmas quando ameaadas por algum perigo. Enquanto estiver em Qu'Har, Danielle, voc ficar aqui, sob minha guarda, certo?
       Danielle assentiu com a cabea, encantada com a maneira da mulher se referir a ela.
       - Como Hassan deve ter explicado, nossas mulheres no andam sozinhas nas ruas, e nunca se apresentam a um homem sem cobrir o rosto com um vu. A no ser diante 
do pai ou do marido. Naturalmente, como europia, no precisa seguir esse costume. Mas como filha de nosso irmo, talvez fosse aconselhvel adot-lo. Deixo a seu 
critrio a deciso... Caso prefira segui-lo enquanto estiver entre ns, Zoe providenciar um chadrah e lhe dar explicaes sobre as leis de nosso pas. Todavia, 
ns compreenderamos se desejasse manter os hbitos ocidentais...
       Como  que eu posso contest-la?, perguntou-se Danielle, percebendo que no havia outra sada seno aceitar a proposta feita por Jamaile. Se insistisse em 
usar as prprias roupas, talvez a acusassem de ser egosta e indiferente  reputao de Hassan; se se vestisse e se comportasse como uma mulher muulmana, seria 
o primeiro passO para agredir sua prpria personalidade.
       A mulher silenciou, aguardando a resposta. Danielle lembrou da generosidade e do amor que Hassan sempre lhe dedicou e compreendeu que havia apenas uma escolha.
       - Usarei o chadrah - disse, um tanto desanimada, dominada por uma sensao de fatalidade da qual no conseguia fugir. Era como se tivesse embarcado numa viagem 
sem rumo, como se a sua vida nunca mais pudesse voltar ao normal pelo simples fato de ter pronundado aquela frase.
       No fundo, porm, aceitava aS regras do jogo esperando que a fllmlia de Hassn no mais criticasse sua me, escolhida como segunda esposa do xeque.
       Jamaile sorriu.
       - Assim seja! Acompanhe Zoe. Mais tarde conversaremos. H muitos anos no vejo Hassan e voc me dar notcias dele e da velha Inglaterra, que no visito desde 
 minha infncia.
       Danielle afastou-se devagar de Jamaile, sem voltar as costas, o que Zoe aprovou com um sorriso.
       Depois que saram da cmara de recepo, Danielle seguiu Zoe ao longo de um enorme corredor.
       - Seus aposentos j esto preparados...
       Subiram uma escada espiralada que parecia no ter fim. Chegando no patamar, Zoe abriu uma porta e pediu a Danielle que entrasse. Danielle, ento, ficou maravilhada, 
acompanhando Zoe pelo salo extico at darem num quarto suntuoso, onde havia uma cama coberta com lenis de seda adornados com pequenas e delicadas folhas douradas. 
Ao lado, ficava o . quarto de vestir com guarda-roupas espelhados, uma inovao evidentemente recente, e mais adiante um banheiro com peas em mrmore cor-de-rosa, 
que se harmonizava com o padro de cores do quarto.
       - A criada trar algumaS roupas para voc escolher - disse Zoe -, e amanh uma costureira providenciar exatamente o que desejar...
       - Oh, mas vou ficar aqui apenas trs semanas - Danielle argumentou. - No h necessidade...
       - Recusar os presentes de J amaile seria o mesmo que insult-Ia - Zoe avisou, com seriedade.
       - Bom, nesse caso...
       
       
       Zoe ficou com ela algum tempo, explicando detalhes da maneira correta de agir em diversas situaes.
       - Mas como  que vou me lembrar de tudo isso? - DanieU quis saber.
       - No  to difcil quanto parece. Sempre haver uma de ns po rperto para ajud-la... Eu a verei hoje  noite, no jantar - acrescentou, levantando do div. 
- Voc sabe descer sozinha?
       - Oh, claro! Prestei muita ateno em todo o caminho!  tudo muito bonito. No me esquecerei!
       Zoe saiu e fechou a porta atrs de si. Danielle sentiu-se desamparada.
       Apesar das diferenas de cultura e de educao, gostava de Zoe, com seu olhar meigo e a voz branda. Era sobrinha de Jamaile conforme tinha sido informada, 
e uma de suas acompanhantes, que era motivo de alegria  famlia. Se Jamaile se sentisse satisfeita com o desempenho dela at o final do ano, retribuiria aumentando-lhe 
o dote e ajudando seus pais a encontrarem um bom marido para ela.
       Danielle ficou espantada com essa revelao, mas Zoe parecia contente e feliz com o fato de o pai escolher o companheiro de sua vida. No tocaram no nome 
de Jourdan embora o assunto fosse propcio, e Danielle nada comentou por imaginar que aquele casamento arranjado fosse mantido em segredo pela famlia.
       To logo Zoe se retirou, Danielle examinou os guarda-roupas. Um meia dzia de cfts de seda estava pendurada, com cores que ia , do rosa ao verde-jade mais 
intenso. Pegou um deles e colocou sobre  corpo, descobrindo que logo se transformaria numa oriental desajeitada. Desajeitada, sim, mas com um ar sensual de apaixonada.Imediatament
e reps o cft ao lado dos outros.
       Bateram de leve  porta e, antes que pudesse responder, uma criada entrou.
       - Vim por ordem de Jamaile - explicou. - Trouxe-lhe este chadrah para us-lo no palcio.
       Danielle pegou o vu grosso e negro, disfarando o desagrado, e arrepiou-se s com a idia de usar aquela pea a contragosto, pois estaria traindo seus princpios 
mais arraigados. Porm, lembrou que ali ela representava o padrasto e no ficaria bem ofender a quem quer que fosse. De repente, soou o alto e agudo som de um sino, 
e ela, assustada, deixou cair o manto.
       A criada prostrou-se imediatamente, ficando imvel por vrios segundos antes de levantar, calma e graciosamente, e dirigir-se a Danielle.
       - Com certeza deseja um bom banho antes do jantar e estou aqui para ajud-la. Trouxe-lhe um perfume feito com as rosas de nosso jardim.  Danielle teve mpetos 
de dizer que no precisava de ajuda, mas antes que pudesse falar, a moa caminhou para o suntuoso banheiro, abriu as torneiras e misturou uma essncia forte dentro 
da banheira, o que fez com que a gua se tomasse leitosa.
       - Eu... eu prefiro me lavar sozinha - Comeou Danielle.
       A expresso da criada era de mgoa e decepo.
       - Quer que eu me retire?
       - Sabe, as garotas europias no esto acostumadas com acompanhantes... Como se chama?
       - Zanaide - respondeu a moa, intimidada. - Jamaile pensar que a ofendi se me mandar embora...
       Os enormes olhos castanhos de Zanaide ficaram to tristonhos, que Dunielle no teve como argumentar. Enquanto a moa lavava-lhe o corpo com uma esponja macia, 
ela reconhecia que naquele momento no poderia negar o prazer e a delcia que sentia por estar mergulhada numa gua aromatizada. Quando saiu da banheira e enrolou-se 
na toalha estendida por Zanaide, percebeu que no tinha ficado nem um pouco inibida.
       - Sua pele  to branca e macia! - observou Zanaide. - O homem que tiver a felicidade de olh-la ficar maravilhado diante de tanta beleza. Mas acho que deveria 
comer mais para engordar uns quilinhos.
       - Nos pases europeus os homens preferem mulheres magras e esguias - Danielle justificou com um sorriso malicioso, adivinhando os pensamentos da criada.
       - Voc no  noiva?
       - No - respondeu, ainda sonindo e balanando a cabea.- E voc ?
       - H muitos anos! Sou noiva do meu primo de segundo grau, como  costume. Vamos casar no ano que vem. - Suspirou, ps-se de p e abriu um pequeno armrio. 
- Se quiser deitar no div, por favor...
       Perturbada, Danielle obedeceu, e pouco depois Zanaide comeou a massage-la com um leo perfumado.
       -No vejo Faisal h muito tempo - a moa continuou. - Ele estudou numa universidade da Inglaterra e de l foi trabalhar na Arbia Saudita. Meu irmo disse 
que se transformou num home muito bonito!
       Uma covinha apareceu nas faces de Zanaide quando sorriu com malcia do comentrio e, como. resposta, Danielle tambm sorriu. 
       - E voc no se importa com esse casamento arranjado? No gostaria de conhecer um homem especial, apaixonar-se por ele e a ento optar pelo casamento?
       - Eu me apaixonarei pelo meu marido - respondeu Zanaide, sem hesitar. - Se me comportasse de outra maneira, s traria desonra para minha famlia.
       Sem dizer nada, retirou-se do quarto por alguns momentos e voltou com um cft verde-jade no brao.
       - No, esse no! - protestou DanieUe, lembrando que j havia experimentado aquele e constatado o pssimo resultado sobre o corpo.
       Zanaide franziu as sobrancelhas, sem compreender.
       - Por que no?  o mais bonito! No quer insultar Jamaile, quer? Com sinceridade, o que acha dele?
       -  deslumbrante - admitiu -, mas me sinto mais  vontade com minhas roupas. Voc tambm no gostaria de usar o tipo de roupa que se usa no meu pas!
       Zanaide riu, piscando os olhos.
       - Tambm uso jeans, mas s em casa, com mame e minhas irms. Mame no se conforma, mas meus irmos dizem para ela que na Europa todas as moas adotaram 
calas compridas. Isso  muito salutar! Aproveitar as boas coisas dos dois mundos...
       DanielIe arregalou os olhos, espantada com a confisso de Zanaide. Mas ento as mulheres muulmanas no se submetiam completamente  dominao dos homens?
       Aparentemente sim. Enquanto Zanaide lavava-lhe e enxugava-lhe os cabelos, procurava dar informaes esclarecedoras, o que fez com que DanieIle formasse um 
quadro bastante diferente daquele que havia traado inicialmente. Alm de estudarem no exterior, as mulheres eram encorajadas a fazer longos treinamentos, e como 
mostravam-se discretas e observavam as leis muulmanas, tambm gozavam um certo grau de liberdade.
       - Claro, a gente no pode danar e ficar  vontade entre os homens, como acontece na Europa, mas o xeque Hassan fez muito por ns e prometeu ajudar-nos ainda 
mais. Muitas de ns preferem continuar usando o chadrah e manter o antigo padro de vida. No  verdade que o desconhecido oferece maior fascnio que o conhecido? 
Nosso mistrio  que fascina os homens...
       
       
       Danielle compareceu ao jantar e depois retirou-se, aliviada. Todas as mulheres tinham sido gentis, mas o esforo para lembrar de todos nomes, somado  longa 
viagem e ao ambiente estranho, cultivou na sensao de extremo cansao. O que mais desejava naquele momento era atirar-se numa cama confortvel.
       J havia tomado duas xcaras de caf forte e sem dvida teria tio obrigada a aceitar outras se Zoe no notasse seu embarao e desse um jeitinho de poup-la. 
A comida, embora deliciosa, pesava no estmago. Foi com satisfao que Danielle deixou a mesa e andou pelo corredor em direo  escada em espiral que dava para 
o seu quarto. L, Zanaide deveria estar  sua espera.
       Com o corpo e a cabea pesados, sentiu que os degraus no tinham fim. Mas dizendo a si mesma que aquilo era produto da sua imaginao, segurou o tecido do 
chadrah e continuou subindo.
       Candelabros de parede iluminavam a escadaria e, noS cantos, as sombras tremiam quando uma brisa mais forte agitava as chamas.
       Uma das sombras escuras pareceu avanar ao seu encontro. Deteve-se, engoliu em seco e, observando com ateno, notou que no se tratava de uma sombra, mas 
de um homem vestido com um manto preto, que laDra parecia envolv-Ia.
       O manto se abriu e mostrou um peito forte e bronzeado, coberto de plos crespos ainda molhados, como se o desconhecido tivesse acabado de sair do banho. Danielle 
ergueu os olhos e viu os cabelos pretos e midos. O rosto, extremamente masculino, tinha ossos angulosos e acentuados, o olhar brilhante.
       O homem moveu-se e disse algumas palavras em rabe e ento, na meia-luz, Danielle viu seus olhos negros que a examinavam com arrogncia.
       Ele tornou a falar, desta vez com voz rspida, como se lhe desse ulguma ordem.
       - Eu... no entendo a sua lngua. S falo ingis...
       Os lbios dele se abriram e dentes brancos brilharam na penumbra.
       Ele a teria compreendido? Danielle estremeceu e deu um passo atrs, instintivamente.
       Uma mo magra agarrou-lhe o pulso e a puxou para a frente.
       - Est  minha procura? -ele perguntou num ingls quase perfeito. Mas no havia gentileza na voz. Pelo contrrio, parecia muito impaciente.
       Danielle no soube fazer outra coisa seno fit-lo e, quando a soltou, automaticamente esfregou o pulso dolorido.
       - Estava indo para o meu quarto...
       Ele franziu as sobrancelhas espessas, com um ar incrdulo.
       - Nessa parte do palcio? No sabe que no existem mulheres por aqui?...
       Mais que as palavras, o tom insolente fez Danielle enrubescer como se acabasse de cometer um crime. Voltou o rosto e olhou para baixo.
       - Oh, mas eu tenho certeza que tomei o caminho certo...
       O homem agora parecia srio e indiferente  explicao.
       Quantos anos ele ter?, perguntou-se Danielle. Trinta? Talvez u pouco mais? Fosse qual fosse a idade, sem dvida alguma tratava-se de algum que gostaria 
de conhecer. Apesar da antipatia inicial, reconhecia a intensa masculinidade dele, pressentia o tronco esguio, mas poderoso por baixo do manto; as coxas de msculos 
tensos que a seda fina no conseguia esconder.
       - Ento...?
       Os olhos dele no paravam de percorrer todo o corpo dela, desa fitando-a. E quando paravam para encar-la, pareciam ler seus pensamentos com facilidade. Ele 
sabia do efeito que causava em Danielle Parecia sentir o pulsar acelerado do corao dela.
       Ela lhe deu as costas, procurando esconder o tremor dos lbios, dominada pelo desejo instintivo de desaparecer dali imediatamente. Mas como? O ambiente a 
havia influenciado tanto, a ponto de se comportar como Zoe e Zanaide na presena de um homem desconhecido? Onde estavam a segurana e a independncia conquistadas 
com tanto esfqro?
       - No notei que havia me distanciado da ala das mulheres... No poderia fazer a gentileza de me indicar o corredor certo?
       Ele sorriu com ironia. Danielle endureceu o corpo, percebendo que zombava dela. Mas os olhos no... os olhos a estudavam minuciosamente...
       - Voc  bastante ousada - ele observou. - Ou ser a simples ignorncia que fez a pombinha indefesa passar para o reino do poderoso gavio? Desconhece por 
acaso o perigo que est correndo?...
       Cansada e confusa, Danielle ftou-o em silncio, a respirao difcil. Ele ento prendeu-a novamente pelos pulsos e puxou-a contra o corpo msculo, os rostos 
quase colados. Sem esperar qualquer reao, beijou-a com violncia.
       Ela nunca tinha experimentado um beijo to ntimo e to ardoroso, nunca havia sentido a presso de mos masculinas nos seus quadris, apertando-a contra um 
corpo que, para seu espanto, estava completamente nu sob o manto!
       O contato lhe despertou os sentidos. Afastou-se com todas as foras conseguiu reunir, mas as mos dele de novo a prenderam. Aperpdo-lhe os pulsos com mais 
fora ainda, rindo da sua v tentativa de livra-se dele, comentou:
       - Quer dizer ento que as mulheres inglesas nem sempre so indiferentes  preservao da castidade? Voc fica vermelha como uma rosa que desabrocba no jardim... 
Tambm est fechada no ptio, desconhecido e inexplorado... Mas...
       - Pare com isso! No quero ouvi-lo! Me solte e deixe que eu v hora... Vou me queixar a Jamaile!
       Ele riu e deixou-a se afastar do corpo inquieto, embora continuasse prendendo-lhe um dos pulsos.
       - No, no, mignonne... talvez antes queira saber o nome do homem que se comportou to mal com voc...
       Danielle, apreensiva e com um estranho pressentimento, encarou-o uurdando a revelao. Mas por que tremia tanto? O que estava acontecendo com ela? No acreditava 
que a simples presena de um homem arrogante e pretensioso pudesse torn-la to frgil e vulnervel!
       O rosto dele mergulhava quase totalmente na penumbra, mas ainda, sim ela podia distinguir os msculos tensos das faces, a linha austera da boca, os lbios 
ameaadores esboando um riso sarcstico.
       - Quer ou no quer saber quem sou?
       A mo dele soltou-lhe o pulso e pousou sobre o ombro, os dedos pressionando para sentir melhor a carne oculta pelo tecido. Ali estava algum que conbecia 
profundamente uma mulher, penson Danielle; um homem que se divertia com ela, que zombava do seu embarao.
       Ao toque forte da mo, ela enrijeceu os msculos, tentando faz-lo recuar. Porm ele riu mais uma vez, deslizando as mos e apalpando-lhe o seio. Danielle 
sentiu a respirao presa, o sangue correndo veloz nas veias.
       - Seu corao est sob as minhas mos, como um pssaro pego numa armadilha - ele falou com suavidade, arfando levemente.
       Como se ardesse em chamas, Danielle recuou, sentindo o calor das mos no seio estender-se por todo o corpo. Mas ele no permitiu qu se afastasse demais.
       Retirou as mos e descobriu-lhe a cabea, desmanchando o penteado feito por Zanaide. A luz mortia do candelabro iluminou a cabea de Danielle, como uma fogueira 
viva.
       - Essa luz embeleza a filha de Rassan...
       Uma frase como essa, pensou Danielle, teria sido ridcula em outra circunstncias. Mas ali, naquele antigo palcio povoado de pessoas estranhas, simplesmente 
estimulava-a a se comportar como a herona dos romances que sempre desprezou...
       - Quem  voc? - ela perguntou, afinal, numa voz trmula.
       Ele sorriu com a mesma arrogncia e ergueu as sobrancelhas. A entrar numa rea mais iluminada, Danielle viu-lhe o corpo poderoso, que se movimentava como 
se pertencesse a um mundo divino a que nenhum ser humano tinha acesso.
       - Quer dizer que realmente no sabe meu nome?
       Ele agora falava com uma voz sria, que assustava Danielle. O ar  volta parecia esfriar mais e mais, dominado por uma presena demonaca e devastadora.
       - Como poderia saber? Acabei de chegar e...
       - Tambm acabo de chegar - cortou o homem. - Estava indo para os meus aposentos quando a encontrei, e ento pensei que pudesse estar, me procurando. Uma concluso 
lgica, no  mesmo, filha de Rassan? Sabe, conheo bem os ingleses... Agarram-se muito,  lgica. Estou certo?
       - No. .. est redondamente enganado! - DanieIle desejava contest-lo a qualquer preo. - Eu estava indo para os meus aposentos tambm... Creio que subi a 
escada errada,  s. - Mas agora, " pensou,  tarde, muito tarde! Ah, se tivesse voltado no momento que pressenti a proximidade daquele homem! - Depois, que motivo 
teria eu para procurar um homem que sequer conheo? - concluiu.
       Sentiu uma grande satisfao ao falar com todo o desprezo possvel, num esforo de ferir-lhe o orgulho. De fato, o rosto tenso dele transmitia raiva, uma 
raiva que poderia lev-lo a um gesto mais violento, a uma tempestade de emoes que facilmente a derrotaria...
       - Existe um motivo mais forte do que imagina, filha de Rassan - ele respondeu, com a voz macia e ao mesmo tempo ameaadora. - Sou Jourdan Saud lbn Ahmed.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO IV
       
       Danielle teve a ntida impresso de que o cho havia desaparecido sob seus ps, atrapalhada com pensamentos desordenados, que inutilmente procurava compreender.
       - Mas voc no estava em Paris?
       - Se soubesse que eu estaria aqui, com certeza nunca teria vindo... - ele comentou. - Conhece muito pouco os homens, filha de Hassan, apesar de toda sua educao 
moderna. Honestamente, pensava que eu ia engolir um insulto daqueles? Ser recusado como marido?
       Seus dedos fortes agarraram-lhe as mos com crueldade. Um medo gelado envolveu Danielle, como se fosse abraada pela morte. Era impossvel acreditar que estivesse 
vivendo aquele pesadelo! Assim que pudesse, telefonaria para os pais e voltaria para a Inglaterra! Mas, Deus do cu!, eles se encontravam nos Estados Unidos, viajando 
de costa a costa, fechando negcios e cumprindo compromissos sociais!
       Pois ento pediria ajuda a Jamaile, decidiu, reanimando-se e procurando vencer o medo que criava um abismo entre ela e a realidade.
       Jamaile sem dvida a ajudaria. Ah, se tivesse pedido algum dinheiro a Rassan! Mas ele havia insistido em que no precisaria de nada. De fato, seus anfitries 
se sentiriam ofendidos se utilizasse seus prprios recursos. No tinha pago nem mesmo a passagem de avio, pois dispunha do jato da famlia.
       Os pensamentos giravam em redemoinhos, desafiando-a a det-los.
       E durante todo esse tempo, Jourdan estava ali a pouca distncia dela, envolto em sombras, segurando-lhe sem piedade os pulsos.
       - Jamais o perdoarei!- ela exclamou, o rosto vermelho de furor. - No fiz nada para merecer esse tipo de tratamento! Assim como no tive inteno de ofender 
voc com a minha recusa.
       - Ento a filha de Hassan no tem a coragem que demonstra ter! E muito fcil insultar algum num momento de exaltao. O difcil  justificar a atitude mais 
tarde! 
       - Que justificativa deveria dar? Como poderia aceitar a idia de um casamento fundamentado num negcio financeiro? - Danielle falava com a franqueza da emoo. 
- Mesmo antes de saber do acordo entre voc e papai, fiquei conhecendo passagens da sua vida que me desagradaram, inspiraram antipatia e desconfiana...
       - O que ouviu a meu respeito?
       Os olhos de Jourdan se estreitaram, tornaram-se astutos como o de uma pantera prestes a atacar a presa. Danielle permaneceu pensativa, tensa e amedrontada, 
hesitando em falar. Ele estava pronto para destruir seus frgeis argumentos.
       - Quem lhe falou de mim? - Jourdan insistiu, impaciente com o silncio prolongado de Danielle.
       - Uma amiga minha - disse rapidamente, recusando-se a dar maiores explicaes. - Phlippe Sancerre tambm. " Considero-me' uma mulher de sorte, pois apenas 
ouvi seu nome, entretanto, algumas garotas tiveram de Suportar seu egosmo, sua possesso e indiferena...
       Por um momento, teve a impresso de que ele a esbofetearia. Instintivamente recuou, intimidada pelo olhar selvagem.
       - Considere-se uma mulher de sorte, sim, mas porque compreendo que voc no passa de uma garota mimada, que mal sabe o que diz. Uma menina que no tem o menor 
pudor de caluniar pessoas que nem sequer conhece. - Aproximou-se um pouco, o hlito quente nas faces de DanieUe. - Uma criana que ignora aquilo que recusa com palavras 
desesperadas e disparatadas. Ento acha que as mulheres no suportam a minha maneira de am-las? E por isso foge de mim, apavorada e cheia de averso? Ora, ora, 
sua bobinha...veja bem... H muita coisa mais em que deve pensar...
       Aproximando-se, puxou-a contra si. Com uma mo segurou-lhe os ombros e com a outra acariciou-lhe o rosto.
       - Voc  to tmida quanto uma gazela no osis - brincou, gentil.- O que temos aqui? Uma criaturinha frgil e amedrontada. Fi1ha de Hassan... onde est a 
sua bravura? Sou apenas um homem! Feito de carne e ossos! E meu corao bate igualzinho ao seu. No consegue ouvi-lo?
       Danielle concentrou a ateno na mo que estava pressionada sobre o peito dele. Rezou, com desespero, para que aparecesse algum para livr-la daquele pesadelo.
       - No se preocupe - disse ele, lendo-lhe os pensamentos.- Ningum vir socorr-la. Esses alojamentos so meus, exclusivamente meus. Pense nisso, filha de 
Hassan. Se eu quisesse lhe mostrar exatamente o que  o amor, ningum me impediria neste momento. No haveria ningum para escutar seus tmidos lamentos virginais...
       - No sou vir... -  Ela no pde terminar de falar. Ele varreu suas palavras com uma gargalhada.
       - Danielle, no minta. .. Se isso fosse verdade, eu no precisaria lhe dizer que um homem acha deliciosamente excitante imaginar o corpo de uma mulher como 
um ptio perfeitamente intacto e inacessvel. Estou surpreso por Sancerre no ter comentado isso com voc.
       - O que o faz pensar que ele no conversou comigo a respeito?
       Danielle desejou ter a coragem de empurrar Jourdan e se livrar dele. Mas sabia que qualquer esforo para escapar seria intil. O brao que lhe pressionava 
os quadris era forte como ao!
       - Porque ele no lhe teria falado apenas com palavras - Jourdan respondeu, calmo e divertido. - E seus dedos, Danielle, no tremeriam tanto ao tocar meu peito, 
nem seus ,olhos estariam assim to arregalados, assustados com o desconhecido e atraente...
       Os dedos dele afastaram o traje que cobria os seios. de Danielle e a mo os procurou, ansiosa, tocando-os com sensualidade. Ela engoliu em seco, enrijecendo 
o corpo. O corao pulsava selvagem, os lbios ressequidos, os pensamentos recusando os fatos, no aceitando que aquele estranho arrogante e orgulhoso pudesse venc-Ia.
       - Danielle, como voc  jovem! E como  inexperiente! - Jourdan falava com ardor, enquanto os dedos desfaziam com firmeza os laos do cft dela. As palavras 
de protesto de Danielle desapareceram sob a presso da boca mscula, e aquele beijo ao mesmo tempo selvagem e gentil estimulou-lhe os sentidos, atirando-a num turbilho 
de emoes at ento ignoradas.
       Dominada pela sensualidade dos dedos dele, Danielle sentiu os seios enrijecidos e ardentes, os lbios abertos entregues  insistncia, dos dele, o corpo todo 
dcil obrigando-a a ceder ao estranho poder que ele exercia sobre seu ser.
       Quando os lbios dos dois se separaram, voltou  lucidez e, incoformada, tentou se desvencilhar. Mas ele beijou-lhe o pescoo com avidez.
       - Fique calma, filha de Hassan - disse, com uma voz rouca e que se misturavam o desejo e a zombaria -, ou serei obrigado a lhe demonstrar todo o amor que 
sua inocncia recusa e ao mesmo tempo deseja com loucura!
       - Solte-me! - ela pediu, arfante, sentindo o corao bater acelerado.
       Mas Jourdan a ignorou, continuando a deslizar os lbios pelo pescoo, pelo colo, at parar sobre a pele suave do seio. Assustada, Danielle imobilizou-se. 
Tremeu ainda mais quando os dedos dele acariciaram-na, os lbios roando o bico do seio, excitando-o, at que e sentiu-se fraca, dominada por uma poderosa sensao 
de prazer.
       Quando Jourdan se afastou, Danielle ficou estonteada, quase desfalecida. Percebendo que estava cambaleante, os braos dele a seguraram, impedindo-a de cair.
       - O que a deixou assim? - ele perguntou lacnico, fechando-lhe o traje. - Que sentiu?
       - No senti nada - ela mentiu. - A no ser que queira leve em conta mjpha nusea.
       - Nusea? - Num momento cheio de horror, Danielle temeu que Jourdan jamais a soltasse. Mas imediatamente ele recuou, os cabelos iluminados pela fraca chama 
dos candelabros, os olhos brilhantes e irnicos.
       - Oh, no, minha garotinha, no queira me desafiar desse jeito. Alm do mais, j estou cansado para iniciar uma virgem esta noite. No fundo, no fundo, bem 
que gostaria de tom-la nos braos e deit-la numa cama acetinada, desfazer pouco a pouco sua afetao e seu orgulho, que voc to mal utiliza como escudo.
       Fez uma pausa e estendeu-lhe a mo.
       - Venha... mostre-me que no  a criana que parece ser...admita que gosta quando a toco... admita que no sou desagradvel. - Claro, Jourdan, voc no  
desagradvel - Danielle disse com irritao, perdendo a prudncia. - Voc  degradante, revoltante, desrespeitoso e absolutamente repulsivo!
       No esperou pela reao dele. Deu meia volta, ergueu o traje desceu rapidamente a escadaria.
       Quando chegou ao corredor, parou, respirou fundo e prestou ateno para ter certeza de que no estava sendo seguida. No, no havia nada a no ser o silncio. 
Deu alguns passos e finalmente percebeu que de fato tinha tomado o caminho errado.
       
       
       Zanaide estava esperando por ela no quarto.
       - O que aconteceu, para estar chegando agora?
       - Bem, Zanaide... me perdi pelos corredores e... sabe, pensei que Jourdan estivesse na Frana...
       - Estava mesmo. Chegou hoje  noite - a moa explicou, intrigada com a palidez de Danielle. - No v me dizer que se enganou e subiu a escada que leva aos 
aposentos do xeque Jourdan?
       - Infelizmente, Zanaide, foi o que ocorreu...
       O acontecido no sa de sua cabecinha confusa e chocada. O corao ainda batia com a mesma fria de nuvens em tempestade, os seios ainda guardando a lembrana 
daquela mo insistente... Mas no contaria nada a ningum. Nem mesmo a Zanaide.
       - O xeque Jourdan  muito bonito... e muito msculo, tambm.- Zanaide deu sua opinio - Estar com ele seria um prazer alm de toda imaginao feminina... 
Como ele no segue nossa f, deve ter apenas uma esposa. A famlia de Jamaile prefere que o xeque escolha uma entre as filhas, pois  poderoso e rico...
       - Ele . arrogante e dominador! No quero ouvir nenhuma palavra mais a respeito desse homem!
       - No o acha atraente?
       - Acho Jourdan to atraente quanto uma serpente! - desabafou, enquanto Zanaide a ajudava a tirar a roupa. - E duas vezes mais perigoso!
       Depois que Zanaide a deixou sozinha, levada por um impulso desconhecido Danielle saiu da cama e foi at o quarto de vestir.
       Diante do espelho, tirou a camisola e examinou o corpo rosado e trmulo. Levou as mos aos seios que pareciam no lhe pertencer mais, como se pulsassem descontrolados, 
despertos pelo toque apaixonndo e selvagem de Jourdan.
       Soluou, quebrando o silncio. Cerrou as plpebras para espantar as lembranas do prazer que a havia dominado momentos atrs. Incapaz de observar seu corpo 
nu, tornou a vestir a camisola. A verdade  que tinha se trado, refletiu, e queria esquecer o calor dos lbios de Jourdan e a vertigem louca de um amor que lhe 
parecia absolutamente impossvel.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      Captulo V
       
       O dia seguinte foi to agitado que Danielle no teve tempo de se preocupar com coisa alguma. Depois de tomar o delicioso caf da manh, desceu apressada com 
Zanaide para um enorme ptio onde um Rolls-Royce a esperava com o motor ligado.
        Um motorista abriu-lhe a porta de trs. Ela entrou e sentou-se obedientemente ao lado de Jamaile, que a cumprimentou com um sorriso.
       - Dormiu bem, filha de Hassan?
       Danielle fez que sim com a cabea e teve vontade de lhe pedir que a chamasse pelo nome. Filha de Hassan lhe trazia lembranas que desejava esquecer. Toda 
vez que lhe falavam assim, um arrepio lhe corria pelo corpo.
       - Os vendedores de seda costumam vir ao palcio quando queremos roupas novas - explicou Jamaile. - Normalmente vm uma vez por ms, por sinal essa  uma ocasio 
de grande alegria para minha casa, quando todos os membros se renem na cmara de recepo. Minhas noras tambm comparecem, junto com os parentes passamos um dia 
inteirinho escolhendo tecidos e tomando caf.
       - Deve ser muito agradvel! - Danielle respondeu com polidez.
       Jamaile, porm, percebeu que ela no tinha se interessado realmente e deixou isso bem claro lanando-lhe m olhar perspicaz.
       - Kadir - disse ela ao motorista -, por favor, feche o painel.
       Kadir obedeceu-a, isolando-se com o guarda-costas no banco da frente. Em seguida, o carro arrancou.
       - Quando ns, mulheres, vivemos desse modo recatado, precisamos encontrar diverses que nos ocupem - disse Jamaile. - E voc, Danielle, no deve estranhar-nos 
tanto... Minhas noras so formadas em universidades. Falam ingls e francs com fluncia, e todas cuidam de uma famlia numerosa.  norma da nossa religio os sexos 
no se misturarem a esmo, e ns respeitamos esses princpios. S isso!
       Fez uma pausa breve. A seriedade de seu rosto deu lugar a um sorriso de tolerncia e compreenso.
       - Sei que isso lhe parece rgido demais, mas no  bem assim. Meu marido, embora no seja to avanado quanto Hassan, permite-nos participar de conferncias 
sobre certos assuntos de interesse geral, e todas estamos a par de acontecimentos e temas internacionais. Promovemos debates bastante estimulantes para exercitar 
nosso esprito. E se esses pequenos prazeres se restringem ao nosso sexo, no quer dizer que sejam obrigatoriamente desagradveis do ponto de vista de um europeu. 
Se o nico objetivo de um encontro ou de uma discusso  a reunio de nossas amigas, seria injusto imaginar que a companhia de mulheres no  tambm muito agradvel.
       Jamaile sabe argumentar bem, refletiu Danielle. E, na verdade, pensou, estava sendo muito sensata. Mas no fundo no se opunha  falta de companhia masculina, 
e, sim,  falta de liberdade de opo.
       Quando disse isso, Jamaile balanou a cabea e sorriu.
       - Isso  o que voc pensa, no a nossa realidade... Pode-se ter a companhia do marido, ou do pai...
       - Mas sempre com a prudncia que a presena deles impe.
       Jamaile franziu as sobrancelhas.
       - Voc duvida que uma mulher tenha poderes para fazer com que um homem, principalmente um marido, se sinta bem na companhia dela? Danielle, voc me decepciona! 
Tenho a impresso de que O movimento de libertao das mulheres roubou de vocs, europias, capacidade de atrair um homem e de cultivar um relacionamento, coisas 
que nossas mullteres aprendem desde crianas! Se alguma de ns quiser, pode transformar a vida do marido num inferno ou num mar-de-rosas. A mulher inteligente,  
claro, escolher o segundo caminho, pois quando reina harmonia num lar a felicidade torna-se evidente. Na minha opinio, voc subestima seu prprio sexo. Pense nisso 
com seriedade.
       Interrompeu-se bruscamente, como que para estudar a reao de Danielle.
       -Bom - disse, mudando de assunto, depois de alguns minutos de silncio -, agora Kadir nos levar at a rua Muhammad para voc conhecer os edifcios que a 
famlia est construindo. Temos uma nova bibliOteca - acrescentou, apontando para nm prdio em estilo oriental-, uma nova escola de medicina e um novo hospital. 
Hassan sempre fala ao meu marido que Precisamos educar nossos filhos, preparando-os para o dia em que o petrleo acabar e deixar de ser a fonte de riqueza e poder. 
Por isso estamos criando indstrias e desenvolvendo tecnologias, tudo isso concentrado numa rea distante da capital. Mais tarte ir conosco at o outro lado da 
cidade, junto do litoral. Voc ver as praias e uma pequena ilha, que antes era o centro da nossa indstria de prolas.
       - Os homens ainda mergulham em busca delas? - Danielle perguntou, curiosa.
       - Alguns, priocipalmente europeus.  uma atividade muito perigosa e passageira. Para se ganhar bem,  preciso encontrar prolas perfeitas na formato e na 
cor.
       O carro saiu da avenida principal e desceu uma rua com canteiros de flores e postes de iluminao...
       - Vejo que est gostando de nossas flores - observou Jamaile.
       - Elas fazem muita bem aos olhos, principalmente para quem se lembra de quando toda essa regio no passava de um deserto rido.  tudo obra do meu irmo 
- acrescentou com orgulho. - Com o estimuJo de Hassan, ele construiu uma enorme usina que fornece gua para as plantae cOm uma capacidade excedente que permite 
qUe, aqui na cidade, irriguemos nossos gramados e as flores. De fato, para os rabes  um verdadeiro milagre, pois a vegetao cresce onde existe apenas areia. Isso 
 o maior testemunho do progresso que alcanamos.
       Nos dois, lados da rua, viam-se inmeras lojas especializadas em vrios ramos, principalmente joalherias. O carro tomou uma ruazinha estreita e parou na frente 
de uma Iloja pequena e discreta.
       O guarda-costas, de unifarme e portando uma arma, desceu. Danielle ficau assustada quando viu o revlver na cintura dele.
       - Par que ele est armada?
       - Mera precauo. - explicou Jamaile, tentando. tranqiliz-la.
       - As coisas no andam nada bem no Oriente Mdio. Qu'Har  um pais pequeno, mais muito rico, e no temos condies de vigiar todas as regies. Se nossos vizinhos 
quisessem, poderiam nas destruir com facilidade. Mas hoje, Danielle, no  dia de falarmos sobre coisas desagradveis - acrescentou, sorridente. - A tristeza apagaria 
as cores vivas das tecidos de seda que eu quero que veja com seuS prprias olhos.  uma beleza!
       Para alvio de Danielle, o guarda ficou do lado de fora da loja.
       Assim que entraram, uma mulher correu para atend-las, curvandose para Jamaile e levantando em seguida, rpida e elegantemente.
       Danielle engoliu em seco quando observou o rosto dela: era uma das mulheres mais lindas que tinha visto em toda a sua vida.
       - Zara - disse Jamaile -, esta  Danielle, filha de Hassan.- Danielle, esta  Zara, minha prima, uma mulher que vive para a carreira profissional... No  
verdade, Zara?
       Jamaile parecia se divertir com o espanto de Danielle.
       - Minha prima gosta de provocar voc, no ? - disse Zara, sorrindo. - E verdade que papai me autoriza a comprar seda e dirigir esta lojinnha, mas atendo 
apenas as senhoras do palcio... Posso dizer que sou uma mulher feliz por ter uma famlia to generosa. Se no fosse assim, j teria enlouquecido. Meu marido morreu 
numa exploso no campo de petrleo logo depois da primeira semana do nosso casamento.
       Os olhos de Zara encheram-se de lgrimas.
       - Eu tinha dezoito anos, na poca - ela continuou contando. - Como no possua filhos com quem pudesse me confortar, nem nimo para viver sem o amor de meu 
marido, que conhecia desde criana, Jourdan me sugeriu que comeasse no ramo dos negcios... Por mais absurda que parea, sem a sugesto dele no sei o que teria 
acontecido comigo. Jourdan  um homem bondoso e compreensivo.
       - E muito atraente tambm -acrescentou Jamaile.
       Ao ouvir isso, por um momento o corao de Danielle quase parou de bater. Jourdan lhe parecia um animal selvagem e Zara era
       uma mulher belssima. Seria possvel que as dois tivessem algum envoltimento afetivo?
       No teve tempo de refletir sobre aquela possibilidade. Zara disse qualquer coisa em rabe e apareceram duas moas trazendo muitas peas de seda, que foram 
colocadas sobre uma mesinha cercada de  almofadas, forradas com tecidos coloridos.
       - Por favor, Danielle, sente-se - convidou Zara. - Enquanto escolhemos a seda, tomaremos um delicioso caf.
       Elas sentaram em seguida, com a solenidade de quem comearia uma cerimnia religiosa.
       - Tem alguma preferncia, prima? - Zara perguntou a Jamaile, que fez um sinal afirmativo com a cabea.
       Danielle invejava a facilidade com que as duas mulheres podiam cruzar as pernas, sentadas apenas em almofadas, porque seus msclos doam naquela posio. 
De maneira alguma devia estar to elegante quanto as companheiras. Uma criada tmida e muito jovem trouxe o caf, que foram bebendo enquanto novas mostras de seda 
eram colocadas sobre a mesinha j abarrotada. S depois que elas se serviram  que Zara assumiu um ar profissional e comeou a descrever os tecidos, indicando os 
que considerava mais adequados para Danielle.
       - Acho que este aqui lhe fica muito bem, querida... e este, todo verde com bordados dourados...
       Passou-se muito tempo, os dedos delicados e geis das mulheres segurando e largando dezenas de tecidos, cada um mais atraente que o outro.
       - Muito bem - Jamaile disse afinal -, vou levar estes cinco padres diferentes para ela.
       - Mas... - Danielle protestou.
       - No queira me contrariar, filha de Hassan - Jamaile cortou-a.
       - Jamaile sabe o que quer - brincou Zara -, e quando cisma com alguma coisa  intil tentar convenc-la do contrrio.
       As costureiras do palcio vo lhe fazer tnicas maravilhosas, Danielle. Muitas das nossas mulheres preferem comprar suas roupas em  Paris ou em Nova York. 
Eu, pessoalmente, prefiro mandar faz-las ao nosso modo... No h nada mais agradvel que um cft.
       -  uma roupa muito extica - Danielle admitiu, alisando uma seda turquesa com contas de cristal. - Mas no quero nem pensar em abandonar meus jeans.
       - Meu Deus! - Jamaile exclamou sem prestar ateno s palavras dela. - Ainda precisamos comprar perfumes e sapatos para voc.
       - Muito bem! - Zara brincou, sorrindo. - Agora que comprou meu estoque j est pensando em me deixar sozinha de novo...
       - Os sapatos - Jamaile continuou, como se Zara no a tivesse interrompido - sero feitos sob medida no palcio. Mas, quanto ao , perfume,  preciso que procuremos 
com calma um bom especialista  no assunto. Afinal, a perfumaria  uma arte e ns, orientais, acreditamos no valor dos perfumes. Quando apropriados, podem ter grande 
influncia sobre os sentidos... muito mais do que voc possa imaginar... No nosso pas, acredita-se que uma mulher se desnuda por completo e mostra sua verdadeira 
personalidade pelo perfume que usa. Por isso, mesmo oculta por vus numa noite escura como breu, ela pode ser identificada num instante! Temos toda razo em nos 
orgulharmos de nossas essncias, j que fazem parte de ns, mulheres!
       Quando j estava de volta ao palcio, Danielle sentiu curiosidade em conhecer o ptio reservado s mulheres. Depois de passar uma maquilagem e de dispensar 
a companhia de Zanaide desceu com rapidez.
       Andou tranqila  sombra das palmeiras e examinou as primaveras que cobriam alguns arcos. Depois se aventurou noS vrios caminhos de pedra, que formavam um 
desenho semelhante a um labinto. Sentou-se junto a uma das piscinas ornamentadas e ficou olhando as carpas que, de vez em quando, talvez para se aquecerem, subiam 
perto das folhas flutuantes dos lrios d'gua...
       O ptio era um osis sereno em meio a uma casa movimentada.
       Ficava evidente que no tinham poupado nenhum tosto para constru-lo e havia beleza espalhada por toda parte. As aves cantavam e desciam para bicar um inseto 
indefeso, voltando a voar to depressa que sumiam no ar num piscar de olhos. Pombas pousavam suavemente para ciscar e de longe se ouvia o som de um pavo, sem quebrar 
o silncio e a paz da tarde.
       Danielle recostou-se no banco e fechou os olhos. Mas, de repente, imaginou um rosto moreno e sarcstico e, alarmada, voltou a abrir os olhos endireitando 
o corpo. Jourdan! No posso mais pensar nele, disse com firmeza para si mesma, e levantou para andar a esmo. Dali a pouco, viu-se diante de um muro de pedras muito 
alto, que tinha uma porta de madeira pesada. Estimulada pela lembrana de um romance que havia lido uma vez, O Jardim Secreto, ps a mo na maaneta, com inteno 
de abri-la.
       Atrs 'do muro havia um outro ptio, com carrOS para o transporte de cavalos e diversos animais, um mais bonito do que outro.
       Danielle parou no limiar da porta, hesitante, quando viu que uma figura familiar caminhava na sua direo. Esquecendo os conselhos de Zanaide, correu para 
ela, sorrindo de contentamento.
       - Saud! - exclamou.
       Aproximaram-se. Tmido e com o rosto vermelho, Saud segurou as mos de Danielle, os olhos brilhando de alegria.
       - O que est fazendo aqui? - Danielle perguntou.
       No O via desde o dia em que chegou a Qu'Har, mas sentiu que o considerava como um velho amigp.
       - 0 xeque quer andar a cavalo e vim pedir aos cavalarios para porem as selas no garanho - ele explicou, apontando o cavalo rabe preto que levavam para 
dentro do ptio. A pele do animal brilhavava como seda, as orelhas pequenas estremecendo  medida que avanava pelas pedras. - Ele pertence a uma linhagem criada 
especialmente para a famlia real. Ningum mais pode montar esses animais... H muito tempo j eram usados para testar a masculinidade de um jovem xeque... Hoje 
no se faz mais esse tipo de teste, mas o homem que puder control-los e mont-los ser respeitado.
       Danielle compreendeu bem o que Saud dizia ao ver que eram necessrios dois cavalarios para segurar o garanho, que batia o casco contra as pedras e bufava, 
irritado por estar preso pelas rdeas.
       - Est gostando de ficar aqui? - Saud perguntou. - Minha irm me contou que hoje de manh voc saiu para fazer compras.
       - Sua irm?
       - Zoe - ele explicou, sorrindo. De repente, ficou srio e olhou para trs. - Desculpe, senhorita Danielle, mas... no devia estar aqui, e muito menos conversando 
com voc... Digo isto por sua causa, no por mim - acrescentou, os olhos meigos fixos em Danielle.
       - Quanto a mim, adoraria poder conhec-la melhor, passear  noite por um osis, eu, voc, e a lua nova...
       - Mas, Saud, voc est noivo! - Danielle lembrou, sentindo-se incomodada com a conversa.
       Antes que ele respondesse, ouviu-se uma voz autoritria.
       - Saud! Onde est meu cavalo de montaria?
       O corao de Danielle bateu acelerado quando viu algum se aproximando; algum que trazia um falco pousado na mo, protegido por uma luva grosseira. Era 
ele, o homem que a amedrontava e perseguia nos pesadelos, cuja presena fazia com que seu sangue subisse para o rosto, despertando-lhe o desejo de desaparecer num 
passe de mgica.
       Saud sentia-se como uma criana culpada de alguma traquinagem, olhando para Danielle com ar de desculpa.
       Jourdan, ao contrrio, parecia perfeitamente calmo e dono da situao. Enquanto passava o falco para um, empregado, lanou um olhar frio para Danielle e 
Saud, como se fossem dois canalhas surpreendidos no momento exato em que cometiam um crime hediondo, Danielle cerrou as plpebras, recusando-se a ouvir uma voz que 
falava dentro dela, dizendo-lhe que Jourdan preparava dentro de si uma tempestade avassaladora.
       - Saud, mais tarde quero conversar com voc - Jourdan disse.
       Ele olhava para Saud sem nenhuma compaixo, despertando no rapaz um medo intenso. Saud voltou-se para Danielle, sem saber o que dizer, mostrando-se tmido 
e abatido.
       - A culpa  minha, no de Saud - adiantou-se Danielle, com pena dele. Sua voz ecoou fracamente pelo ptio, chamando a ateno de alguns criados. - Entrei 
aqui por engano e falvamos sobre isso...
       - A filha de Hassan vive cometendo enganos - ironizou Jourdan - Voc defende meu sobrinho como a leoa faz com os seus filhotes... Pode me dizer por qu?
       As palavras dele estalaram como um chicote, mas ela no cedeu.
       - Primeiro porque detesto que as pessoas discutam... E segundo porque gosto de Saud e sou amiga dele.
       Fez-se um silncio tenso. O rosto de Saud iluminou-se de alegria, e Danielle arrependeu-se imediatamente de ter dito aquelas palavras de uma maneira to violenta. 
Sem dvida, Saud as tinha interpretado mal, e Jourdan? Olhou-o de relance e viu o rosto bonito e impassvel.
       No expressava nada... apenas a estudava, boca marcada por linhas severas...
       - Volte para o seu lugar, filha de Hassan - ordenou Jourdan.- E lembre que Saud  noivo.
       Deu as costas a Danielle para montar o cavalo trazido pelo cavalario e, segurando as rdeas com mos de ferro, aproximou-se dela.
       - Outra coisa... Se quiser alguma aventura, mignonne, escolha um outro homem. Se no mais velho, pelo menos mais... inteligente.
       Sem olh-la, afastou-se rapidamente, o som dos cascos nas pedras ecoando no mesmo ritmo das batidas do corao de Danielle.
       Ela ficou ali parada, com a resposta a ser dada presa na garganta.
       Afinal reanimou-se, e voltou correndo para a tranqilidade do jardim de Jamaile.
       
       
       Descansando no quarto, abatida pelo calor da tarde, Danielle entregou-se a um silncio angustiante, os pensamentos atormentando-a incessantemente.
       Pouco depois, uma criada a procurou para dizer que Jamaile a chamava para tirar medidas para as roupas novas. A idia no a 
       intusiasmou muito, mas pelo menos era uma oportunidade de se distrair e esquecer as sensaes desagradveis provocadas por Jourdan.
       Desceu logo em seguida e enoontrou J amaile  espera.
       - A costureira vai lhe tirar as medidas agora,Danielle.
       - Sim, senhora.
       - Vai ver como os cfts a deixaro ainda mais bela e jovial...
       Danielle no soube o que responder, mas esforou-se para sorrir no deixar transparecer nada.
       Enquanto a moa, humilde e obediente, passava-lhe a fita mtrica em torno da cintura, Danielle ouviu-a comentar qualquer coisa com Jamaile. . .
       - Naomi est dizendo que voc  magra como uma figueira antes de dar frutos - Jamaile explicou. - Ela vai fazer tambm o vestido de noiva de Zoe. J  uma 
tradio na famlia de meu marido as mulheres usarem seda vermelha e cento e um botes de prola no cft nupcial. A tnica de Zoe ter o emblema da fertilidade e 
o futuro marido dar a ela o cinto de prata que s ele ter o direito de tirar depois da cerimnia de casamento.
       As mulheres aqui se sujeitam de muitas maneiras, Danielle pensou.
       Mas, embora se condenasse por isso, no foi Zoe que imaginou vestida numa tnica vermelha enquanto as mos morenas e delgadas de um homem desatavam o cinto 
de prata. Viu-se a si mesma, os olhos inquietos fixos no marido alto e arrogante...
       - Voc est h muito tempo aqui em casa, sem fazer nada - disse Jamaile, quebrando-lhe o devaneio. - Far um passeio hoje a
       tarde para conhecer o litoral. Alm do motorista, Zanaide ir acompanh-la.
       Danielle entendeu que a sesso estava terminada e que poderia se retirar. Agradeceu  costureira e s ajudantes e voltou para o quarto, onde Zanaide a esperava.
       Entrou e viu sobre a cama a bela tnica vermelha que Zanaide havia levado. Tinha pensado em usar algo mais informal no passeio mas antes de dizer qualquer 
coisa Zanaide foi at o banheiro. No querendo contrari-la, recusando o cft, Danielle tirou a saia e blusa e foi at o quarto de vestir para pegar roupas ntimas 
novas.
       No pretendia tomar um banho completo, porm, mais uma vez Zanaide, adiantou-se e, quando saiu do quarto de vestir, Danielle viu-se envolvida pelo agradvel 
aroma de sndalo.
       - Zanaide...
       - Sim, senhorita?
       - Quem disse para voc, que desejo tomar banho? - protestou.
       - Oh, senhorita, perdoe-me.
       Arrependida com a indelicadeza, e vendo a tristeza estampada no rosto de Zanaide,no teve outra sada seno entrar na banheira com gua perfumada.
       Danielle teria morrido de rir se dias antes, algum lhe dissesse que mergulharia numa banheira de mrmore to grande quanto uma piscina, e que contaria com 
uma criada para lhe passar um suave leo perfumado no corpo. Mas agora achava aquilo to natural e delicioso, que parecia absurdo resistir. Se protestava, era na 
verdade, porque dentro dela os hbitos europeus ainda predominavam.
       Pouco depois, saiu da banheira, enxugou-se e vestiu-se rapidamente com as roupas leves de seda, ideais para um dia quente como aquele. O amarelo dourado do 
tecido enfatizava os cabelos loiros e o verde cristalino dos seus olhos. Um pouco de sombra esverdeada e um simples toque de batom encarnado transformaram-na repentinamente 
numa mulher belssima.
       Olhando-se no espelho, parecia uma estranha. Seus lbios no eram assim to carnudos e sensualmente trmulos! E nos olhos nunca tinha notado tanto mistrio 
e insinuao!
       Desceram em seguida. O carro que as esperava dessa vez no era o Rolls-Royce, mas um discreto BMW. Zanaide entrou com calma na parte da frente e sentou ao 
lado do motorista. Um criado abriu a porta traseira para Danielle. Ela acomodou-se, o ajudante fechou a porta e o carro arrancou com suavidade. S ento, como que 
despertando de um sonho profundo e fantstico, Danielle percebeu que no estava sozinha.
       - Ficou plida de repente, filha de Hassan - brincou a voz masculina.
       - Jourdan! - ela exclamou, as slabas do nome se, atropelando nos lbios entreabertos de surpresa. - Que est fazendo por aquj?
       - Cumprindo uma tarefa. Jamaile pediu-me para acompanh-la, e aqui estou.
       Apesar da explicao lgica e clara, Danielle ficou intrigada. E profundamente ansiosa. Afinal, Jourdan no era o tipo de homem que aceitava ordens de uma 
mulher, mesmo que esta fosse esposa do chefe de Qu'Har.
       - Talvez preferisse que Saud estivesse no meu lugar... Parece que voc exerce m influncia sobre rapazes impressionveis, filha de Hassan...
       - Eu e Saud estvamos apenas conversando - ela replicou.- No tnhamos segundas intenes.
       - Ousaria dizer que eram dois inocentes?
       - Mas  claro!
       - No existe inocncia entre um homem e uma mulher. Alega inocncia significa desconhecimento absoluto do mundo. Ou ento, uma capacidade incrvel de iludir-se.
       Daniel1e no respondeu. Desviou o rosto e ficou olhando para fora.
       Viu  distncia a gua azul esverdeada do golfo, alm de jardins repletos de palmeiras. Mas, enquanto observava o litoral, sentiu que em vez de se aproximarem 
dele, estavam se distanciando. Olhou para a frente e constatou que a estrada que tinha tomado no levava para as praias.
       Chegando numa bifurcao, o carro no tomou a direo do golfo.
       Indo para o lado oposto, com certeza rumava para os subrbios da cidade, com casas esparsas e grandes extenses de deserto.
       Preocupada, Danielle olhou para trs e reacomodou-se com impacincia no banco. Para onde estariam indo?
       - Pode me dizer para onde vamos? - perguntou a Jourdan.
       - Espere e ver - ele respondeu, seco.
       A ansiedade de Danielle se transformou em apreenso. Que inteno teriam eles, fazendo mistrio de um passeio que antes lhe parecia to simples? Pensou em 
pedir ao motorista que parasse o carro, mas lembrou da presena de Zanaide e acalmou-se um pouco. Jourdan estava pregando uma pea nela, refletiu. Havia feito questo 
de assust-la, e, inocente, ela reagiu como ele esperava!
       Decidiu relaxar e ficar quieta, enquanto o automvel continuava  adentrando cada vez mais no deserto. Ns dois estamos lutando em silncio, Danielle disse 
a si mesma, e eu no quero perder!
       O carro rOdava j por mais de uma hora e os nicos sinais de civilizao eram pequenos grupos de tendas que apareciam s vezes em tomo dos osis. Provavelmente 
estamos andando em crculo, pensou Danielle, procurando~no se deixar amedrontar pela vastido do deserto que os envolvia. S conseguia divisar as dunas imensas. 
O sol comeava a descer, feito uma gigantesca bola de fogo, tingindo de vermelho a areia.
       Finalmente, no suportando mais aquela demora, ela suspirou e disse:
       - Muito bem, Jourdan. Acho que voc j se divertiu bastante comigo. Confesso que estou impressionada! Mas a esta altura devemos ter chegado perto do palcio, 
no? Jamaile estar nos esperando?
       - Mais ou menos... Estamos perto do palcio, filha de Hassan, mas no do palcio do meu tio.
       Mal ele acabou de falar, Danielle avistou uma construo no horizonte, uma grande muralha com enormes portas de madeira, como tinha visto em filmes de aventura. 
Quando se aproximaram, a porta  se escancarou, devorando-os como uma boca gigantesca. Danielle no compreendia o silncio de Zanaide, que parecia conivente com aquilo 
tudo...
       O carro avanou sobre as pedras de um ptio, passando por ricas vegetaes de flores e palmeiras, e parou na frente da escadaria da entrada, guardada por 
dois lees esculpidos em mrmore.
       Daniel1e levou a mo  maaneta.
       - Espere que eu saia primeiro - Jourdan adiantou-se. - O que a minha gente vai pensar de mim? Que no respeito minha esposa?
       - Sua esposa!
       No podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Estava confusa, com um misto de calor e perplexidade. A cabea girava, girava, e no encontrava uma maneira 
de responder a Jourdan. Afinal saiu do carro pata se expor aos ltimos raios vermelhos do sol que morria lentamente.
       Subiram os degraus de mrmore e pararam sob a sombra de uma marquise com desenhos em mosaico.
       - Mas no sou sua esposa, Jourdan - Danielle conseguiu protestar.
       Ele parou, voltou-se e a examinou com o mesmo ar de arrogncia que nunca abandonava. Danielle estremeceu.
       - Ainda no, filha de Hassan - Jourdan concordou. - Mas a partir de amanh ser.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO VI
       
       - Senhorita...
       - Zanaide! O que est acontecendo? - Danielle perguntou, mais aliviada por ver um rosto familiar. - Precisamos sair daqui e voltar para Qu'Har!
       A criada balanou a cabea.
       - No  possvel.
       - Como assim?
       - A senhora Jamaile pediu-me para ajud-la a se preparar para a cerimnia de casamento.
       - Mas Zanaide, eu no vou me casar!
       - Est tudo arranjado. O sacerdote da sua religio j chegou!
       - Por favor, me compreenda... no desejo me casar com Jourdan! Ele me quer como esposa apenas por... vingana! D um jeito de dizer a Jamaile o que aconteceu, 
ela...
       Danielle interrompeu-se ao ver o gesto negativo de Zanaide.
       - No. Ela me disse que voc vai casar. Trouxe o vestido de casamento. No deve ficar nervosa... O casamento  um passo importante na vida de uma mulher. 
Com o xeque Jourdan, descobrir uma nova vida...
       Danielle permaneceu calada, fitando-a. Mas ento Jamaile tinha dito a Zanaide que ela e Jourdan casariam?
       - No vou sair da cama. No saio deste quarto enquanto no conversar com ela - insistiu, decidida.
       -  corajosa, embora a sua determinao de nada adiante por aqui! - A voz masculina ecoou forte, vinda da porta aberta.- Quero falar com Danielle - Jourdan 
explicou  Zanaide. Deixe-nos sozinhos,- Depois voc cuidar dela. A cerimnia no poder ser atrasada. .
       - Que cerimnia? - Danielle perguntou, enquanto Zanaide se retirava. - Voc enlouqueceu, Jourdan?
       - Por acaso, tenho cara de louco?
       Jourdan aproximou-se devagar, pisando de mansinho, e parou junto  cama, olhando Danielle atravs dos vus que a cercavam. S ento ela lembrou que estava 
quase nua e cobriu-se, envergonhada. O orgulho cresci dentro dela e daquela vez no se renderia.
       - Estou procurando facilitar as coisas, mignonne - ele garantiu com voz branda. - Estou fazendo tudo para que voc se sinta feliz como minha esposa.
       - Por exemplo, tirando-me a virgindade? No v que hoje em dia essas coisas no tm a menor importncia?
       Ele suspirou fundo, sem esconder a impacincia, e examinou-a  como se a desnudasse por inteiro. Danielle empalideceu.
       - E um filho? Isso tambm no tem importncia nos dias de hoje? - Ele a desafiou.
       - Voc no teria coragem!
       Ele sorriu, zombando dela.
       - Mas  claro que teria! Faria qualquer coisa para garantir minha posio neste pas... No meu pas! Ser que estamos comeando a nos entender?
       - O xeque Hassan jamais o perdoar por isso! No consigo imaginar como chegou a convencer Jamaile a consentir nessa... atrocidade. Mas quando meu padrasto...
       - Ela concordou porque, assim como eu, deseja o bem para o nosso pas. Quanto ao seu padrasto, estarei satisfazendo a vontade dele. Voc, sem dvida, sabe 
que estou dizendo a verdade. Talvez meu tio no fique contente com as tticas empregadas na realizao desse casamento, mas quanto ao resto...
       - Por favor, escute! Eu no o amo! Voc no me ama! Tudo o que ambiciona  poder controlar sozinho a companhia.
       - Concordo com voc - Jourdan respondeu, uma expresso de seriedade estampada no rosto. - Deve ter me considerado um idiota, filha de Hassan, acreditando 
que eu aceitaria jogar fora o meu trabalho, em benefcio de um rapazote imbecil como Saud!
       - Saud? ,Danielle arregalou os olhos.- Era por isso ento que Jourdan a forava? Ele acreditava que ela estivesse apaixonada pelo inocente "Saud?" - Pode 
lhe soar muito estranho, Jourdan - explicou frieza -, mas no costumo me envolver com homens comprometidos...
       - Que fosse um outro qualquer e no Saud. No faria a menor diferena. Danielle... voc est amadurecida para o casamento. E, eu pretendo saborear este fruto 
delicioso!
       - Eu o odeio! - ela explodiu, incapaz de continuar ouvindo-o - Imagino que voc s aprovou o casamento de minha me com o xeque Rassan por causa da possibilidade 
de assumir a direo da companhia de petrleo. Responda-me uma coisa, Jourdan. J tomou, alguma deciso na sua vida que no fosse em funo dos seus interesses pessoais?
       - J - respondeu, seco. - Uma vez s. Foi quando uma pessoa de quem eu gostava muito cometeu um erro. Discutimos por, causa disso e perdi o homem que tinha 
sido meu pai, meu tio e meu amigo durante toda minha juventude.
       Danielle suspirou, consciente de que Jourdan se referia a Hassan.
       - Mas seus escrpulos desapareceram de uma hora para outra, quando notou que o casamento estava dando certo, no  verdade?
       Percebeu que s poderia chegar ao controle da companhia se aceitasse fazer parte desta farsa, deste casamento absurdo, no foi isso? Pois ento, meus parabns! 
- Danielle falou com desprezo, desejando feri-lo fundo.
       - Voc fala sem ter conhecimento de causa, filha de Hassan. Mas no me importo com o que diz. Vou sair agora, e chamar Zanaide.
       O casamento est marcado para daqui a uma hora. - Jourdan andou at a porta, parou e voltou-se. - E saiba que ele ser legal. Casaremos segundo as leis de 
Qu'Har e as normas da Igreja. No haver anulao: Sequer divrcio!
       Saiu em seguida, deixando as palavras ecoando no ar, atormentando a alma de Danielle. Pouco depois, Zanaide voltou do banheiro.
       - Preparei o banho com os leos que asseguram a fertilidade...
       - No vou me banhar, Zanaide - respondeu, rspida. No iria, ser preparada como uma vtima para o altar do sacrifcio! - Casamento! - exclamou, cerrando os 
punhos, morta de raiva. Aquele casamento no podia se realizar! No era possvel que o destino lhe fosse to ingrato!
       S o medo que .Jourdan voltasse para vesti-la  fora  que a fez sair da cama e colocar o cft dourado com desenhos em vermelho.
       Mesmo assim, relutava, recusando a olhar-se nos espelhos que cobriam toda a parede.
       - No gostou do cft? - Zanaide perguntou, um pouco decepcionada. - A prpria senhora Jamaile escolheu o modelo e fiscalizou a execuo. Os botes de prola 
so um presente dela.
       Um presente... justamente dela, a mulher que conspirou com Jourdan, como se ela no passasse de uma escrava vendida a um senhor todo-poderoso! E por qu? 
Porque seu padrasto controlava a companhia de petrleo! Jourdan no desejava outra coisa seno herdar esse poder!
       Mas se no possua condies de evitar o casamento absurdo, tinha a certeza de que faria de cada dia um tormento para Jourdan, dizendo-lhe quanto o detestava 
e odiava a todo momento.
       - Agora coloque o cinto - Zanaide disse num murmrio, francamente emocionada. Entregou-lhe o cinto adornado com diamantes e 
       esmeraldas, que brilhavam com a luz que entrava atravs das cortinas transparentes e coloridas. - O cinto pertence  famlia do xeque Jourdan,- ela acrescentou. 
-  costume da famlia que as mulheres da casa o coloquem na noiva e o apertem.
       Enquanto falava, ajustava o pesado cinto de prata em tomo dos quadris de Danielle, dando a impresso de mos de ferro que a aprisionavam. Danielle estremeceu 
ao sentir o contato do metal frio, ao ver o brilho intenso das pedras preciosas que a hipnotizavam, carregando-a para dentro de um estranho estado de letargia.
       Zanaide deu-lhe uma xcara de ch de hortel e, logo depois de beb-lo, os msculos do corpo de Danielle comearam a relaxar.
       - Zanaide...
       Ela pronunciou o nome num sussurro, como se a voz no lhe pertencesse, como se uma outra mulher falasse em seu lugar.
       - O que deseja?
       - Tinha alguma coisa no ch?
       Temeu no ouvir a resposta. Seus sentidos a abandonavam aos poucos, ofuscando a mente, embaralhando os pensamentos.
       - Nada que lhe faa mal... S um pouquinho de calmante, colocado por ordem de Jamaile. As mulheres sempre tomam antes do casamento... Relaxa o corpo e tranqiliza 
o esprito...
       Mergulhada na idia da cerimnia que se aproximava, Danielle se distraiu, mal ouvindo as ltimas palavras de Zanaide.  medida que a droga ia atuando sobre 
seus msculos, foi deixando a criada esfregar leos perfumados nos punhos e no pescoo e passar uma sombra leve sob os olhos.
       - Est preparada - anunciou Zanaide, apertando os fechos do cinto prateado. - Agora ningum, com exceo do seu marido, poder solt-la. As prolas da castidade 
escondem dele o segredo dos, jardins do seu corpo... e apenas ele poder se aventurar para explor-los.
       Danielle sentiu vontade de tampar os ovidos para no escut-la.
       Nesse momento, porm, a porta se abriu, aumentando-lhe as batidas do corao. Com os lbios ressequidos, deixou-se conduzir por Zanaide, que a entregou ao 
homem que a esperava parado no limiar da porta.
       Vestindo as roupas cerimoniais, Jourdan parecia um estranho cujo olhar pousava sobre o corpo bem-feito de Danielle. As criadas os levaram para uma sala que 
dava para um ptio agora mergulhado na penumbra.
       O primeiro ritual, muulmano, foi completamente incompreensvel para Danielle, que respondia com indiferena, como uma criana obediente que ignora o verdadeiro 
sentido das coisas.
       Dez minutos mais tarde, em frente ao sacerdote, por um breve instante Danielle lanou um olhar de piedade para Jourdan. Ele, entendendo-a, mas sem querer 
ajud-la, segurou-a pelo brao e apertou-o com fora. Com os olhos frios e distantes, murmurou com doura:
       - Suas queixas devem acabar, filha de Hassan. Segundo as leis muulmanas, j somos marido e mulher. Voc me pertence, agora.
       Tenho todo o direito de castig-la, se por acaso me contrariar...
       Com a ameaa vibrando nos ouvidos, Danielle continuou respondendo, as palavras saindo com dificuldade, como se raspassem na garganta e lhe causassem uma dor 
insuportvel.
       - E agora, mon fils, podem se beijar - o sacerdot disse com um sorriso, fechando a Bblia.
       Quando Jourdan inclinou-se para ela, todo o corpo de Danielle se contraiu. No entanto, no pde impedir que as mos dele lhe tocassem os ombros. Os olhos 
dele, profundos, fixaram-se nos seus. Mas ela no o encarou. Com a respirao presa, esperou o momento terrvel de os lbios dele roarem dela
       De olhos fechados, sentia que os segundos pareciam uma eternidade, e ele ainda no a tinha beijado. Levantou as plpebras e viu um largo sorriso. Apenas os 
olhos continuavam gelados, alertas como os de uma ave de rapina.
       - Devido  timidez de minha noiva - Jourdan falou - prefiro reservar esse prazer para mais tarde. Obrigado, padre; Mahmoud lhe mostrar o quarto.
       O padre se retirou acompanhado pelo criado.
       - O padre Pierre veio para c antes da II Guerra Mundial e nunca mais quis voltar - explicou Jourdan. - Graas a ele o xeque Hassan cumpriu a promessa que 
fez a minha me de me educar como um catlico.
       Pela primeira vez falava alguma coisa sem rancor ou ironia, e mesmo assim Danielle permaneceu distante, recusando-se a conversar.
       - Pode chamar Zanaide para me acompanhar at o quarto? - perguntou secamente. - Sinto-me exausta e gostaria de me recolher. 
       -Tambm estou cansado, mignonne - ele responde. - Mas no  preciso chamar Zanaide. Eu mesmo a levarei... No tinha percebido, que minha esposa estava to 
ansiosa para cumprir o voto que acabou de fazer. Talvez eu seja um tanto quadrado - acrescentou, sorrindo - Mas cabia a mim sugerir que nos retirssemos... Sabe, 
sua impacincia me entusiasma.
       Jourdan ria  vontade, mas Danielle ainda continuava rgida, os olhos assustados no rostinho delicado.
       - Como pode falar desse modo? Voc no me deseja... Sou apenas um caminho para voc chegar  chefia da companhia de petrleo.
       - Que no posso recusar, naturalmente - ele replicou, voltando, a ficar srio. - Danielle, voc  minha mulher. E o ser de fato antes do amanhecer...
       - No! - A palavra saiu como uma bofetada, cheia de pnico que a domina.
       Danielle deu meia volta e foi em direo  porta. Mas Jourdan correu e colocou-se  frente, segurando-lhe o brao.
       - Solte-me!
       - Danielle, daqui para a frente, quer queira, quer no, voc ter de se comportar como minha esposa! - ele avisou, erguendo a voz. - Chega de cometer tolices! 
Venha comigo. . .
       -No...
       - Prepararam-nos um quarto. Venha comigo!
       Um grito ficou preso na garganta de Daniel1e, os braos j doendo, tal era a fora com que ele a agarrava. Resistindo, se manteve onde estava, como se seus 
ps pudessem criar raizes.
       - Ter que me arrastar! - ela avisou.
       - Sua tola!
       Ele a ergueu nos braos num gesto rpido e preciso.
       --Minha fera  frgil demais! - zombou, carregando-a para fora da sala e subindo a escada estreita que dava para um quarto magnificamente decorado.
       Indiferente  relutncia de Daniel1e, deitou-a num div baixo, entre almofadas espalhadas. Ela tremeu de pavor ao ver a cama preparada com os mais ricos lenis. 
- Minha gazela est com medo - ele comentou, compreendendo, o significado daquele olhar. - No se preocupe, mignonne. Antes que o sol volte a iluminar o cu, voc 
ter aprendido a ver com outros olhos sua natureza de mulher madura...
       - Eu odeio esse modo animal que voc assume ao falar comigo... Se tivesse um mnimo de compaixo, se fosse realmente um homem educado, jamais teria coragem 
de fazer isso com uma mulher...
       - Acha que no, mesmo? Como  ingnua, minha gazela! Duvido que algum homem que a tenha olhado deixou de sonhar em possu-la e de saborear uma noite como 
esta...
       O quarto pareceu virar e Danielle esboou um novo protesto. Viu Jourdan inclinando-se outra vez sobre ela e recuou.
       - Beba isso - ele ordenou. Obediente, ela segurou a xcara de ch de hortel e tomou um gole.
       Sua cabea voltou a girar. Tentou sair do div e cambaleou. Jourdan a segurou e tornou a deit-la, obrigando-a a beber mais do ch que, Danielle agora sabia 
continha a mesma droga dada por Zanaide.
       Lembrou da criada dizendo-lhe que acalmava o corpo e a mente...
       E seu corpo tremeu com violncia, a imaginao antecipando imagens daquilo que teria de suportar, a vontade enfraquecendo, as foras se esvaindo... Ah, como 
queria pedir a Jourdan que a libertasse daquele cinto, mas seu Orgulho nunca permitiria isso!
       - Est tremendo demais, Danielle. O medo est tomando conta de voc - ele murmurou com suavidade os dedos tocando-lhe o pescoo. - Se isso a tranqiliza, 
queria dizer que a realidade que a assusta agora, mais tarde a atrair. Daqui a poucos dias, voc a receber de braos abertos.
       - No conte com isso, Jourdan!
       A angstia que invadia ruidosamente seu corao foi abafada pela risada de Jourdan. As mos dele deslizaram do pescoo at os quadris e encontraram o cinto 
da castidade.
       - Tudo  possvel neste mundo, Danielle! Tudo! Se for honesta consigo mesma, mais tarde ter de admitir sua derrota.
       Jourdan a tomou nos braos, erguendo-a do div. Foi at a cama  a deitou com delicadez. Seus olhos encontraram-se. Seus rostos estavam muito prximos um 
do outro. Quando ele lhe tocou o corpo, a respirao de Danielle quase parou.
       De repente, ele se afastou. Uma a uma, foi apagando as luzes que iluminavam o quarto e depois voltou calmamente para a cama.
       Danielle sentiu que as mos dele soltavam os fechos do cinto com habilidade. E quando ele procurou os primeiros botes de prola, ela pde sentir o hlito 
quente daquela boca na pele do seu rosto.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO VII
       
       Danielle gelou quando os dedos buscaram-lhe a pele sensvel. Apertou os olhos fortemente para evitar enxergar aquele tronco atraente.
       A brisa da noite soprava com suavidadeJ alisando-Ihe o corpo corrio seda. O cora<? batiapesadoJ pela primeira vez em toda a sua " existncia. A respirao 
ofegante de Jourdan tocou-lhe as faces. Ela virou o rosto para o outro lado de propsito, fechando os lbios para que no fosse beijada. Mas a boca de Jourdan no 
procurou os lbios rebeldes, e sim o colo descoberto.
       Quando os dedos geis desprenderam o cft dos botes de prolaJ os lbios dele aproximaram-se lentamente dos seios e ali ficaram, vidos. O corao dela 
pulsava sob a mo potente.
       Como se compreendesse a linguagem daquele corao atormentado, Jourdan afastou-se e fitou-a em meio  penumbra do quarto. Os olhos curiosos brilhavam como 
os de um gato iluminados vela lua.
       - Filha de Hassa,n - murmurou -J no precisa ficar com medo. Escute... d-me a mo e vamos sair para andar pelas trilhas do Jardim de den.
       Como se estivesse em estado de transe hipntico, Danielle estendeu a mo. Ela agia a contragosto, mas agia! Jourdan tomou-lhe a mo trmula e colocou-a espalmada 
sobre o peito.
       - Seus dedos pareceram se debater como as asas de um pssaro pego numa armadilha - ele comentou. - Danielle... sou igualzinho a todos os outros homens. Minha 
carne, meu corpo, tudo igualzinho...
       Mas no... ele no era como os outros, ela pensou com desespero.
       Nenhum homem tinha lhe pedido jamais que o tocasse de uma maneira to ntima. Como poderia ela responder quele apelo masculino vibrante e insistente? Ningum 
antes a havia abraado daquela forma, seus seios apertados contra os msculos do peito, os plos negros e eriados provocando-lhe sensaes estranhas, levando-a 
a uma fraqueza excessiva...
       Quando o cft foi retirado por ele, que podia fazer seno protestar num sussurro? Que reao poderia ter, dominada pelos braos fortes que a tocavam mudando-lhe 
a posio de modo que ela ficasse iluminada pela luz prateada do luar? Ah Deus do Cu!, como Danielle tremia sob aquele olhar incansvel e impaciente, debaixo daquelas 
mos que no desistiam de acarici-la!
       Confusa e perturbada pelas sensaes desconhecidas que despertavam as regies mais ntimas do seu corpo, Danielle moveu-se. Ofegante, percebeu que Jourdan 
se desnudava lenta e nervosamente. A mesma luz prateada iluminava agora os ombros largos e o contorno tortuoso do corpo msculo. Seus olhares se encontraram e ela 
sentiu que queria ouvir dele alguma palavra.
       - Agora  tarde, Danielle - ele murmurou num tom de voz que ela no conhecia. - Mesmo que eu mudasse de idia neste exato momento, meu corpo no me obedeceria.
       No breve silncio que se fez Danielle pde ouvir o, pulsar do corao de Jourdan.
       - Nem posso acreditar na beleza que tenho na minha frente.- Ele continuou falando baixinho. - Seu corpo  to delgado e maravilhoso quanto o de uma gazela 
que foge do caador.  provocativo, excitante!
       Jourdan lhe tocou o rosto pedindo-lhe que no o evitasse. E ento percebeu que uma lgrima escorria silenciosamente pelo rosto de Danielle.
       - Voc chora como uma criana, assustada com o desconhecido. Mas no pode mais fugir da sua feminilidade... Precisa admitir que   uma mulher. E uma bela 
e atraente mulher! Oh, Danielle... perdoe-me, mas no posso deixar de provar este fruto que  s meu!
       Danielle tentou falar mas a voz se perdeu no beijo urgente de Jourdan, provocando-lhe um calor interior que ameaava deix-a sem sentidos.
       Ningum a tinha beijado daquela maneira, constatou em meio um delrio, enquanto as mos dele cariciavam-lhe as costas, moldando-lhe o corpo no dele, os lbios 
inquietos levando-a ao desespero completo. No resistindo mais, Danielle ergueu os braos e tocou-lhe os ombros, hesitando entre acarici-lo e afast-lo, o olhar 
fixo no olhos dele, pedindo-lhe para no parar.
       O que estava acontecendo com ela? Devia ser a droga colocada no ch, refletia um pouco estonteada. S aquilo poderia explicar ar estranha necessidade de se 
entregar inteiramente aos lbios e aos braos daquele homem viril. Instintivamente abriu a boca, apoiou a cabea nos braos de Jourdan e abandonou-se  doce explorao 
de seus lbios. Sentindo que ela comeava a ser vencida, ele envolveu o seio dela com a mo livre, provocando sensaes que alarmavam Danielle e a enlouqueciam de 
prazer.
       Em alguma parte dentro dela, uma voz lhe dizia que mais tarde se arrependeria de entregar-se cegamente quelas sensaes deliciosas.
       Mas Jourdan a abraava com tal fora, e de uma maneira to especial que, mesmo que desejasse, no conseguiria se desvencilhar dele.
       Danielle desceu as mos pelas espduas e tateou os msculos tensos das costas de Jourdan, gemendo baixinho enquanto ele beijava-lhe o pescoo, descia lentamente 
pelo colo, pelos seios, e parecia nunca mais voltar, chegando a regies que nem em sonhos selvagens ela tinha imaginado. Aquele homem explorava toda a intimidade 
do corpo dela, com uma experincia fantstica!
       As mos de Danielle desceram mais e timidamente tocaram os msculos das ndegas dele. A pele de Jourdan tinha a textura do cetim, fazendo-a sentir uma fora 
primitiva incontrolvel e incompreensvel. Era absolutamente necessrio estreitar ainda mais seu corpo contra o dele, sua feminilidade contra a masculinidade dele, 
para acarici-lo com impacincia, at provocar nele um gemido de prazer e de urgncia. Os lbios dele agora exploravam-lhe os seios, rijos e excitados.
       Embrenhando-se por trilhas de sensualidade nunca experimentadas, com os corpos entrelaados e vidos, Danielle curvou-se instintivamente sob as mos fortes 
de Jourdan. Ambos estremeciam com as carcias ritmadas e crescentes. O prazer atingia um clmax que derrotava toda a razo. Restava apenas a absoluta necessidade 
de satisfazer o desejo que aumentava loucamente dentro deles, e ao qual deveriam obedecer.
       - Oh, Danielle - Jourdan sussurrou, ofegante -, voc aprendeu depressa...
       Enquanto acariciava-lhe os bicos dos seios, murmurou alguma palavra em rabe que parecia um pedido, mas Danielle sentia-se embriagada por um desejo forte 
demais para fazer qualquer esforo de compreend-lo.
       Finalmente, confusa e atnita, Danielle viu-se invadida por uma mar de volpia. J era impossvel voltar atrs! Quando Jourdan deslizou as mos para os seus 
quadris, erguendo-a levemente e afastando as pernas dela para os lados com o calor das prprias pernas, Danielle conseguiu apenas lanar-lhe um olhar rpido e sentir 
uma excitao alucinante no contato ntimo com o corpo dele. Ento ela se encantou com a rigidez das coxas de Jourdan, com os movimentos ritmados dele, e no conseguiu 
pensar em mais nada, flutuando em meio a sensaes maravilhosas e desconhecidas.
       O gemido agudo e breve da dor e da aflio foi abafado pela presso dos lbios dele. Nesse momento o medo voltou a ser maior que o desejo, e o reconhecimento 
do que tinha acabado de acontecer tomou o lugar daquele prazer indescritvel.
       A droga do ch levou-me a fazer isso, Danielle pensou num desespero silencioso, procurando evitar que as lgrimas escorressem. Como odiava Jourdan!, concluiu. 
Odiava-o como a mais ningum!
       Tentou separar-se dele, mas ele no permitiu. O rosto de Jourdan tinha se transformado numa mscara plida de fria e s ento ela percebeu que aquele no 
fora apenas um pensamento. Ela de fato havia dito que o odiava, ferindo-o mortalmente.
       - No, mignonne! - ele protestou, apertando-lhe os braos com crueldade. - Voc odeia a si mesma por ter-se descoberto mulher...
       - Voc me iludiu com drogas no ch!
       Voltou-lhe as costas e atirou-se contra o travesseiro, enquanto as mos dele, antes carinhosas e generosas, faziam dela uma prisioneira eterna.
       Jourdan tornou a abra-la, como que arrependido da repentina violncia.
       - Tire as mos de mim!
       - Danielle...
       - No me toque mais! Nunca mais!
       - Pare de se, comportar como uma criana!
       - No est satisfeito com o que fez? J no basta ter me humilhado e me machucado?
       Um pesado silncio caiu sobre ele.
       De repente, sem ela mesma saber por que, sentiu uma onda de raiva e um desgosto to forte, que no temeu mais nada. A partir d quele instante, decidiu, nem 
mesmo a violncia irradiada pelo olhos de Jourdan a intimidaria.
       Comeou a lutar ferozmente com ele. Mas era uma luta inglria pois Jourdan tinha muito mais fora e parecia se excitar com os movimentos que ela fazia sob 
seu corpo. Ele a castigava com beijos, selvagens, agora sem nenhum carinho, fazendo com que Danielle se contorcesse e gemesse de dor.
       Quando a dor se transformou em prazer? Danielle no saberia responder. A princpio, ela rejeitava a presso daquele corpo msculo, mas acabou cedendo e respondendo 
s sensaes que a invadiam, correspondendo plenamente aos apelos selvagens.
       Agora, o prazer substitua a angstia. Um prazer que a dominava, crescendo como ondas tempestuosas. Repentinamente, viu-se devorando os lbios vidos de Jourdan, 
abraando-lhe o pescoo, enquanto curvava o corpo para prolongar a corrente de prazer que ele lhe oferecia, seu corao batendo com selvageria, transmitindo uma 
mensagem que cada parte do corpo deles compreendia perfeitamente.
       Aquela inacreditvel satisfao que conheceu, ento permaneceu trancada na memria de Danielle, que a refazia nas lembranas mesmo quando o corpo descansava. 
Jourdan experimentava o sabor das lgrimas que escorriam pelo rosto dela. E esta foi a ltima coisa que sentiu antes de dormir profundamente.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO VIII
       
       Era manh.
       Sonolenta, Danielle recebeu o calor dos raios de sol atravs dos lenis. Espreguiou, num movimento sedutor, sentindo o corpo to dolorido que no pde levantar-se 
com a rapidez e o nimo habituais.
       Virou-se, os olhos embaciados. Aos poucos recordou pedaos do pesadelo noturno, e se encolheu toda horrorizada. No, no tinha sido nenhum pesadelo. Lembrava 
de fatos, reais, frios e cruis.
       A porta do banheiro se abriu e Jourdan entrou no quarto, uma toalha amarrada na cintura.
       Danielle sentiu dio ao ve-lo se aproximar da cama para olh-la de perto. Teve o impulso de lhe voltar as costas, mas fez um esforo para encar-lo, os olhos 
repentinamente cegos de emoo.
       - Ento, ma chrie, no disse que cumpriria minha promessa?
       Ele puxou a coberta dela, para apreciar os ombros frgeis.
       - Sua promessa? Prefiro cham-la de ameaa! - Danielle falou - recuou bruscamente quando ele tentou toc-la. - Pelo menoS tenho direito a uma coisa, j que 
nosso casamento est consumado e no poder ser anulado: no vou tolerar seu toque asqueroso!
       - Asqueroso? Mas ontem no poderia ter essa opinio. Muito pelo contrrio. Se minha memria no falha, voc mesma acabou me pedindo para que eu finalmente 
a possusse com ardor...
       - Porque voc me drogou. No fosse por isso, eu jamais...
       - Eu a droguei? Sua imaginao est indo longe demais, filha de Hassan. A nica droga usada, se  que posso cham-la assim, foi sua resposta selvagem  minha 
masculinidade.
       - O ch que me deu para beber estava drogado. Era exatamente a mesma droga que Zanaide tinha me dado um pouco antes.
       - Est procurando justificativas para o que fez ontem, Danielle?
       - Eu s respondi  sua... solicitao porque fui obrigada.
       - Obrigada mas com doura, no ?
       -  o que pensa?
       - Foi o que senti! J lhe disse: no pus droga nenhuma no ch. No era necessrio. Se quiser que eu prove o que estou afirmando...
       Enquanto falava, ele levou as mos  toalha, para tir-la. Danielle ficou furiosa, ao mesmo tempo que encolheu o corpo, os olhos bem abertos pedindo-lhe que 
no fizesse aquilo.
       - Pare de se comportar como criana - Jourdan observou ironicamente, inclinando-se na direo dela. - Seria um prazer dar-lhe a lio que bem merece, petite. 
No me custaria muito acender a chama apaixonada que voc esconde to bem, a ponto de faz-la sentir falta de mim a cada noite que eu precise me ausentar...
       - Voc  um sdico! - falou entredentes, disposta a mostrar-lhe o quanto o odiava e desprezava. Queria deixar claro que nenhuma ameaa a tornaria esposa dele, 
mas preferiu ser cuidadosa, pois lembrou que era praticamente uma prisioneira dentro daquele palcio e que nenhum muulmano ajudaria uma esposa fugitiva.
       Deve haver alguma maneira de me livrar desse tormento, pensou.
       Se ao menos pudesse telefonar para meus pais! Bastaria um telefonema para traz-los at Qu'Har.
       - Quando seu mau humor passar, pode chamar Zanaide para ajud-la a se vestir. Vou andar a cavalo. Se se comportar bem, num outro dia ir comigo, est bem? 
Primeiro, ser aconselhvel que nos entendamos como marido e mulher. Se nos vissem cavalgando juntos, meus homens pensariam que sou um pssimo marido.
       Por mais que tentasse, Danielle no conseguiu se controlar. Com o rosto em brasa, cerrou os punhos e chorou, as lgrimas impedindo-a de ver Jourdan sair do 
quarto.
       Quando se viu s esforou-se para se recompor. No gostaria que as pessoas da famlia comentassem que tinha andado chorando por causa dele. No, no poderia 
lhe dar esse prazer!
       Zanaide entrou com a bandeja do caf da manh e encontrou Danielle sentada na cama, fazendo as unhas.
       - Bom dia, senhorita.
       - Bom dia, Zanaide.
       - Trouxe-lhe pezinhos quentes, mel e doce, alm deliciosas.
       Danielle lanou um olhar para a bandeja e sentiu que no conseguiria comer nada.
       - Acho que no vou querer, obrigada.
       - Como no?
       - Acordei indisposta, s isso. Sem apetite.
       - Precisa comer para ficar bem forte. - Danielle riu.- Sem comer, seu filho nascer fraquinho!
       Um filho! O estmago de Danielle se contraiu, o rosto empalidecendo quando percebeu o sentido daquelas palavras. Meu Deus!, disse para si mesma. No, um filho 
no!
       Ante a insistncia do olhar de Zanaide, estendeu a mo e pegou um pozinho, fingindo com-lo com prazer.
       Precisava abandonar Qu'Har de uma vez por todas! Como poderia passar mais um dia naquele lugar infernal? Detestaria continuar ali naquele quarto, perseguida 
pela lembrana de seus prprios desejos.
       A acompanhante ajudou-a a tomar banho, a vestir e a fazer a maquilagem. Pouco depois, tendo Zanaide como intrprete, ela desceu para conhecer outras partes. 
do palcio, guiada por um muulmano alto e barbudo que, segundo Zanaide, era fiscal de Jourdan.
       O palcio era enorme. Mas uma ala inteira, embora toda mobiliada, parecia abandonada.
       - Por que no a utilizam? - Danielle perguntou.
       - A ala  reservada aos nmades do deserto. Uma vez por ano eles aproveitam a gua do osis do castelo para os rebanhos, e ento se abrigam aqui. O xeque 
tem feito muito pela nossa gente - Zanaide acrescentou.
       Chegaram a um belo ptio interno.
       - Este lugar  exclusivo do xeque - o fiscal observou.
       Enquanto caminhavam tranqilos, o homem parecia disposto a falar sobre diversos aspectos da vida do pas.
       - Nossos jovens costumam viajar para o exterior para estudar tecnologia, enquanto permitimos que nossas jovens estudem aqui mesmo.
       - Permitimos! - Danielle repetiu com desdm.
       Olhando para Zanaide, compreendeu que viviam em mundos completamente diferentes. O que Zanaide considerava um privilgio concedido por um homem bondoso e 
tolerante, Danielle via como um direito incontestvel da mulher.
       Sentiu um arrepio ao pensar no qe seria da vida dela se no fugisse o quanto antes de Qu'Har. Lembrou das palavras de Jourdan na noite anterior: voc me 
pertence... Seu corao ainda ardia ao refletir sobre um sentimento de posse to forte!
       Veja s este mosaico aqui no cho - Zanaide comentou com Danietle. - No  uma gaiola linda?
       Danietle observou sem maior interesse. Uma gaiola seria apenas uma gaiola, fosse a arte boa ou ruim. Aquele palcio tambm no passava de uma gaiola, pensou. 
E ela era a prisioneira! Ah, daria tudo para se ver livre o mais depressa possvel!
       Cobrindo os olhos para proteg-los do sol escaldante, olhou ao redor. Uma torre muito alta chamou-lhe a ateno.
       - O que  aquilo?
       - Ali  Q refgio do xeque - explicou a criada, contente por alguma coisa despertar o interesse de Danielle. - Foi construda por um antepassado dele para 
olhar o cu e fazer previses segundo os astros.
       - No podemos subir l?
       No sabia o que era, mas alguma coisa a levava a querer conhecer o interior da torre.
       Zanaide arregalou os olhos, chocada.
       - Impossvel!  o lugar privativo do xeque! Ningum jamais entra l, a no ser ele mesmo. Mas agora que  esposa dele, quem sabe ele a convida para participar 
da tranqilidade do retiro?
       - Pois ... quem sabe?!
       - Ele passa horas fechado l em cima.
       - Fazendo o qu?, Danielle perguntou-se, decepcionada com o fato de que estava proibida de chegar  torre. Proibida pelo mesmo homem que insistia em tirar-lhe 
a liberdade!
       
       
       Fazia duas semanas que Danielle estava no castelo construdo no deserto. Desde a noite de casamento, Jourdan no havia mais procurado por ela.  segunda noite 
aps a cerimnia, ela permaneceu deitada sozinha na imensa cama, alimentando um dio sem limites.
       Quando os primeiros raios do sol saram, teve de admitir que Jourdan no lhe daria a oportunidade de mostrar que estava errado. No, ela no teria a chance 
de poder receb-lo com todo o desprezo que desejava demonstrar! J estava completamente acordada quando a porta do quarto se abriu e um raio de sol projetou sobre 
sua cama a sombra de algum alto e moreno. Entretanto, no se tratava do marido e sim da fiel ajudante, espantada com os cabelos despenteados e as olheiras fundas 
que rodeavam os olhos de Danielle. .
       Foi Zanaide quem lhe contou que Jourdan e seus homens tinham passado a noite inteira  procura de uma criana perdida no deserto.
       - A pobre criana teve sorte de o xeque Jourdan estar aqui para organizar a expedio de busca - ela explicou. - No fosse ele, ningum a teria encontrado. 
Como o calor do sol durante o dia, o vento frio da noite tambm pode matar.
       Zanaide a informou que, no campo nmade do osis, todos tinham celebrado o resgate da criana...
       Os criados pareciam estar a par de tudo o que acontecia e Danielle corou ao pensar que tambm deviam saber que tinha se tomado noiva de Jourdan a contragosto. 
A palavra dele era lei, e por certo no deviam v-la com bons olhos.
       Restava-lhe a esperana de que os pais lhe telefonassem dos Estados Unidos. Imediatamente perceberiam que alguma coisa estava errada e correriam para Qu'Har. 
Em nenhum momento duvidava que o padrasto faria o possvel e o impossvel para anular aquele casamento, to logo ficasse sabendo das condies em que tinha se realizado 
e do quanto ela havia sido desrespeitada.
       
       
        medida que os dias passavam, o calor parecia aumentar. O sol batendo implacvel e um cu cujo azul feria os. olhos. Zanaide aconselhava Danielle a descansar 
na parte mais quente do dia, mas no era possvel. Uma urgncia enervante tomava conta dela, apreensiva o tempo todo com o momento decisivo que chegaria de uma hora 
para outra; o momento em que se veria frente a frente com o marido indesejvel. J no conseguia nem comer, tal a tenso que a envolvia, emagrecendo a olhos vistos 
e preocupando a bondosa Zanaide.
       Certa tarde, quando o calor parecia jog-la num forte estado depressivo, Danielle surpreendeu-se caminhando a esmo pelo ptio e, como uma sonmbula, acabou 
se dirigindo para a escada que levava  torre de Jourdan.
       Sabia que ele passava l, sozinho, a maior parte das noites, conforme Zanaide tinha informado com reservas. Mas. Zanaide temia o qu, afinal? Algo que a incriminasse? 
Pobre moa, disse para si mesma.
       O casamento j havia cumprido o seu papel e ela. Danielle, no queria nada de Jourdan. A parte na companhia pertenceria a ele e, por isso no precisaria mais 
dela. O objetivo de Jourdan j fora alcanado.
       Danietle foi subindo cegamente os degraus da escada em espiral, no parando sequer para olhar atravs das janelinhas estreitas abertas na grossa parede de 
pedras. Fazia frio ali dentro, devido s pedras, que, segundo Zanaide, foram extradas na poca das cruzadas e utilizadas pelos muulmanos naquela construo.
       A longa escada terminou de repente em frente  porta de madeira, parecida com as que guardavam a entrada principal do castelo.
       Danielle parou e ficou olhando para ela, pensando com lucidez pela primeira vez.
       O que estava.fazendo ali?
       Virou-se para trs e olhou para baixo, tentando lembrar o motivo que a tinha levado a subir at l. Estava sentada num banco do ptio, observando as carpas, 
to prisioneiras quanto ela, quando ento sentiu vontade de vislumbrar as paisagens alm das muralhas daquela priso.
       A porta da torre cedeu  presso de suas mos e ela entrou, ficando to abismada com o que via, que no percebeu a porta fechar-se sozinha atrs dela. Tapetes 
persas adornavam o piso, faixas de seda cobriam as paredes num jogo de muitas cores que lembravam a cauda de um pavo. Nada ali era discreto: havia apenas luxo e 
rique;za, que deixavam Danielle boquiaberta.
       A torre era circular, e nos vos das janelas havia divs cobertos com peles. Um telescpio chamou-lhe a ateno e foi at ele, tocando distraidamente, os 
olhos atrados pelo horizonte distante.
       Ah, se achasse uma maneira de sair de Qu'Har! Uma lgrima escorreu pelo rosto devagar. Uma lgrima triste e solitria que ela enxugou com impacincia. Jourdan 
teria se divertido muito vendo-a chorar,  beira do desespero!
       Voltou-se para a porta e viu uma cama encostada junto  parede.
       Ento era ali que ele dormia? Reunindo as poucas foras que ainda lhe restavam, desviou os olhos da cama. Estava irritada consigo , mesma! Por que razo seu 
corpo tremia descontrolado, sugerindo-lhe as sensaes que tanto queria esquecer? Precisava apagar a lembrana da pele macia de Jourdan! No queria lembrar do calor, 
das mos dele, da volpia da posse! A esmagadora sensao de fraqueza que tinha experimentado diante da fora dele, a excitao dos corpos, o desejo enlouquecedor 
do ltimo instante que...
       - No! - gritou de repente, com uma angstia intolervel! Ela no o desejava! Ela no o amava! Havia feito tudo aquilo por causa do ch! O ch que ele drogou, 
embora no quisesse admitir! S poderia ter sido isso. Como poderia explicar seu abandono total ao animal selvagem que era Jourdan? Ou haveria outra explicao? 
De repente sentiu um profundo cansao, uma dor que parecia rasgar-lhe o corao, o comeo de um choro que no conseguiria conter.
       O que estava acontecendo com ela? Onde estava sua fora de vontade? Sua independncia? Deitou-se na cama estreita e fechou os olhos, querendo apenas descansar 
um pouco.
       
       
       Um rudo de passos intrometeu-se no sonho de Danielle. Era um sonho bonito e alegre. Ela estava voltando para Londres. Tinha reencontrado os pais. Suspirou, 
levando as mos ao pescoo tenso, e com uma voz fraca chamou o nome de Zanaide.
       - Ao contrrio da esposa, a criada no ousa invadir o ninho da guia - falou uma voz masculina. A voz fria de um homem que ela reconheceu imediatamente. - 
Que est fazendo aqui, petite? Jourdan quis saber.
       Danielle no conseguiu abrir a boca para responder. Olhava-o aterrorizada, muda.
       - Ser que eu mesmo terei de tirar minhas concluses? - ele continuou. - Por acaso no sabe que este lugar  exclusivamente meu?
       Jourdan permanecia ao lado dela, em p. Aos poucos Danielle percebeu que j estava anoitecendo e tinha esfriado. Como podia ter dormido tanto?
       - Conclua o que bem entender - respOndeu, enfim. - Mas a verdade  que... - Interrompeu-se, o olhar perdido nas estrelas que piscavam, no infinito. - A verdade 
 que vim at aqui porque queria a liberdade. Queria enxergar o mundo l fora...
       - Danielle, voc est indo longe demais... - Pegou-a pelos braos e levou-a at uma das janelas estreitas. - Olhe para onde quiser, mignonne - falou com aspereza. 
- Tanto faz que seus olhos contemplem a terra, o horizonte, as estrelas, ou seja l o que for... tanto faz! Eles ainda me pertencem!...
       Jourdan gargalhou, enquanto Danielle estremecia.
       - Venha... - ele a puxou da cama e colocou-a na frente do telescpio. - O homem que construiu este castelo teve as pernas esmagadas por estas pedras enormes... 
Vivo, mas invlido, encontrou um motivo para continuar existindo ao se fechar neste observatrio...
       Ele a abraou de uma maneira absolutamente impessoal, como que querendo apenas orient-la na ,observao das estrelas.
       - A liberdade  um estado de esprito, mignonne - continuou, a boca quase desaparecendo no emaranhado dos cabelos loiros. - Meu antepassado descobriu isso 
aqui neste lugar, observando as constelaes, apesar de fisicamente ele ter sido prisioneiro da enfermidade.
       Danielle ouvia-o com ateno, enquanto os olhos espantados investigavam as incontveis luzes do espao.
       - Outros homens so prisioneiros de suas prprias emoes, porque entregam seus coraes a mulheres frias e distantes como as estrelas mais remotas... - Jourdan 
filosofou.
       - E eu sou sua prisioneira - Danielle completou, com amargura.
       - No, ma chrie. - Ele afastou o telescpio, obrigando-a a fit-lo. - Voc  prisioneira do seu prprio orgulho. Sem ele, teria de admitir que este casamento 
tem suas... compensaes.
       Jourdan sugeria muitas coisas com a afirmao que tinha acabado de fazer. Afinal, era um homem rico e poderoso, e muitas mulheres se sentiriam atradas por 
essa condio. Mas, instintivamente, Danielle sabia que ele se referia  traio que ela havia cometido com o prprio corpo.
       Com o rosto corado, DanielIe recuou e foi at a porta.
       - Onde est indo? .
       Ao ouvi-lo, deteve-se, voltou e procurou na penumbra o olhar luminoso de Jourdan.
       Sem perceber como, o corpo dele estava prximo do seu, fazendo-a sentir-se encurralada entre a porta e ele. Mais uma vez o medo a assaltou.
       - Quero voltar para o meu quarto - ela respondeu com firmeza.
       Mas ao acabar de falar compreendeu que tinha cometido um erro.
       Um sentimento de fria pareceu surgir nos olhos escuros de Jourdan e em seguida o corpo dele tocou o dela.
       - Seu quarto?
       Danielle no notou o sentido ambguo daquela pergunta e, com os nervos  flor da pele, sentiu que no era a fria que tomava conta dele, mas o prprio desejo.
       Ele est me provocando, disse para si mesma; tentando convencer-se de que nada poderia acontecer. Mas, no fundo do seu ser, sabia que talvez Jourdan quisesse 
repetir os momentos delirantes da primeira noite de casamento. Ele era um homem do mundo, acostumado com as mulheres do mundo, e ela...
       Ardeu em chamas ao lembrar da maneira como tinha se abandonado a ele naqueles minutos finais, quando tudo pareceu deixar de existir.
       - Jourdan, pare de brincar comigo! - implorou, j trmula.
       - No estou brincando!
       - Voc me quer tanto quanto eu o quero...
       - No estou certo disso...
       A proximidade dele a inquietava... Era impossvel no sentir o odor natural daquele corpo, misturado  leve fragrncia da colnia que ela usava. Recuou e 
encostou-se  porta. No tinha para onde ir! Jourdan sorriu mostrando os dentes brancos, sem esconder suas intenes.
       Foi ento que ele ergueu uma mo e tocou-lhe o rosto.
       - Por que o medo, mignonne? Voc agora  minha esposa, de fato e de direito. No lhe parece natural que um marido busque conforto nos braos sensuais de sua 
esposa? No  mulher capaz de me satisfazer, Danielle?
       O tom quente da voz causou arrepios por todo o corpo dela. Paralisada, limitou-se a acompanhar com o olhar os movimentos de Jourdan.
       O quarto pareceu mergulhar numa escurido ainda maior, quando ele inclinou a cabea e, ainda segurando-lhe o queixo trmulo, beijou-a com paixo. Dentro dela, 
uma onda de desejo ameaava derrotar sua razo.
       - Voc  minha esposa - ele sussurrou, roando os lbios nos dela. - Minha companheira noturna... No gostaria de partilhar comigo do mesmo prazer que sentiu 
na nossa primeira noite de casados? No  por isso que veio at o meu retiro privado? No estava esperando por mim, Danielle?
       Ela quis dizer que no, mas as palavras no saam. Os lbios dele a provocavam, subindo e descendo pelo seu pescoo, enquanto os dedos impacientes afastavam 
o tecido de chiffon e a boca procurava os seios dela. Perdendo o controle de si mesma, apertou-lhe os ombros com fora, enquanto sentia que ia sendo desnudada lentamente.
       - Jourdan!
       Seu murmrio foi abafado pela boca quente e carnuda, que a dominava com carcias interminveis. Finalmente, ele a ergueu nos braos e a levou para a cama.
       Agora no havia nenhum ch e nenhuma droga que justificasse a entrega de Danielle. Nem mesmo poderia encontrar explicao no poder ilimitado dos beijos dele, 
nas mos que a tocavam com ardor, mostrando-lhe as delcias de um prazer nunca antes experimentado.
       No, agora ela simplesmente dava vazo a tudo aquilo que sempre tinha desejado!
       - Danielle, voc veio para isso?
       A voz de Jourdan e aquelas palavras frias interromperam o encantamento apaixonado de Danielle.
       O que estava fazendo ali? No poderia culpar Jourdan por fit-la com desprezo. Aproveitando a imobilidade dele, levantou-se da cama para fugir.
       - Danielle! - ele gritou.
       Sem dar ateno ao chamado, Danielle correu para a porta.
       A brisa fria que circulava na escada espiralada chocava-se com seu corpo e parecia congelar-lhe a pele. Quando chegou em seu quarto fechou a porta e encostou-se 
nela, arfante, tremendo como uma criana assustada. Pela primeira vez no encontrou Zanaide esperando por ela. Aliviada, arrancou o traje e preparou um banho quente.
       Um pouco mais calma, perguntava-se gepois o que teria lhe acontecido. Por um momento havia gostado de estar nos braos de Jourdan...
       No concluiu o pensamento. Parou de ensaboar-se e contemplou a gua que comeava a esfriar.
       E por que havia fugido de Jourdan? Tinha medo! No dele, talvez, mas de suas prprias emoes.
       Saiu da banheira devagar e comeou a se enxugar, os olhos enormes estudando a pele plida.
       Por um instante, ao ser envolvida pelos braos de Jourdan havia esquecido a hostilidade entre eles, o que tinha feito com ela, o casamento forado. Agora 
sabia que ele era o homem que dera vida a seu corpo, que descobrira uma fonte nova de prazeres reprimidos, que tocara sua intimidade de uma maneira inacreditvel.
       Com um gemido breve e baixo, Danielle atirou-se sobre a cama, soluando em silncio, enquanto compreendia e procurava aceitar a verdade que acabava de descobrir. 
Tinha subido  torre no para ver o horizonte distante, mas para estar mais perto do homem com que havia casado sob o poder do dio, e que, no entanto, agora comeava 
amar.
       Porm, como seus sentimentos haviam se transformado to rapidamente? No havia lgica nenhuma. E desde quando a lgica orientava as emoes? No, no, Danielle, 
disse para si mesma em voz alta, voc no reagiu a ele como uma mulher que odiava ou era indiferente!
       Fixou os olhos na escurido do quarto.
       Agora, mais do que nunca, precisava abandonar Qu'Har! Sem dvida Jourdan se tornaria ainda mais arrogante ao descobrir que o amava! Quem sabe at zombaria 
dela!
       Trmula, encolheu o corpo numa posio fetal, a pele em chamas, como se Jourdan ainda continuasse a toc-la naquele exato momento.
       Tinha de encontrar uma maneira de deixar o castelo antes que ele a fizesse sua para sempre! Antes que fosse obrigada a admitir que o amava, sem chances de 
voltar atrs!
       Apesar de pensar assim, lamentava ter sado correndo da torre...
       Se tivesse ficado, no dormiria sozinha numa cama to grande!
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO IX
       
       - No se aproxime demais dos cavalos - Zanaide avisou. - So muito perigosos.
       Sem dar-lhe ateno, Daniel1e continuou caminhando, passando de estbulo para estbulo, encantada com a beleza das guas rabes de puro-sangue. Cavalarios 
ocupavam-se com suas tarefas e de vez em quando observavam-na com discrio. S depois de insistir muito com o secretrio de Jourdan foi que ela havia conseguido 
permisso para visitar os estbulos. Mesmo assim duvidava que a autorizao tivesse partido do prprio Jourdan.
       Uma dor aguda parecia penetrar-lhe o corao: No tinha a menor idia de onde ele estaria. Havia desaparecido desde a manh seguinte  noite em que se encontraram 
no quarto da torre. E pensar que sua ausncia agora lhe fazia tanta falta!
       O secretrio tinha sido gentil, embora firme, afastando qualquer possibilidade de emprestar-lhe um carro. Sem dvida, seguia instrues de Jourdan, que no 
desejava que ela sasse do castelo. Mas daria um jeito de ir embora dali antes da volta dele. No conseguiria tomar a v-lo sem se deixar trair pelo amor que sentia.
       O castelo ficava muito diferente sem Jourdan, e ansiava por t-lo por perto, ouVir sua voz austera e ver aquele sorriso irnico. Nunca pde imaginar que sentiria 
aquilo por algum e com tal intensidade. Ainda mais que Jourdan no a desejava realmente. Tudo o que queria era o poder alcanado atravs do casamento, e mesmo assim 
tendo em vista os benefcios de seu povo. Mas com o tempo ele no se, aborreceria com um casamento completamente irreal? Com uma esposa escolhida s por ser a enteada 
do tio dele? O que Philippe tinha contado mesmo, a respeito de Jourdan? Que havia muitas mulheres dispostas a se atirarem aos ps dele? Agora ela sabia que isso 
era verdade.
       Um empregado se aproximou do secretrio e murmurou qualquer coisa. O secretrio dirigiu-se a Danielle e desculpou-se, dizendo que precisava sair para resolver 
um assunto importante.
       Danielle ficou sozinha e, observando os cavalarios prepararem a comida das guas, teve uma idia.
       - Zanaide! - chamou.
       A criada, que estava um pouco longe, fo at ela.
       - Sim, senhora?
       - Mande selarem uma gua para mim.
       - Aonde vai, senhora?
       - Quero passear at o osis.
       - Mas ele fica a alguns quilmetros daqui...
       Sei disso, Zanaide.
       - Pois no, senhora.
       Embora preocupada, ela no ousou discordar de Danielle e, dirigindo-se para um jovem cavalario, falou rapidamente em rabe. Momentos depois, o rapaz trouxe 
uma gua saltitante e elegante para Danielle, cujos olhos brilharam, esperanosos.
       - Diga-lhe que esta serve - ela ficou com Zanaide. - E avise que volto daqui a dez minutos.
       Em menos de dez minutos, Danielle vestiu suas calas de brim, surradas, e uma blusa de mangas compridas de tecido leve. No tinha idia de quanto precisaria 
cavalgar, mas com certeza iria alm do osis. No sabia a distncia entre o castelo e a cidade, mas no devia ser longa. Afinal, Jourdan no viveria num lugar to 
afastado, a ponto de interferir nos negcios.
       Lembrou que tinham sado da cidade pelo lado leste, e portanto, deveria tomar o lado oeste... Com mil pensamentos na cabecinha atarantada, Danielle voltou 
depressa para o ptio, onde o cavalario a esperava segurando a gua.
       - Vou com a senhora - ofereceu o rapaz.
       - No - respondeu, balanando a cabea. - Quero ir sozinha. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Danielle montou. Sabia  cavalgar bem, graas s aulas 
de equitao que teve quando era ainda uma adolescente apaixonada por pneis. Mas, por melhores que tivessem sido essas aulas, no estava preparada para uma gua 
como aquela. Agora entendia o que os rabes queriam dizer ao afirmar que seus cavalos eram velozes como o vento.
       A gua no resistia aos comandos de Danielle, para lev-la na direo do osis, o que a tranqilizava e estimulava a pr seu plano em prtica. Por um momento 
imaginou a reao de Jourdan ao dar pela ausncia dela. Quando isso acontecesse, j estaria segura na cidade e l exigiria que Jamaile permitisse sua volta para 
Londres.
       Apressou a gua ignorando uma voz dentro dela que a acusava de traioeira; de tola, e dizia que, com o tempo, Jourdan poderia vir a am-la. Por que ele a 
amaria?, perguntou-se. Apesar do sangue francs, ele era um oriental educado para possuir e dominar as mulheres... Insistir naquele casamento s a levaria  destruio! 
O osis estava deserto. Ela esperava encontrar pelo menos alguns membros de tribos nmades descansando  sombra das palmeiras.
       Passou o olhar pela estrada para se certificar de que tinha tomado o caminho correto. De repente a gua estancou, recusando-se a continuar. Danielle puxou 
as rdeas inutilmente.
       - Vamos, ande! O que voc tem?
       Insistiu alguns minutos, no querendo bater no animal que permanecia parado, as orelhas abanando a cada comando.
       Finalmente conseguiu fazer com que a gua prosseguisse. Tinha perdido muito tempo ali no osis e quando comeou a seguir pela trilha do areal, o sol pareceu 
descer com uma rapidez impressionante.
       Em breve seria noite e ela ficaria sozinha na vastido daquele deserto, sem esperana de encontrar outra coisa seno o vazio, a escurido.
       Um sentimento de pnico f-la engolir em seco, ao mesmo tempo que a gua dava a impresso de andar cada vez mais lentamente, como se estivesse cansada.
       As sombras da noite baixaram com rapidez, como se um manto negro e pontilhado de luzes prateadas tivesse sido atirado sobre o universo por mos gigantescas 
e implacveis.
       Danielle esfregou as mos nos braos para se esquentar, pois soprava uma brisa fria. Poderia ter se precavido contra o frio, pensou, mas na verdade quela 
hora imaginava ter alcanado a cidade ou algum vilarejo prximo do castelo. Olhou o relgio e constatou que j cavalgava h quatro horas! Por isso estava exausta 
daquele jeito!
       A noite escondeu definitivamente toda a paisagem. O alvio por estar fugindo deu lugar a um medo que lhe tomava o corpo todo to desconfortvel quanto a friagem 
do deserto. At a gua parecia insegura e amedrontada. As esperanas de Danielle desaparecera mais depressa que o dia. Seu plano de fuga tinha sido mal executado 
e precipitado; era apenas o resultado de um impulso momentneo. Agora via-se, sozinha no deserto, sem condio de se guiar naquela imensido.
       Lembrou das histrias de viajantes que se perdiam naquelas regieS inspitas, os dedos segurando com firmeza as rdeas enquanto o medo aumentava a cada instante. 
Um vento gelado e forte soprou fazendo-a estremecer. Ah, como tinha sido estpida em escapar sem considerar, todas as dificuldades, pensou, as lgrimas turvando 
a viso. Poderia morrer ali na vastido do deserto onde apenas a guia conseguia sobreviver.
       A gua tropeou e cambaleou. Danielle quase caiu da sela, os arreios querendo escapar-lhe das mos que maios sustentavam. No fundo do corao, sabia quem 
era a pessoa de quem necessitava naquele momento. O homem que lhe devolveria a confiana e afastaria o medo com sua simples presena. Jourdan!, suspirou, estremecendo 
inteira. Que ironia ela chamar por ele! O mesmo homem que a protegeria do frio, que a salvaria da solido daquele lugar desconhecido, tinha motivado sua fuga... 
seu marido! As orelhas da gua moveram-se num sinal de alerta e o animal estancou. DanielIe firmou a vista e olhou para dentro da escurido, mas no via nada. Ao 
imaginar que poderia estar cercada de cobras e escorpies, encolheu o corpo e sentiu um frio subir pela espinha.
       Quando decidiu que precisaria descer e conduzir a gua pelas rdeas, o animal voltou a andar, hesitando a princpio, depois com segurana ao ouvir a voz de 
Danielle. Pouco depois, ela resolveu no mais comandar o animal, deixando seguir seus instintos quanto  direo a tomar.
       No fazia idia de onde poderiam estar ou para onde iam. No cu, bem no alto, erguia-se a lua com sua luz prateada e fria, que iluminava o areal, transformando 
as dunas num imenso mar branco e infinito.
       Cansada, quase esgotada, Danielle fazia o possvel para manter o equilbrio sobre a sela. O relgio tinha parado, mas sem dvida estava viajando h bem mais 
de seis horas. Pela primeira vez, tentou relaxar um pouco e pensou nas pessoas do castelo, que quela altura estariam preocupadas com seu desaparecimento. Interrogariam 
o cavalario, mas ele no teria nenhuma informao a dar-lhes a no ser que ela havia sado para um passeio at o osis.
       Danielle lembrou do grupo de resgate da criana que tinha se perdido, mas agora Jourdan nem sequer encontrava-se no castelo para organizar uma expedio de 
busca. O secretrio no o avisaria?
       Estremeceu ao imaginar a reao de Jourdan. Ficaria preocupado?
       Mas que razes teria para isso? O casamento deles baseava-se apenas numa necessidade j satisfeita. Caso morresse, dificilmente o padrasto culparia o marido 
dela. Afinal de contas, ele estava distante e no pde evitar a fuga.
       Os msculos adormecidos e o netvosismo, combinados com o movimento montono da gua, faziam Danielle fechar os olhos e adormecer, para em seguida despertar 
sobressaltada. Aos poucos, porm, j no conseguia resistir ao sono que a arrastava para o torpor. Com os olhos fechados, mas ainda consciente, parecia penetrar 
num mundo de sonho onde tudo ficava desfocado e vago, o que dava um certo conforto ao corpo e ao esprito.
       Quando alcanou o osis, suas plpebras estavam fechadas, o corpo delgado debruado sobre o pescoo do animal. A gua continuava avanando, bufando levemente 
e arqueando o pescoo, como se quisesse chamar-lhe a ateno para o ambiente. Danielle permanecia adormecida.
       Mas de alguma maneira o inconsciente dela foi alertado para uma sombra em meio  escurido. Abriu os olhos de repente, os sentdos de prontido. As rdeas 
haviam escorregado de suas mos e arrastavam-se na areia. O olhar de Danielle percorreu o osis para descobrir o que a tinha despertado. No viu nada, mas sentia 
que no estava sozinha...
       A gua parecia querer empinar, cavalgando com nervosismo, esperando ordens de Daniel1e. Mas ela, dominada pelo medo, no pde control-la, desmontando imediatamente 
ao reconhecer o lugar. Estava num osis prximo do castelo! Sentia-se aliviada por ter chegado at ali, mas ao mesmo tempo alarmada com a presena de um vulto que 
parecia avanar para ela, saindo da escurido. Sentiu vontade de gritar, desesperada pelo ato impensado que no havia dado certo e por causa do cansao da gua! 
O vulto usava tr~jes de montaria, o manto' negro e pesado agitando-se  medida que soprava uma brisa gelada. A gua correu prontamente na direo dele.
       Com os nrvos  flor da pele, Danielle finalmente reconheceu as feies daquele homem. Entendia agora por que a gua tinha se aproximado dele to depressa!
       - Jourdan... pensei que no estivesse no castelo. - Ele continuou em silncio, acariciando o pescoo da gua. - Como foi que...
       Interrompeu-se, imaginando o quanto os dois eram tolos, e imaturos.
       Jourdan devia pensar assim tambm, disse para si mesma, observando-lhe as linhas endurecidas da boca, o olhar frio fixo no seu rosto.
       - Como foi que a encontrei? - completou ele. - Achei que Zara tivesse a cabea no lugar, porque voc no tem, naturalmente.
       Ela voltou para c por causa da gua... sem o faro esses animais morreriam no deserto.
       Danielle ficou atnita, sem saber o que dizer.
       - Quer dizer que a nossa vida ser assim, mignonne? - Jourdan continuou. - Toda vez que eu lhe voltar as costas tentar fugir de mim?
       - No sou propriedade sua, Jourdan - Danielle replicou. - Voc me enganou, forou-me a um casamento que eu no queria.
       Como pode me culpar por tentar fugir?
       - Fugir do qu? Por que tudo isso? Voc tem coragem de negar que no casamento que tanto repudia viveu momentos de incrvel prazer? Um prazer que no conhecia 
at ento?
       Ela nada respondeu, mas deixou-se trair, o rosto ardendo ao reconhecer a verdade que ele acabava de dizer. Jourdan sabia quais eram seus pontos fracos e como 
manipul-los! Era absurdo tentar convencer-se de que o odiava; era mais absurdo ainda lutar contra o destino que os tinha aproximado e unido. Pela primeira vez desejou 
ter aquela postura de submisso prpria das moas rabes, aquela capacidade de sorrir e dizer com doura:  a vontade de Al!
       - Venha comigo... voc est dormindo em p - Jourdan falou com rispidez, uma das mos segurando-lhe o brao e a outra, as rdeas do animal. Danielle esperava 
que ele a levasse at um jipe, ou coisa assim, mas para sua surpresa Jourdan a conduziu at umas palmeiras, onde o cavalo dele estava apeado.
       Zara relinchou de contentamento e Jourdan sorriu pela primeira vez.
       - Est vendo, ma petite? Zara no  como voc. Ficou felicssima com a presena de seu companheiro!
       - Pare com isso, Jourdan!
       - No seja ingrata! No vai me agradecer por resgat-la?
       - Eu no estava perdida. Voc  que pensou isso. Deve ter se divertido muito imaginando meus medos, sabendo o tempo todo que Zara iria me trazer de volta.
       - E por acaso voc se preocupou com as pessoas que deixou por aqui? Zanaide ficou fora de si, o cavalario que selou a gua no sabia o que fazer, andando 
de um lado para o outro desnorteado... Compreendo que queria me humilhar, e que no poupou esforos para conseguir seu intento. Mas Zanaide e o rapaz...
       O olhar de Jourdan feriu-a mais que qualquer palavra de desdm.
       Por um momento Danielle quis dizer a ele o quanto estava errado.
       Ela nunca tinha pensado em humilh-lo...
       - Voc est cansada - repetiu ele com firmeza. - Zanaide  uma criatura muito bondosa e pediu-me para no castig-la pelo que fez...
       - Castigar-me?
       - Sim... mas no vejo necessidade...
       - No?
       - Voc v?
       Danielle balanou a cabea negativamente, sem responder.
       Jourdan tinha toda a razo, refletiu. O fato de perder-se no deserto tinha sido o maior castigo que poderia receber!
       - Esta noite voc no volta para o castelo... - Ele decidiu.
       - Mas precisamos voltar.
       -  melhor ficarmos aqui no osis, por dois motivos: voc e Zara descansaro para recobrarem as foras, e meus criados tero todas as razes para acharem 
que a puni de acordo com os direitos dos homens rabes. - Danielle arregalou os olhos. - Naturalmente voc no vai concordar comigo, mas as mulheres ficam uma seda 
depois que levam uma boa surra de seus maridos...
       Ela recUou, receando que ele lhe pusesse a mo.
       - No tenha medo - ele disse, sorrindo. - Nunca bati numa mulher at hoje. Mas voc me provocou tanto, que bem merecia isso...
       - Existem outras maneiras de punio entre um homem e uma mulher... - Danielle sussurrou, quase sem foras para falar. Mas ele a escutou com clareza e segurou-lhe 
os braos, apertando-os com amargura. Em vez de sacudi-la com violncia, como pareceu querer fazer, soltou-a e voltou-se para a gua, agarrando firme nas rdeas.
       Jourdan estendeu um saco de dormir sobre a areia, debaixo das palmeiras, enquanto ela o observava distrada.
       - Lamento, Danielle - ele murmurou com frieza -, mas vamos ter de dormir juntos...
       Essas palavras cortaram o devaneio de Danielle, que ainda n, tinha pensado sobre a angstia que seria passar toda uma noite e estreita intimidade com Jourdan.
       - Tem certeza que no d para voltarmos ao castelo? Faltam apenas alguns poutos quilmetros e, alm disso, gostatia de tomar
       um banho... Estou suja de areia dos ps  cabea...
       - Se  um banho que quer, posso providenciar um. - Ele apontou o osis. - No precisa ter medo, porque estamos absolutamente
       sozinhos.
       Mas ento ele no percebe que  por isso mesmo que estou tom medo? Danielle se perguntou, passando a lngua pelos lbios ressequidos, sem notar o olhar provocativo 
de Jourdan.
       - No, no... deixe pra l...
       Joutdan riu e insistiu.
       - Por que est com medo?
       - Medo? Eu?
       - Se quer saber, a mera viso de seu corpo nu, envolto na escurido, no me levar a fazer nenhuma loucura...
       - Isso nem me passou pela cabea...
       - Tem muito que aprender sobre os homens, mignonne. Nada acaba com o desejo de um homem to depressa quanto a indiferena de uma mulher...
       Envergonhada, Danielle desviou o olhar. No havia necessidade de Jourdan sugerir que tinham feito amor simplesmente para confirmar que aquele casamento no 
podia ser ignorado... Ela sabia, e muito bem, assim como sentia que bastava olh-lo para seu corao disparar, para o corpo estremecer de desejo, a ponto de mal 
poder respirar...
       - V ver como a gua do osis  quente - ele continuou, com calma. - Vim para c pensando em nadar, por isso trouxe uma toalha... que lhe ofereo...
       Nadar! Danielle arriscou um olhar para o corpo atltico do marido, que a encarava com insistncia. Ento ele tinha o hbito de ir sempre ao osis nadar?
       - DanielIe, pare com esse medo! - ele brincou. Ela baixou o olhar, corando. - Fique tranqila porque nem vou chegar perto...-
       Confesso. que, em circunstncias diferentes, no h nada mais excitante que o toque da gua na pele nua, ou fazer amor debaixo de um cu estrelado em meio 
ao deserto e no silncio da noite.  como se encontrssemos o Paraso aqui na Terra.
       Atnita com as palavras dele, Danielle desviou o olhar para o osis, passando a mo na pele para tirar os pequeninos gros de areia.
       Disfaradamente, deu um sorrizinho baixando o rosto.
       De repente sentiu o desejo de entrar na gua, como que para comprovar a afirmao de Jourdan... Ele afastou-se dela para acender uma fogueira com folhagens 
secas e gravetos, que provavelmente tinha trazido consigo.
       - Sabe, Danelle, pareceu-me mais sensato esperar por voc e Zara em vez de ir ao seu encalo - Jourdan falou de repente.- O deserto  muito vasto e eu tinha 
certeza de que, cedo ou tarde, nossa boa gua a traria at aqui.
       Jourdan lanou um olhar para o fogo que comeava a se avivar e estendeu os braos.
       - EstamOs num lugar um tanto primitivo,  verdade, mas apesar disso esse nosso cantinho me parece confortvel... Os homens buscam um pouco de conforto at 
mesmo no deserto, e o fogo  o que h de melhor para se aquecerem. - Olhou-a bem nos olhos, suspirou e continuou: - Depois que se banhar, tomaremos caf e comeremos 
alguma coisa.
       - Sabe, quando eu era menino passei muitas noites aqui e em outras partes menos agradveis do deserto... - Jourdan contou. - Meu tio, xeque Hassan,  um sbio, 
como poucos! Trazia-me para conviver com os membros de algumas tribos durante as frias da escola pblica da Inglaterra. Ento pude aprender com eles o que nenhum 
livro, nenhuma escola conseguiria me ensinar. No comeo, via tudo como um menino maravilhado, mas  medida que fui crescendo, compreendi a liberdade que a vida nmade 
oferecia, percebi sua pobreza e seus perigos. Finalmente conheci bem nossa gente, pois esses homens do deserto tambm pertencem a Qu'Har, e tm a mesma importncia 
daqueles que enriqueceram a regio com a produo do perrleo e com a tecnologia moderna... Esses homens, DanieUe, no exigem nada da vida, e esperam conservar apenas 
o direito de viver. Dinheiro, posio, propriedades... nada disso tem o peso da liberdade adquirida por eles...
       Danielle ouviu-o com ateno, surpresa por v-lo falar to longa e descontraidamente. Ser que Jourdan no invejava a vida daqueles homens do deserto, perguntou-se, 
j que no tinham responsabilidade de espcie alguma, a no ser pelas suas prprias vidas?
       Conversando com Zanaide, j havia aprendido muitas coisas que no sabia. Sem Jourdan, sua energia e sabedoria, o pas se dividiria e ficaria  merc da inveja, 
da cobia, das rivalidades destrutivas. Agora compreendia a extenso e importncia para Jourdan daquele casamento realizado s pressas, para garantir sua permanncia 
naquele lugar. Ela fora egosta ao desprezar os nobres intentos do marido!
       Talvez devesse dizer a ele tudo o que pensava, como encarava, aquela situao, naquela cultura que pouco tinha a ver com a su. S assim, quem sabe, conseguisse 
partir livre e com o consentimento dele! Afinal, Jourdan no era um homem cruel! Estava certa de suas boas intenes e de seus sentimentos.
       Mas aquele no era o momento propcio para uma conversa desse tipo, ponderou. No dia seguinte talvez criasse coragem e ento deixaria claro o que sentia em 
meio a toda confuso. Alm disso, estava abatida pelo cansao, perturbada at a alma com aquela presena masculina, desejando, no ntimo, ser abraada, beijada, 
amada, possuda com avidez, o que anularia qualquer vontade se ver livre de novo. 
        Suspirou e interrompeu o fluxo de pensamentos que comeava a se misturar com sentimentos que temia. Foi caminhando devagar em direo ao osis e parou. Voltou-se 
e viu que Jourdan continuava ocupado com o fogo, aparentemente ignorando sua presena.
       Finalmente decidiu tirar as roupas, sacudindo a areia. Sem esperar mais nenhum minuto, entrou na gua.
       Como Jourdan tinha dito, a gua estava morna e parecia acariciarlhe a pele delicada. Relaxou o corpo e, boiando, ficou a contemplar as estrelas trmulas contra 
o negro infinito do cu.
       No dia seguinte seria obrigada a admitir que Jourdan no a amava de verdade, porm naquela noite... naquela noite no hesitaria em acreditar no amor que poderia 
ultrapassar o mero desejo carnal...
       No se importaria com o fingimento, com a mentira...
       Foi ento que sentiu um toque leve nos ombros. S podia ser Jourdan, pensou, que no cumpria com a palavra de no chegar perto.
       Mas quando se voltou constatou que continuava sozinha e, no entanto, ainda sentia o mesmo toque, agora nas pernas e coxas.
       Arrepiou-se de medo e gritou, cortando o silncio da noite.
       Jourdan correu para socorr-la e viu-a em pnico.
       - O que , Danielle?
       - Alguma coisa... est se colando ao meu corpo, jourdan!
       - O qu?
       - No sei, parece que est em toda parte...
       Jourdan entrou na gua e segurou-lhe os braos trmulos.
       - Calminha...
       - Estou com medo!
       - Estique o corpo e bie outra vez!
       Ela obedeceu, enquanto ele deslizava as mos pelo corpo dela, por baixo da gua.
       - Jourdan! Est a! Estou sentindo!
       - No se preocupe - disse, tranqilo, erguendo as mos.- V?  s um pedao de erva daninha...
       - Est brincando!
       Deve ter se enroscado noS seus ps, quando voc entrou na gua.
       - No sou mesmo uma boba? - Ele sorriu, compreensivo. - Desculpe, sim?
       Danielle tentou se desvencilhar das mos de Jourdan, mas, para seu espanto, ele no a soltava.
       - Jourdan...
       Ele a abraou e Danielle, quando percebeu, estava sobre ele.
       - Sim? Eu a desculpo, no se preocupe...
       - Deixe-me tomar banho...
       - Sabe o que estou pensando neste exato instante?
       - No...
       - Que de fato nosso casamento  a vontade de Al, no apenas resultado da minha vontade pessoal...
       - Por que est dizendo isso? Como sabe?
       - Porque a todo momento ele no perde a oportunidade de me mostrar que seu corpo  de uma perfeiao estonteante. Como agora... mergulhado nesta gua iluminada 
pelo luar, tremendo entre minhas mos. No sente o mesmo que estou sentindo?
       Ela sentia, e por isso tremia daquele jeito, o corpo solicitando desesperadamente ser tomado e envolvido pelo dele. Ah, como queria ser possuda!
       Sem perda de tempo, os braos dele se fecharam em torno dela.
       Os lbios de Danielle se abriram para corresponder ao beijo, vagarosa e intensamente, como se ambos penetrassem num universo que h muito queria explorar. 
O tempo parecia ter parado. Danielle no tinha noo de nada, a no ser de Jourdan. Como um choque rpido, sentiu a areia macia sob os ps, mas Jourdan ainda a suspendia 
nos braoS e comeava a lev-la para junto da fogueira, que agora ardia como seus corpos.
       Ele a deitou com cuidado as gotas de gua escorrendo rpidas pelo corpo molhado e avermelhado pela luz do fogo. Sem se conter, Danielle olhou bem as linhas 
esculturais do corpo dele, com a respirao ofegante, num misto de medo e de desejo. Ele parecia uma escultura grega. Ombros largos, tronco musculoso, ainda masi 
sensual porque estava molhado, com gotas d'gua descendo velozes como setas e riscando desenhos variados na pele bronzeada. As coxas vigorosas tocavam-na enquanto 
Jourdanse debruava sobre ela, decidido a no abandon-la.
       Danielle o acariciou com mos tensas e nervosas, fazendo com que ele tambm a tocasse e juntassem os corpos frementes de desejo. Os lbios dele exploravam-lhe 
com doura as linhas do rosto. Os olhos dela suplicavam-lhe que a beijasse, que apagasse o menor sinal de razo, de medo; imploravam-lhe que no a deixasse escapar; 
que lhe desse uns breves momentos de felicidade amarga e doce ao mesmo tempo!
       Como se o toque dos lbios dele lhe tirassem todas as foras para resistir, Daniel1e respondeu com abandono apaixonado e reconheceu em Jourdan os ecos da 
mesma urgncia. Ele sussurrou algumas palavras em francs como num gemido, enquanto aquecida pelo corpo potente, ela sentiu-se derreter sob a presso dos msculos 
inquietos.
       Ofegantes, seus corpos falavam uma linguagem primitiva, so compreensvel pelos sentidos.
       Jourdan acariciou-lhe os seios, beijou-os, sondando-os demoradamente, enquanto Danielle agarrando-lhe a cabea com as mos, gemia febril como que exigindo 
a fuso dos corpos. De vez em quando chegavam-lhe as palavras distantes de Jourdan, palavras que se misturavam a grunhidos e estremecimentos. Ela no estava apta 
para entender nada; ansiosa, deslizava as mos pelos ombros tensos, os sentidos incendiados pelas carcias interminveis e crescentes que ele lhe fazia nos quadris, 
as coxas entrelaadas como se nada pudesse det-los ou separ-los!
       Danielle exultava de contentamento ao descobrir que at mesmo um homem como Jourdan podia se render s suas carcias. E seu prprio corpo tambm parecia gritar, 
desmanchar-se a cada beijo dele.
       Ento suas pernas se abriram para receb-lo, numa urgncia to grande que s os excitava mais e mais.
       Num gemido, abraaram-se com fora, as peles midas de suor, os lbios unidos num beijo devastador. A partir de ento Danielle perdeu toda a noo de equilbrio, 
toda a noo de limites! Ambos explodiram juntos num prazer incontrolvel e selvagem, cedendo a uma fora natural que os fazia esquecer do resto do mundo!
       Como um mar que se acalma aps uma tempestade, permaneceram abraados, quietos e calados por alguns minutos, apenas sentindo-se plenos no paraso terrestre.
       - Quanta paixo escondida debaixo daquela capa de indiferena - Jourdan murmurou, a boca entre os cabelos molhados dela, os dedos acariciando-lhe os lbios.
       Ela entreabriu a boca e fez meno de dizer alguma coisa.
       - No, no... no diga que no sentiu prazer algum, no diga que me odeia - continuou ele. - No minta, Danielle... Seja sincera e admita a alegria que demos 
aos nossos corpos, o prazer que nossos corpos nos deram. Confesso que nunca vi tanta sensualidade em nenhuma outra mulher...
       Deslizou a mo pelas pernas delgadas e relaxadas, at descansar sobre a coxa dela. Danielle compreendeu, sem que Jourdan precisasse dizer, que o desejo dele 
ainda no tinha sido aplacado. Algo dentro dela concordou com essa descoberta e os corpos se aproximaram novamente.
       Sensualidade, Danielle repetiu para si mesma. Ento ele achava que ela dava importncia to somente ao prazer? Ele no percebia os seus verdadeiros sentimentos? 
Como era possvel pensar que ela havia agido movida apenas pela paixo?
       Jourdan puxou-a para si, murmurando palavras carinhosas nos ouvidos dela e procurando-lhe os lbios. Mais uma vez o corpo de Danielle estava trmulo, a pele 
eriada, sensualmente iluminada pela luz do fogo.
       - Olhe s o que est fazendo comigo, mgnonne... - Abraou-a to fortemente que Danielle sentiu o tremor do corpo dele, o corao batendo acelerado, os msculos 
tensos. - Por esta noite vamos esquecer as razes que nos levaram ao casamento... Tentemos viver estes momentos, atentos apenas  vontade de nossos corpos...
       DanielIe sentiu-o vibrar mais uma vez, sentiu a fraqueza que a obrigava a se entregar, sentiu o amor que parecia transbordar do prprio corao. Como um suspiro, 
abandonou toda cautela, toda mgoa.
       Deu-se inteira aos apelos que nunca mais podiam ser negados e disse para si mesma que, fosse qual fosse o futuro, ao menos teria vivido aqueles momentos em 
toda a sua plenitude.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO X
       
       Danielle acordou nos braos de Jourdan. Antes de fazer qualque movimento, ele abriu os olhos e ela sentiu por um instante, que seu amor no era ignorado.
       - Bom dia - Jourdan disse, beijando-a com carinho no rosto.
       - Bom dia - respondeu, com ternura.
       - Nosso casamento comeou ontem  noite - ele falou, par surpresa dela. - No h mais por que fugir, chrie...
       No fundo do seu ser, Danielle sabia que no poderia fugir nunca mais quela verdade. Jourdan era seu marido, desejava-a, e bastava aceitar isso. O que tinham 
experimentado juntos ultrapassava todas as aventuras de Jourdan.
       - Vamos levantar? Temos de chegar ao castelo antes que meus sditos se organizem e saiam  nossa procura. Seria um vexame se descobrissem a maneira como puni 
minha esposa rebelde...
       Danielle sorriu com meiguice, concordando com a sugesto marota de Jourdan.
       - J imaginou? Nunca mais teriam confiana em mim e me considerariam um lder indigno desse nome - ele brincou. - E culpariam exclusivamente voc, que me 
roubou toda a energia... C para ns, eles estariam com toda a razo.
       Antes que ela pudesse responder, Jourdan levantou-se e foi at o osis, o sol cintilando na pele bronzeada.
       Voltou meia hora depois e agachou-se ao lado de Danielle, que continuava deitada no saco de dormir. Fitou-o com uma expresso de paz absoluta e viu o sorriso 
nascer nos lbios dele.
       - Vamos, preguiosa, de p! - Ela no se moveu, acompanhando o olhar rpido dele sobre seu corpo. - Voc assim est uma viso tentadora! Prefere que eu volte 
a me deitar?
       Com o corao disparado, Danielle obedeceu-o, deixando o saco de dormir. Qual teria sido a reao dele, se no o tivesse acatado?, perguntou-se. Uma mistura 
de dor e prazer percorreu-lhe o corpo ao se lembrar dos bons momentos que tinham vivido juntos, mas Jourdan j no lhe dava ateno, preocupado em desmanchar os 
vestgios da fogueira da noite passada.
       Restava-lhe ficar sozinha com suas lembranas, enquanto se lavava nas guas do osis.
       Quando voltou, Jourdan estendeu-lhe uma caneca de caf, ainda quente, da garrafa trmica que tinha trazido consigo, e beberam em silncio. A angstia que 
assombrava Danielle desde o primeiro dia do casamento ia desaparecendo  medida que comeava a viver despreocupada o calor da manh, e reconhecia o prazer da companhia 
do marido.
       Esse momento de comunicao silenciosa e confortadora durou pouco. To logo terminou de beber o caf, Jourdan se afastou e foi at o lugar onde estavam os 
animais. Danielle ouviu-o saud-los e escutou um relinchar de contentamento, como se pudessem compreender a linguagem humana. Concluiu que, assim como a vida do 
palcio crescia e se desenvolvia em torno daquele homem capaz de se entender com todas as formas de natureza, sem ele a partir dali sua existncia dificilmente teria 
sentido.
       
       
       A volta foi lenta, Jourdan chamando a ateno de Danielle para alguns lugares por onde passavam, mostrando-lhe a antiga rota do comrcio usada pelas caravanas 
que vendiam seda e que iam da China  Prsia. Danielle ouvia-o com interesse, ansiosa por no desperdiar os poucos momentos que teriam juntos naquela regio.
       A hostilidade que havia entre os dois parecia ter desaparecido no calor de suas paixes, e se o tipo de relacionamento que mantinham naquele instante no 
era o ideal, Danielle o preferia mil vezes  raiva e  indiferena. Quando chegaram perto do castelo, Danielle pressentiu que a felicidade, muito frgil, estava 
evaporando. Jourdan era um homem de srias responsabilidades, e ela, como mulher de um rabe importante, deveria colocar-se ao lado, partilhando dos momentos tristes 
e alegrias da vida dele.
       Por alguns instantes, quis voltar atrs no tempo; desejou que pudes sem perpetuar os momentos mgicos daquela manh; ansiou pela inexistncia de deveres, 
obrigaes ou responsabilidades que os separassem.
       Mas estava pensando como uma adolescente novamente, refletiu, enquanto Zara andava com lentido. Jourdan, percebendo isso, viu-se forado a parar e esperar 
que ela o alcanasse.
       Tanto o cavalo quanto o homem esbelto e decidido que o montava pareciam demonstrar respeito pela sua natureza feminina, Danielle, pensou, pois sem dvida, 
se no estivesse ali, Jourdan estaria galopando livre e selvagem.
       O castelo projetava sombras enormes sobre o deserto. O corao de Danielle batia forte e uma lgrima pareceu querer saltar dos olhos entristecidos. No conseguia 
se livrar das boas lembranas. Naquela noite tinha estado pela primeira vez nos braos de seu marido. Lamentava terem de voltar, porque sabia que ele tambm voltaria 
para a vida rgida do castelo e s quando se lembrasse da existncia dela lhe faria uma visita.
       A corrente de pensamentos se intensificava  medida que se aproximavam do castelo. Algum os observava h algum tempo, porque, ao chegarem, os portes foram 
abertos com rapidez.
       No ptio externo, ela viu um jipe todo empoeirado. A expresso de estranhamento de Jourdan veio reforar os pressentimentos amargos de Danielle. A mgica 
daqueles momentos no deserto no era forte o suficiente para unir os espaos que se abriam entre eles.
       Decidida a no deix-lo perceber a angstia que queria domin-la, entrou no ptio forando um sorriso. Mas l, no fundo do corao uma dor quase lhe rasgava 
o peito.
       Quando viu Zanaide correndo ao seu encontro, sentiu uma sensao de culpa por ter lhe causado tanta preocupao. Mas esqueceu um pouco de Zanaide quando, 
de repente, dois braos pegaram-na pela cintura para ajud-la a descer.
       Nisso, ouviu a voz familiar de Philippe Sancerre.
       - Danielle, petite, que histria  essa de casamento? Se queria um marido, por que no me esperou?
       Sem tempo de esboar uma reao, Philippe beijou-a na boca, maldade estampada nos olhos.
       Jourdan aproximou-se dos dois, o olhar frio, fixado em Philippe.
       - Isso  privilgio de um velho amigo, mon ami - continuou o francs. - E aposto que voc no censuraria este tipo de gesto carinhoso. Mesmo porque, tem de 
admitir que roubou essa jia bem debaixo do meu nariz!
       Embora falasse com suavidade, Danielle sentiu que por trs daquelas palavras Philippe alimentava um ressentimento em relao  Jourdan, que, naquele momento, 
a olhava com frieza, quase fazendo-a desejar voltar imediatamente para a solido e quietude do deserto.
       Oh, no!, exclamou para si mesma. Philippe no significava nada para ela. Apenas Jourdan era capaz de dar vida ao seu corao! Mas, sem dizer nada, ele lhe 
dava as costas e se afastava.
       Philippe ainda a segurava, apertando-lhe os braos, impedindo-a de ir atrs do marido.
       Depois de passar umas instrues ao secretrio que o aguardava, Jourdan voltou-se para Philippe, o rosto endurecido.
       - A que devo a honra da sua visita, Philippe? Sei que. o deserto nunca esteve entre as suas paixes!
       - Tem toda razo, Jourdan. O deserto, no. Mas  diferente, quando se trata de sua bela mulher... digo, esposa...
       Danielle corou. Olhou rapidamente para Jourdan, imaginando o que estaria pensando a respeito da sugesto de que ela e Philippe tinham sido amantes.
       - Mas no vim a Qu'Har por vontade prpria - explicou Philippe. - Catherine me deu a sugesto. Ela achou que voc no se irritaria com a presena dela aqui. 
Ah! Claro! no estvamos sabendo do casamento - acrescentou, lanando um olhar para Danielle. - Foi uma deciso repentina, pelo que vejo. No  mesmo, ma petite? 
Ou simplesmente foi mais fcil ceder  presso de seus pais? Pelo que sei, Hassan, seu padrasto, tem um grande poder de persuaso!
       Fez uma pausa e o silncio caiu sobre eles, enquanto trocavam olhares fulminantes.
       - Jourdan, voc  um homem de muita sorte - Philippe completou. - Arranjou uma esposa rica e bela... Seu tio soube fazer a escolha certa!
       Philippe tomou a mo de Danielle num gesto mais ntimo do que a relao entre eles permitia.
       - Coitadinha - murmurou com suavidade, mas suficientemente alto para que Jourdan o ouvisse. - Vendida para o matrimnio como uma escrava em exposio no mercado! 
Agora me arrependo de no ter aceito o que voc me ofereceu generosamente na ltima vez em que estivemos juntos. Deveria ter ouvido mais seus sentimentos e menos 
a voz da cautela. Poderia no ter dado tanta importncia a fato da minha famlia ter dependido de seu padrasto. Hoje eu seria seu marido. Ah, ali vem minha irm 
- acrescentou, antes que Danielle tivesse tempo de negar as insinuaes odiosas.
       Danielle no ousou olhar mais para Jourdan. Que estaria pensando?
       S podia haver uma interpretao daquelas palavras calculadas, ditas  queima-roupa por Philippe. Mesmo que as ignorasse, jamais teria condies de convencer 
Jourdan de que se tratava de mentiras; jamais conseguiria explicar que ela e Philippe no foram amantes. Como aquele homem era esperto, pensou com amargura. Se ao 
menos no a tivesse comprometido daquela forma, se se contentasse em apenas expressar o prprio desejo de ser amante dela, Jourdan com certeza no acreditaria em 
nada. Mas esforava-se por contaminar o esprito de seu marido, procurando semear o desentendimento entre eles, fazendo-o crer que estava com uma mulher sedenta, 
capaz de entregar-se ao menor aceno de um homem.
       Magoada e ferida, dirigiu-se a Jourdan e parou, plida e espantada com o que viu: uma mulher de cabelos escuros abraava-o e o beijava.
       - Catherine adora Jourdan - disse Philippe. - Sabe, chrie, minha famlia no vai gostar de saber que voc est casada com ele.
       Mame e Catherine tinham a esperana de que ela se tornasse a esposa dele.
       - Catherine? - Danielle obserVou a mulher, que continuava abraando Jourdan, os lbios colados nos dele. - Mas... Pensei que sua me havia dito que Catherine 
ainda no estava preparada para o casamento...
       Danielle mordeu os lbios ao se lembrar, em detalhes, do que madame Sancerre tinha falado a respeito da filha. Seria mesmo impossvel que ela no se adaptasse 
quela vida como esposa de Jourdan?
       - No estava preparada para nenhum casamento - concordou Philippe -, mas a unio com Jourdan  outra coisa, no , ma chrie? 
       Olhou fixamente para o rosto plido de Danielle, que no soube como se defender.
       Catherine tinha insistido para que ele a levasse at Qu'Har, na esperana de que perto de Jourdan surgisse uma oportunidade de maior aproximao entre eles. 
Isso acontecendo, Philippe seria recompensado de alguma forma. At aquele momento no tinha desistido da idia de casar com Danielle, o que, inevitavelmente, ficaria 
para o futuro. No momento, porm, precisava de dinheiro, j que estava endividado por causa dos jogos. Jourdan, na verdade, estava casado, mas se Catherine insistisse, 
e tivesse sorte, poderia conquist-lo. E parecia bvio que no pouparia esforos para isso...
       Philippe havia dito a Catherine que era tolice pensar que conquistaria Jourdan apenas pela atrao fsica, mas no pde faz-la voltar atrs. Ela, por sua 
vez, lembrou ao irmo que eles pertenciam a uma famlia tradicional e importante e que tinha recursos que poderiam ser usados para fazer Jourdan tomar conhecimento 
dela. A partir disso, no precisavam mais se explicar. Irm e irmo compreenderam-se perfeitamente, e Philippe tambm estava ciente de que a me deles, embora no 
aprovasse a conduta de Catherine, ignorava quaisquer deslealdades que visassem a um casamento vantajosO.
       Quando Philippe perguntou a Catherine como faria para viver debaixo das normas e restries da vida de Qu'Har, ela riu gostosamente. Segundo ela, no tinha 
inteno de morar num lugar como aquele. Afinal de contas, Jourdan tambm era francs. Era evidente que se mudariam para Paris!
       Philippe pensava tudo isso naquele momento, enquanto observava a irm de olhos fixos em Jourdan, os lbios entreabertos com sensualidade. Olhou ento para 
Danielle e comprendeu o que ela estava sentindo. Mas ento aquela bobinha tinha se apaixonado pelo marido arrogante? Tanto melhor! Todo mundo sabe que as pessoas 
apaixonadas esto sempre dispostas a fazer grandes sacrifcios em nome do objeto de seu afeto. A partir da, comeou a arquitetar um plano...
       Quem sabe a vinda a Qu'Har no se revelaria mais frutfera do que tinha imaginado? Olhou para Jourdan, recordando que haviam sido colegas de escola, lembrando 
da rivalidade que existia entre ambos e da superioridade de Jourdan em vrias reas do conhecimento. Que prazer conseguir arrancar dele o trofu que ele exibia com 
tanta glria!
       O casamento de Danielle e Jourdan, que significou, a princpio, a frustrao de todos os seus desejos e de sua irm em relao a um futuro tranqilo, poderia, 
ainda ser destrudo pela ambio de ambos.
       E depois, o casalzinho recm-unido, ao se separar, precisaria de ombros amigos onde pudesse curar as dores de um consrcio mal sucedido. Os pensamentos de 
Philippe se revelavam maquiavlicos.
       Sorrindo, puxou a mo de Danielle e f-la voltar-se para Jourdan e Catherine.
       - Est vendo s, Danielle? atherine est apaixonada pelo seu marido. De fato...
       Parou de falar de repente, como se no tivesse muita certeza de continuar. Mas Danielle sentia uma presso to grande no corao que nada mais poderia mago-la. 
Philippe, como lendo os pensamentos dela, decidiu prosseguir:
       - De fato meus pais e eu acreditamos que ele despertou nela os sentimentos que pareciam adormecidos h tanto tempo, do contrrio no permitiriam que ela viajasse 
para to longe. Eles acham que Jourdan e Catherine podero se dar muito bem, como constataram em Paris na ltima vez em que ele esteve por l, Jourdan no falou 
com papai, mas Catherine no tinha dvidas sobre o que sentia, e quando finalmente foi convidada para vir at aqui...
       - Jourdan convidou vocs?
       Danielle olhou firme para Philippe. Incomodado, ele deu de ombros.
       - DanielIe, voc acha que minha irm viria at aqui sem convidada? Com o canto dos olhos, Danielle viu Catherine afastar-se dos braos de Jourdan. Ainda segurando 
a mo dele, como se aquele contato lhe desse mais foras, ela dirigiu-se a Danielle, desculpando-se.
       - Sabe, Danielle, eu e Jourdan... - No pde continuar. Mas no era preciso: atravs dos olhos da moa, Danielle entendeu o que queria dizer. Um calafrio 
lhe percorreu a espinha, o medo a fez suar frio. Ento, Catherine Sancerre amava Jourdan. Ele a havia convidado a ir at Qu'Rar, mesmo sabendo que estavam casadoS? 
Mas claro, pensou Danielle. No  a mim que ele ama. Jourdan ama Catherine!
       Muito bem! Nesse caso ele jamais desconfiar dos meus verdadeiros sentimentos! Abriu um sorriso fingindo que aquilo no significava absolutamente nada e estendeu 
a mo para tocar o brao de Philippe.
       Imitava Catherine, como se amasse Philippe h muito tempo e tivesse chegado o momento oportuno de demonstrar isso.
       - No precisa se desculpar, Catherine - disse com alegria fingida.- Na verdade acho maravilhoso ter vocs dois aqui conosco...
       Catherine gargalhou, quebrando o silncio repentino.
       - Oh, Jourdan, sua esposa no  nada romntica! Confesso que, se fosse recm-casada com voc no iria permitir a presena de ningum ao nosso lado...
       - DanielIe  inglesa, Catherine - Jourdan observou com secura.
       - Os ingleses encaram as coisas de uma maneira diferente. Na verdade, ela parece ter gostado de rever seu irmo.
       Os olhos dele pousaram na mo que Danielle havia colocado no brao de Philippe. Mas ela no a retirou e, em vez disso, ergueu a cabea e enfrentou-o com ar 
de desafio.
       - Tome cuidado, chri - disse Catherine. - Meu irmo  capaz de roubar sua esposa. Sabe de uma coisa? - perguntou, mudando o tom de voz. - No viajei todo 
esse tempo para chegar e ficar parada num ptio empoeirado. Ser que no podemos entrar?
       Lembrando tardiamente de seus deveres de anfitri, Danielle chmou Zanaide e pediu-lhe que mostrasse s visitas o salo principal e ordenasse s criadas que 
arrumassem os aposentos.
       - Antes de sentar em qualquer lugar, gostaria de tomar um bom banho. Estou com areia dos ps  cabea e minha pele, to fina, ficou irritada. Voc no a reconheceria, 
chrie - Catherine disse sedutora para Jourdan.
       Danielle ouviu o comentrio com clareza e sentiu o rosto ficar em brasa. Mas preferiu permanecer calada. J bastava ter de enfrentar aquela situao odiosa! 
Como poderia competir com uma garota tO sofisticada como Catherine? Sem dvida, Jourdan no teria a menor necessidade de ensinar a ela como fazer amar.
       - Danielle poder lev-la at o banheiro - Jourdan sugeriu, olhando para ela de uma maneira que lhe tirava todas as chances de se recusar a obedec-lo.
       
       
       Enquanto Danielle acompanhava Catherine at o banheiro, ambas ficaram em silncio.
       Danielle abriu a porta e afastou-se para dar passagem  visitante.
       Catherine estudou o aposento com frieza e finalmente se demorou na frente da cama que, era evidente, ningum tinha utilizado.
       - Pobre Danielle - murmurou com falsa piedade. - Casada com um homem que no a desej. Por que no tentou persuadir o xeque Hssan a deix-la casar com Philippe? 
Ele pelo menos se preocupa com voc, enquanto seu marido... est habituado com mulheres, chrie, no com mocinhas problemticas. Estar com Jourdan  compartilhar 
o mximo de prazer, de experincias! Como voc sabe, quanto mais alto se chega, maior  o tombo. No  isso que diz O ditado? Ele no lhe falou sobre mim? Sobre 
nossOS planos? Quando estivemos em Paris nos aproximamos tanto...
       Danielle, para sua surpresa, encontrou foras para responder.
       - Muitas mulheres acharam que estavam bem prximas de m marido...
       Catherine replicou imediata e impiedosamente.
       - Voc est querendo dizer que muitas mulheres foram amante, dele! Mas com a gente foi diferente. Jourdan sabe reconhecer a importncia e a projeo da minha 
famlia. Ele jamais me insultaria oferecendo outra coisa seno o casamento. E teria casado comigo se seu padrasto no a tivesse imposto abertamente a ele.  mesmo 
sei tudo a respeito disso...
       Realmente, Philippe tinha mencionado essa possibilidade, DanielIe se lembrou, constrangida. Mas agora era tarde demais. O que poderia fazer? Como lidaria 
com a irm de Philippe? Catherine era uma mulher prtica. Desejava casar por dinheiro, mas com Jourdan obteria tanto a riqueza quanto o prazer sexual. Durante anos 
tentou atra-lo nesse sentido, com esperana de usar o senso inato de responsabilidade e honra de Jourdan para for-lo a uma situao de que no se livraria sem 
casamento. A informao de que o xeque Rassan queria casar Danielle com Jourdan soou para ela como um choque. Jourdan era metade francs e exigia de uma mulher mais 
que obedincia passiva. Mas DanielIe era diferente. A notcia de que ela j estava em Qu'Rar visitando a famlia de Hassan estimulou-a a tomar uma deciso. Imaginou 
ento que aproveitaria sua estada em Qu'Rar para conquist-lo e atra-lo para o casamento.
       E quando soube que DanielIe j havia casado com Jourdan, recebeu um novo e mais poderoso choque.
       Catherine estreitava os olhos ao examinar o quarto. Como Jourdan tinha podido casar com uma garota to tola quanto Danielle?, perguntou-se. Estudou a figura 
delgada da inglesa e lanou um novo olhar para a cama.
       - Jourdan no divide o quarto com voc!
       Era uma afirmao e no uma pergunta. Mais uma vez Danielle viu-se com foras para retrucar.
       - Nem sempre... s vezes vou para o quarto dele.
       Os olhos azuis-claros de Catherine irradiaram despeito.
       - Ento... vocs dormiram juntos na mesma cama... Mas isso no quer dizer muita coisa, petite - disse com ar de provocao. Jourdan  antes de mais nada um 
homem de verdade. E  assim que ele se comporta quando no dispe de algo mais agradvel e apropriado para satisfaz-lo.
       Danielle, parada no meio do quarto, enrijeceu o corpo.
       - Ora, vamos, voc no  to ingnua assim, a ponto de acreditar que existe outro motivo para ele estar com voc. - Catherine continuou. - Sua bobinha! Jourdan 
 procurado por algumas ds mulheres mais desejveis de todo o inundo...
       - Voc, inclusive?
       Danielle arrependeu-se de ter falado com tanta ironia, mas era tarde para voltar atrs. O pior  que tinha dado a Catherine a oportunidade que ela tanto esperava.
       - Comigo  um pouco diferente... Jourdan sabe que eu jamais me tornaria amante dele. Casando comigo, estaria se ligando a uma das famlias mais respeitveis 
da Frana... Uma perspectiva compensadora, no acha, para quem veio de uma mulher que praticamente vivia nas sarjetas de Paris?
       - E voc se daria por satisfeita com isso?
       Danielle tencionava desarmar Catherine, porm a garota mostrava-se mais firme que ela.
       - Eu disse isso? - perguntou, dando de ombros. - Jourdan me ama, Danielle. Sei disso. O convite para eu vir at aqui  apenas uma confirmao do amor que 
ele deseja consolidar atravs da nossa unio.
       - Ele j est casado comigo, Catherin!
       Ela sorriu com indiferena.
       - Um casamento realizado por convenincia e arranjado pbr seu padrasto. Mas logo depois que voc lhe der um filho que o suceda, ele lhe pedir o divrcio.
       Catherine falou com tanta certeza que Danielle sentiu-se embaraada, sem palavras para responder.
       - Voc fica olhando desse jeito para mim - continuou Catherine, percebendo a vantagem que tinha sobre Danielle. - Mas j sabia disso, no sabia? O xeque atual 
tem filhos,  verdade, mas nenhum deles possui a sabedoria e a habilidade de Jourdan. Alm disso, cabe a Hassan decidir quem dever governar Qu'Har. Parece-me natural 
que escolha Jourdan, principalmente, se ele tiver um filho para substitu-lo. Um filho cuja me  a prpria filha de Hassan.
       Catherine falava com uma lgica to incontestvel, que Danielle no entendia por que no tinha percebido tudo aquilo antes. Naturalmente Hassan exultaria 
se ela desse um filho a Jourdan. Como tinha sido estpida! O casamento no seria anulado, segundo Jourdan, mas ele no havia mencionado essa outra razo por querer 
fazer amor com ela.
       O quarto comeou a girar em torno dela e imediatamente procu a cama para sentar-se. Era bem possvel que naquele exato momento carregasse o filho de Jourdan! 
Sentiu-se tonta s de -pensar nisso! A culpa era toda dela; quem mais poderia culpar? Ela mesma tinha se iludido, achando que o casamento um dia se tornaria uma 
uni espontnea. Jourdan nunca havia falado no assunto da separao dos dois. E agora acabava de saber que ele pensava em pedir o divrcio e substitu-la por Catherine... 
assim que o filho nascesse. Com esse filho, ele poderia contar com o apoio do xeque Hassan, e garantiria at mesmo a presena do filho no reinado independentemente 
da vontade dela!
       - Se voc tivesse um pouco de orgulho, abandonaria Qu'Bar, depressinha - continuou Catherine. Ou est to apaixonada que ir se submeter a todas as vontades 
de Jourdan? Ele deve se divertir muito com voc, principalmente porque sabe que no ignora os propsitos e os desejos dele! Eu no suportaria um homem que fizesse 
amor comigo e ao mesmo tempo pensasse em outra mulher.
       No me sentiria muito bem se soubesse que ele me desejava apenas para gerar um filho! - Catherine sorriu, mostrando crueldade. - No disse que voc tinha 
voado alto demais, Danielle? Retirou-se em seguida e deixou Danielle sozinha, o olhar fixo vazio.
       
       
       DanieIle evitou encontrar-se com Jourdan o resto do dia, mas  noite no foi fcil escapar e ela viu-se forada a tolerar os olhares furtivos de Catherine 
sobre Jourdan durante o jantar. Philippe, por sua vez, olhava-a com simpatia e falou que teria sido melhor se Jourdan e Catherine jantassem sozinhos, pois estava 
claro que desejava matar a saudade.
       Depois do jantar, Catherine insistiu em ouvir umas fitas que tinha trazido de Paris.
       - Lembra que danamos essa msica na ltima vez que voc me convidou para sair? - perguntou a Jourdan, ao som de unia msica romntica e sensual. Philippe 
e Danielle praticamente no existiam para ela, e Danielle no se surpreendeu quando o marido e Catherine se retiraram, indo em direo ao quarto da torre.
       Jourdan no tinha lhe dirigido a ateno desde a chegada dos visitantes. Ela se sentia mal, incapaz de pronunciar qualquer coisa, coerente, dominada por intenso 
nervosismo.
       Ao voltarem da torre, o marido a convidou para danar, o que Danielle recusou por pressentir no gesto um mero dever de cavalheirismo.
       Danielle sentiu-se aliviada quando Philippe interveio, sugerindo que ela lhe mostrasse o ptio.
       Ficaram fora por uma meia hora, at que Philippe pediu para voltarem. O salo estava na penumbra, no havia mais msica. Ao entrarem, Philippe estendeu a 
mo para acender a luz. Danielle engoliu em seco quando a luz iluminou todo o salo e revelou o casal abraado.
       Jourdan reagiu, desvencilhando-se dos braos de Catherine, e Danielle agradeceu a Philippe, que agiu com rapidez, abraando-a.
       - Desculpem-nos - disse philippe.
       Danielle encontrou consolo nos braos de Philippe, que a levou dali. No hesitou em permitir que ele a conduzisse at a porta do quarto. Abrindo-a, tomou-a 
nos braos e a carregou para dentro. Depois a beijou.
       Ela no sentiu nada. Nenhum prazer, nenhum estremecimento. Estava esgotada, incapaz de se importar com qualquer coisa. A dor de saber que Jourdan estava l 
embaixo com Catherine era forte demais!
       Philippe desprendeu os lbios dos dela, fitou-a e murmurou qualquer coisa incompreensvel. Danielle abriu os olhos a tempo de ver a figura alta do marido 
no limiar da porta.
       - Mas que inoportuno! - mumurou Philippe. -No se preocupe, petite. Teremos outras oportunidades.
       - Passou-se uma semana. Danielle viu Jourdan muito pouco, assim como Catherine. Estavam sempre juntos, cavalgando, caando, rindo.
       Por causa disso Danielle foi ficando plida e magra, deixando Zanaide preocupada. Philippe passava uma boa parte do tempo na companhia dela.
       Certa tarde, Jourdan levou Catherine at a cidade simplesmente porque ela insistia em respirar o ar da civilizao. Philippe encontrou Danielle sentada no 
ptio, fitando o horizonte, inexpressiva.
       - Danielle, voc precisa ir embora daqui - ele observou de repente. - Est se destruindo a troco de qu? Voc no  cega. Sabe muito bem o que h entre Jourdan 
e Catherine.
       Tomou a mo dela e deu uma batidinha de leve com os dedos.
       - Sei que o ama, petite, mas onde est seu orgulho? Tem foras para suportar mais ainda? Voc se transformou na sombra da garota que eu conheci. Desde que 
cheguei no a vejo sorrir. V Danielle, antes que ele a destrua por completo...
       Philippe falava a verdade, Danielle pensou. E as palavras de Catherine tambm ecoavam ainda dentro dela. Onde estava seu amor prprio? Ficaria ali at nascer 
o filho de Jourdan? O filho que o pai acabaria lhe roubando? E ela? Ele a libertaria para que procurasse viver com quem quisesse? Se realmente amava Jourdan, queria 
fazer a felicidade dele antes de mais nada, e restava-lhe aceitar que ele j tinha encontrado a paz junto de Catherine. Que ela no gostasse da francesinha era uma 
coisa. Mas ele parecia atrado por ela de verdade!
       - Se pudesse, eu iria embora - respondeu e Philippe. - Porm no posso.
       - Se voc realmente quer ir, eu a ajudarei. O jipe est a. Posso lev-la a Qu'Rar, ou, se preferir, atravessamos a fronteira at o Kuwait, onde pegar um 
avio para Londres.
       - No tenho dinheiro. Eu...
       - No se preocupe com isso. Eu lhe empresto o quanto for necessrio. E Danielle... No pense que estou fazendo isso por puro altrusmo... - Tocou os lbios 
dela com dedos delicados. - Um dia, quando a dor que est sentindo passar, espero que se lembre que eu existo e permita que seja o marido que tanto voc merece ter...
       - Oh, Philippe, eu...
       - No diga nada, por enquanto...  que me ocorreu que ser melhor Jourdan no suspeitar que existe alguma coisa entre ns...
       Assim ele no a procurar para traz-la de volta, para for-la a dar-lhe um filho...
       Danielle no teve foras para protestar. Estava certa de que em nenhum momento Jourdan acreditaria que ela amava Philippe. Mas em nome do seu orgulho concordou 
com ele, estremecendo ao pensar que Jourdan poderia sair  procura dela, arrast-la de volta para a humilhao que tinha experimentado desde o momento em que descobriu 
que ele amava Catherine. Talvez at devesse explicar tudo ao padrasto e convenc-lo de que Jourdim ainda merecia dirigir a companhia de petrleo. Sem dvida era 
o que ele mais desejava e ela no queria priv-lo de seus direitos.
       Philippe imediatamente cuidou dos preparativos para a viagem de Daniel1e. Jourdan e Catherine andariam a cavalo na manh seguinte, aproveitariam a ocasio 
para partir. No tinham nada para levar, com sorte chegariam no Kuwait ao anoitecer. Philippe contava com muitos cheques de viagem e, caso precisasse, sacaria da 
conta do pai.
       - Pense bem - ele falou, tentando confortar Danielle. - Dentro de dois dias voc estar em casa.
       Em casa!, Danielle exclamou, girando a cabea e olhando  distncia. Mas ento Philippe no era capaz de compreender que sem Jourdan nenhum lugar poderia 
ser sua casa? Ele era sua vida! Seu mundo! E Jourdan, no entanto, no a amava!
       A manh parecia igual a tantas outras! O sol brilhava num cu limpo e claro. Danielle ouviu Catherine e Jourdan partindo. Terminou de se vestir com rapidez 
e correu para a janela. Procurou desesperada gravar a ltima viso de Jourdan. Por um segundo teve o impulso de descer, correr atrs dele, abra-lo e pedir que 
a amasse.
       Que absurdo! O impulso morreu em seguida. Em nome de Jourdan, em nome dela, o melhor seria mesmo partir.
       Saram meia hora depois dos dois. Danielle prestou ateno nas instrues de Philippe. Entraram no jipe e, antes de dar a partida, ele a beijou de leve nos 
lbios. Danielle tinha deixado um bilhete para Zanaide, agradecendo-a por tanta dedicao. Mas no escreveu uma palavra para Jourdan. O prprio Philippe explicaria 
tudo mais tarde, depois que ela estivesse segura dentro do avio.
       Danielle sabia que as explicaes seriam necessrias. No entanto, Jourdan com certeza tiraria suas prprias concluses e ficaria agradecido pela oportunidade 
de reconquistar a liberdade de poder casar com a mulher a quem realmente amava.
       A caminho do Kuwait, Philippe explicou que no estava tomando a estrada que levava a Qu'Rar, mas uma que ia na direo oposta.
       - MaS ento vamos ter que atravessar o deserto? - perguntou Danielle, apreensiva.
       - No se preocupe. Quando menino, conheci Qu'Har e me familiarizei com o deserto. Dentro de umas duas horas chegaremos na fronteira.
       Quatro horas mais tarde, Philippe viu-se obrigado a reconhecer que tinha sido demasiado otimista. O calor havia aumentado e Danielle comeava a sentir-se 
mal, prestes a desmaiar. E no aparecia nem sinal da fronteira do Kuwait.
       - Acho que na ltima bifurcao tomei a estrada errada - admitiu Philippe. Ele franziu a testa ao bater o olho no mostrador da gasolina. - Vamos ter que voltar.
       - No seria melhor ficarmos aqui descansando um pouco? - sugeriu Danielle com timidez. Comeava a sentir uma leve dor de cabea.
       -Com este sol? Impossvel! Se a gente no continuar o carro vai esquentar demais. Meu Deus, que calor! - ele queixou-se.
       Danielle viu que Philippe na verdade no conhecia aquele caminho. Percebeu que, de fato, no era a pessoa ideal para se desembaraar numa situao crtica. 
Lamentava a todo instante o ambiente, o calor, a idiotice de no haver sinalizao funcional ao longo da estrada, e DanielIe, com a cabea latejando, procurava permanecer 
calada.
       Certa vez Jourdan tinha lhe dito que aquelas estradas ficavam obstrudas com facilidade pelas tempestades de areia. Philippe agora se comportava como uma 
criana mimada, no como um adulto. Alm disso, havia a possibilidade de se perderem por completo.
       O jipe andou aos trancos, pendendo para um lado. Philippe praguejou, golpeou a lataria do veculo, mostrando-se visivelmente irritado, para no dizer desesperado. 
Desceu do jipe e voltou poucos segundos depois, um sorriso amarelo nos lbios.
       - Um pneu est furado.
       Danielle limitou-se a olh-lo, sem compreender o risco que estavam correndo.
       - Quer que eu ajude a trocar?
       - No temos outro pneu!
       Passado algum tempo, Danielle percebeu que pela primeira vez no sentia medo. Sem pneu sobressalente no poderiam ir a lugar algum com o jipe. No sabiam 
onde estavam e ela imaginava que, se dali a algumas horas no fossem localizados, provavelmente morreriam.
       Uma vez conhecida a gravidade da situao, uma estranha sensao de calma tomou conta dela. Philippe continuava amaldioando as imposies do destino, chegando 
a culp-la por convenc-lo a ir para o Kuwait. Com uma clareza nunca vista, ela percebeu que Philippe era inseguro e imaturo, sempre precisando encontrar algum 
para responsabilizar por suas prprias faltas. Jourdan, at aquele momento, no tinha passado de um bode-expiatrio... Jourdan, que era tudo o que Philippe no era.
       Como uma me que tem de lidar com uma criana histrica, DanielIe procurou tranqiliz-lo, dizendo que logo receberiam ajuda. Era impossvel que algum passasse 
por ali e os encontrasse. No entanto Philippe deixou-se levar por ela a ponto de acreditar que certamente acabariam sendp localizados.
       Danielle comeou a sentir-se mal, mas diante da impacincia de Philippe, que subia e descia do jipe, andando de um lado para o outro, preferiu no dizer nada.
       - Bom, no quero morrer aqui - disse Philippe. - Danielle continuou em silncio. - J que no pode ter Jourdan, para voc tanto faz morrer aqui, no  mesmo? 
- Danielle parecia no ouvi-lo.
       - Mas que maada! Eu e voc bem que podamos estar juntos, Danielle, divertindo-nos por a. Eu no posso permitir que morra... Voc  minha aplice de seguro, 
que me pagar dividendos to logo saiamos dessa encrenca. Imagino que o xeque Hassan ficar felicssimo com o homem que salvar a vida preciosa de sua filha, no 
acha?
       Seria intil Danielle argumentar que o melhor era permanecer ali mesmo ou que o jipe era o sinal mais visvel  distncia. Philippe insistiu e assim, com 
relutncia, Danielle desceu do carro e, obediente caminhou ao lado dele debaixo do sol abrasador.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
      CAPITULO XI
       
       Danielle sentia-se sem foras para continuar. No sabia ao certo a distncia que haviam percorrido e por quanto tempo. Parecia uma eternidade. Uma ou duas 
vezes queixava-se da falta de um chapu e sugeria que voltassem ao jipe. Philippe, porm, opunha-se  idia.
       A certa altura, Danielle cambaleou e caiu sobre a areia, os ps enterrados at os tornozelos. Philippe prosseguiu um pouco mais adiante, sentiu a falta dela 
e voltou correndo para ajud-la.
       - Quer fazer o favor de ficar sempre do meu lado? 
       Danielle pressentia que caminhavam por uma mesma trilha interminvel. Philippe era moreno, habituado ao sol, mas o rosto dela ardia como fogo, a cabea doendo 
e latejando forte a cada passo dado.
       A gua tinha acabado horas antes. Lembrou da gua fresca do osis, passando a lngua nos lbios ressequidos. Pensou tambm nas chuvas finas de Londres, e 
de repente o perfil de Philippe foi desaparecendo, evaporando, at parecer cair num mundo constitudo de alucinaes e miragens.
       Numa dessas miragens viu-se deitada num sof: Jourdan caminhava na direo dela. Mas no era Jourdan. Era Philippe, o rosto contorcido pela raiva, enquanto 
a sacudia e exigia que se pusesse de p.
       - Est bem! Fique a, ento! - ele gritou. - Eu estaria muito melhor sem voc!
       Danielle alegrou-se ao v-lo prosseguir sozinho. Pelo menos no precisava ficar ouvindo os lamentos e as agresses dele. Era relaxante permanecer deitada 
ali, mas a pele ardia no contato com a areia.
       Aquilo tudo no era sonho, pensou, embora parecesse. Estava numa praia, deitada ao sol, e  distncia ouvia o barulho das ondas do mar. E ento as ondas foram 
ficando cada vez mais altas, o rudo mais forte. De repente, uma rajada de vento bateu na areia, que, entrando nos seus olhos deixou-a sem viso.
       Philippe devia estar voltando, porque ouvia a voz dele, a voz aguda e nervosa protestando, enquanto uma outra pessoa falava com tal desdm que chegou a amedront-la.
       -Danielle, Danielle! Est me ouvindo?
       Ela murmurou umas palavras incompreensveis e a voz se afastou.
       No queria ser incomodada. Instintivamente, sentia que responder  voz seria abrir a porta para uma dor profunda, e ela tinha sofrido muito.
       - Ela no est bem, vou carreg-la - ouviu a voz grave dizer.
       - Est muito queimada... Ainda pego esse Sancerre!
       Percebeu movimentos, sentiu calor, mas no era nada relacionado com o calor do sol. Por instinto de sobrevivncia, ela lutava contra a lassido do corpo, 
pressentindo um perigo muito maior do que aquele provocado pelo sol:
       - Est tudo bem, mignonne - afirmou a voz, firme e segura.- Sei como se sente, mas o que interessa agora  que est voltando para o castelo.
       Mignonne. As comportas de sua memria se abriram ao som mgico dessa palavra. Danielle levantou as plpebras com dificuldade, para ver o rosto daquele homem 
que a carregava nos braos.
       Parecia diferente da ltima vez que o viu. Seus traos tinham-se tornado mais duros, acentuando a arrogncia e... sim, era ele, constatou com temor. Como 
devia estar satisfeito de saber que, longe de ter se livrado dele, ela novamente era resgatada e salva!
       - No queira falar - ele aconselhou. - Sua pele est muito queimada e precisamos lev-la de volta para o castelo o mais depressa possvel. Mas que idia fugir 
assim. Sei como se sente em relao a mim; porm no precisava chegar a esse ponto...
       Quis continuar, mas parou, refletindo evidentemente sobre o que iria falar; Daniel1e resmungou alguma coisa, intuindo o que passava nos pensamentos dele.
       - Ir embora me pareceu a melhor soluo. Queria evitar que ns dois sofrssemos.
       No tinha mais motivos para continuar fingindo. Ele garantia que sabia dos sentimentos dela. Para que continuar escondendo a verdade? O importante era pensar 
apenas naquele instante. Ele estava ali.
       E ela. nos seus braos.
       - E voc achou qe esse era o melhor jeito? Escolher uma espcie de morte, para fugir de mim? - Jourdan quis saber.
       - Philippe disse que conhecia o caminho. Nada disso teria acontecido se o pneu no furasse.
       DanielIe tentava defender Philippe. Decidiu no acus-lo por t-la abandonado ao calor trrido do deserto... Agora que voltava  lucidez, compreendia que 
ele realmente a havia largado sozinha. Jourdan a interrompeu, impedindo-a de se explicar.
       - Oh, sim... Sancerre  famoso por suas idias brilhantes! - concordou com ironia. - Imagino que tambm elaborou uma srie de justificativas por t-la deixado 
no meio do cminho.
       - No fez de propsito - ela protestou, mas a expresso do rdsto de Jourdan a desencorajou a prosseguir.
       A frente deles havia um helicptero que, agora ela entendia, era o causador dos barulhos das ondas do mar que pensou ter ouvido. Jourdan acomodou-a dentro 
dele, ajeitando-lhe a cabea confortavelmente sobre o peito.
       - Mas, e Philippe? - A medida que o helicptero decolava, Danielle mais uma vez tentava proteg-lo.
       - Ele est com meu secretrio, perto do jipe. Quando consertarem o pneu furado, Sancerre ser levado para o Kuwait, j que esta era a inteno dele. Por nada 
deste mundo ele entrar na minha casa de novo. Eu j estou farto de convidados!
       
       
       A volta ao castelo transcorreu em silncio. Quando o helicptero desceu j era noite e Danielle ouviu as poucas palavras que Jourdan trocou com o piloto. 
O helicptero pertencia  companhia de petrleo e tinha sido requisitado por Jourdan quando soube do desaparecimento de Danielle e de Philippe, Ignorando as queixas 
da esposa, Jourdan levou-a direto para o quarto da torre, onde Zanaide ficou algum tempo, assistindo-o, e depois desceu a pedido dele.
       - A queimadura da pele est feia - disse Jourdan. - O piloto foi buscar um mdico. Zanaide nos ajudar no que for preciso, enquanto isso.
       Danielle tentou dizer qualquer coisa, enquanto ele andava at a porta.
       - O que voc deseja?
       - Voc... - Uma lgrima solitria escorreu lentamente pelo seu rosto corado.
       - Danielle...
       Ele no chegou a completar a frase, porque de repente a porta se abriu e Catherine entrou, vestida com um modelo parisiense.
       - Jourdan, onde est Philippe? - perguntou, mal notando apresena de Danielle.
       - Seu irmo a esta altura deve estar chegando no Kuwait - ele explicou com frieza. - Com dois dos seus homens para garantir a partida dele.
       Catherine meditou durante alguns segundos e gargalhou, lanando um olhar de indiferena para Danielle. Depois aproximou-se vagarosamente de Jourdan para tocar-lhe 
o brao.
       - Querido, acha que era realmente necessrio? Pobre Philippe! Ele no foi o nico culpado, tenho certeza disso. Existem dois culpados, como sabe...
       - No  porque ele tentou fugir com a minha esposa que no o quero debaixo do meu teto por mais uma noite... Mas porque impiedosamente abandonou-a  prpria 
sorte...
       - Ora, querido - Catherine replicou, lanando um olhar ferino para Danielle. - Tem certeza de que lhe contaram a verso correta dos fatos? No teria sido 
Danielle quem se recusou a acompanh-lo? Afinal, ao renunciar a posio de esposa, estava correndo um grande risco... Voc  um homem muito rico, enquanto o pobre 
Philippe...
       No  nada disso, Danielle quis falar, mas no teve foras para soltar a voz. Desejava explicar que s tinha ido com Philippe pata dar liberdade a Jourdan. 
Porm o cansao, a pele que ardia, eram mais poderosos do que qualquer vontade. O corpo dela pedia paz.
       - Mais tarde continuaremos essa conversa. - Danielle ouviu Jourdan falar com Catherine numa voz baixa, sem dvida ansioso por encerrar aquele confronto e 
mostrar  garota francesa que seu amor por ela no tinh se alterado.
       Pouco depois, o mdico chegou e a examinou. A pele, muito delicada estava queimada com gravidade. Aplicou uma loo refrescante no rosto e nos braos, aliviando 
a intensidade da dor.
       - O que  isso, doutor? -Ela quis saber.
       - Um ungento novo e realmente milagroso - ele esclareceu, sorrindo.- Trata-se de um simples anestsico.
       Zanaide encarregou-se de aplicar a pomada quantas vezes fosse necessrio, alm de dar a Danielle um sonfero para garantir um descanso tranqilo.
       - Voc  uma mulher de sorte - garantiu o mdico. - No  fosse a ajuda de Jourdan, teria se desidratado e estaria correndo srio risco de vida.
       Danielle agradeceu-lhe pela ajuda e bebeu o lquido amargo que ele lhe passou antes de ir embora. No sabia o que era, mas aos poucos os olhos foram se fechando 
e da em diante no viu mais nada.
       Quando voltou a abri-los, o quarto mergulhava na penumbra e por um momento entrou em pnico, sem saber onde estava e o que fazia. Um vulto aproximou-se do 
p da cama, fazendo-a emitir um grito.
       - No, no, no sou Philippe. Sancerre, a esta altura, deve estar a caminho de Paris. Se no me quiser aqui no quarto, mignonne, procure se lembrar de que 
sou seu marido. De que voc ainda  minha mulher...
       - Foi apenas um casamento de convenincia - Danielle protestou com amargura. - Um casamento que...
       - No falaremos nisso, agora - ele cortou, com firmeza. - Quando estiver recuperada, ento sim conversaremos sobre o casamento e sobre o nosso futuro.
       Danielle quis ter foras para dizer que no precisava da companhia dele, que ele estava livre para ficar com Catherine. Mas no fundo sabia que desejava demais 
a presena de Jourdan... Acabou por aceitar o conforto e o falso senso de intimidade que de lhe dava. Aquela noite era dela, e a guardaria na memria com todo carinho.
       
       
       Trs dias depois, DanieIle recebeu autorizao para sair da cama e ir at o ptio interno, quando o sol estivesse fraco. Zanaide a acompanhou e depois se 
retirou para buscar um suco de frutas refrescante.
       Estava sozinha quando ouviu o barulho dos saltos dos sapatos de Catherine batendo sobre as pedras. No precisou virar o rosto para ter certeza de que era 
ela. Catherine aproximou-se e sentou-se ao seu lado no banco.
       - Sei que voc est bem - comeou. - At onde pretende ir com essa farsa? Jourdan e eu reconhecemos que voc j est melhor, todavia insiste em continuar 
aqui. Por qu? Tem esperana de convencer seu marido a sustentar o casamento por compaixo? Naturalmente, no ignora que ele no a ama.
       DanielIe permaneceu calada, quase sem foras para ouvi-la. Mas as palavras de Catherine tinham ido direto ao seu corao.
       - O que est esperando? - a francesa insistiu. - Que Jourdan lhe pea para ir embora? No tem amor-prprio?
       Danielle ouviu o farfalhar do tecido do vestido que Catherine usava. Zanaide voltou, ao mesmo tempo queCatherine retirava-se. As palavras cruis dela ainda 
ecoavam nos seus ouvidos. Que estava esperando? Que Jourdan voltasse a am-la?
       Ele sabia como ela se sentia, e provavelmente tinha pena dela.
       Mordeu os lbios recusando-se a chorar. Catherine estava com a razo; no possua mais amor-prprio.
       
       
       Na manh seguinte, quando Zanaide ihe trouxe o caf, decidiu que partiria naquele mesmo dia, mas no usaria a mesma ttica anterior.
       Falaria com Jourdan sobre a deciso e lhe desejaria felicidades.
       - Zanaide, por favor, gostaria que avisasse Jourdan que desejo v-lo.
       Passou o dia na expectativa de encontr-lo, olhando fixamente para a porta, preparando-se para o momento em que ouviria a batida e ela se abriria. Ainda no 
era noite e Zanaide ajudou-a a se vestir com um cft de seda leve, acompanhando-a depois at o ptio. Foi ento que viu o marido.
       - Zanaide disse que voc queria conversar comigo - ele comeou, andando na direo dela.
       Danielle estava sentada nas pedras que contornavam a fonte e desejou no ntimo que ele se sentasse ao lado, em vez de ficar de p, olhando-a de cima. Agora 
que tinha chegado o momento, encontrava uma dificuldade incrvel para ordenar seus pensamentos e express-los com clareza. Detestaria cair na auto-piedade e silenciosamente 
pediu a Jourdan para no mand-la embora.
       - O que ? - ele insistiu.
       Ali estava a oportunidade para comear a falar. Suspirou fundo e reuniu toda a coragem que pde.
       -  sobre nosso casamento, Jourdan. No h necessidade de fingirmos um ao outro. Foi um equvoco...
       Mergulhado na penumbra do jardim, o rosto dele foi endurecendo aos poucos, os msculos tensos, como que para impedi-la de pronunciar toda a verdade.
       - Tambm tenho pensado no nosso casamento... Eu esperava que.,. - Interrompeu-se, hesitando em continuar. - No tem importncia. Nosso casamento talvez possa 
ser anulado, desde que voc declare que nunca nos tomamos marido e mulher. No pretendo me pr no seu caminho. Afinal de contas, foi uma coisa que voc nunca desejou... 
Anular o casamento seria mais aceitvel para os Sancerre...
       Danielle o olhou atravs de uma nvoa de sofrimento, Jourdan estava sugerindo que ela mentisse? Que fingisse que nunca tinham feito amor? Um sentimento de 
terror foi crescendo dentro dela. Levantou-se, sem saber o que fazer, uma voz dentro dela dizendo que se ele se encarregasse de tudo, ela partiria o mais depressa 
possvel.
       
       
       Durante o jantar, temeu que Catherine a desafiasse com olhares, mas em vez disso ela permaneceu tristonha e preocupada. S mais tarde entendeu o comportamento 
da francesa, quando soube que Catherine voltaria para Paris naquela noite mesmo.
       - No pense que s por causa disso Jourdan passou a gostar de voc - ela observou, entredentes. - Voltarei aqui. Esteja certa.
       Sem dvida, Catherine voltar, Danielle pensou. Jourdan provavelmente lhe pediu que partisse pensando no prprio bem dela. Assim no se envolveria com todo 
o processo de anulao do casamento.
       Voltou para o quarto, despiu-se com rapidez, e dispensou Zanaide que a olhava entre penalizada e curiosa. Como a criada se comportaria com Catherine? Elas 
tinham se tomado amigas e com certeza sentiria falta de Danielle. As malas j estavam prontas e Zanaide claramente discordava da sua deciso de ir embora. Dormir 
seria a melhor maneira de no pensar em mais nada, e principalmente naquela noite Danielle precisava de um bom descanso. Afinal, percebendo que seus pensamentos 
a impediriam de pegar no sono, saiu da cama e vestiu o roupo de seda que Zanaide tinha colocado ao p da cama. Os comprimidos para dormir estavam no quarto da torre, 
e a ajudariam a relaxar. Decidiu ir peg-los.
       As pedras da escada estavam frias para seus ps descalos, e tarde demais constatou que deveria ter colocado os chinelos. A porta do quarto cedeu  leve presso 
de seus dedos. A luz prateada da Lua dava uma cor plida  seda do roupo, atravs do qual se adivinhavam as formas do seu corpo que, para o homem que se sentava 
ao lado da janela, se mostravam claramente.
       - Jourdan!
       Sem pensar, soltou a porta, os olhos caindo sobre o div onde esperava encontrar Catherine, mesmo sabendo que a francesinha j tinha deixado o castelo. Mas 
ento Jourdan no a tinha acompanhado? Jourdan levantou com o roupo abrindo-se  altura do peito e mostrando o trax forte e coberto de plos. O corao de Danielle 
disparou, fazendo-a desviar o olhar.
       - No consigo dormir - explicou, meio sem jeito. - Vim buscar minhas plulaS.
       Jourdan estava to prximo, que era possvel sentir o calor que emanava do corpo dele. As pernas de Danielle repentinamente recusaram-se a ficar de p. Cambaleou 
em direo ao div onde ele estava sentado, deslocando uma fotografia.
       - Droga! - Jourdan praguejou.
       Danielle estremeceu. Instintivamente abaixo-se para apanhar o retrato. Um raio de luar iluminou francamente a foto. Com os olhos bem abertos, ficou olhando, 
admirada.
       - Agora voc j sabe - Jourdan falou, arrancando-Ihe a fotografia das mos. - Eu estava em Qu'Rar quando fiquei sabendo do casamento de titio com sua me. 
Fui  Inglaterra tentar dissuadi-lo dessa idia estpida, mas em vez disso me apaixonei por uma criana...
       - No estou entendendo... - sussurrou Danielle. - Essa fotografia...  minha... Lembro de t-la tirado. Meu padrasto...
       - ... bateu a meu pedido - completou Jourdan com secura. Voc tinha ento quinze anos de idade, era uma adolescente se transformando em mulher. Eu disse para 
mim mesmo que estava ficando louco, por me apaixonar por uma criana, mas no adiantou... Era uma idia obsessiva e Hassan, naturalmente, fez muito pouco para me 
desencorajar.
       - O que... o que voc est querendo dizer?
       Jourdan aproximou-se ainda mais, agarrou-a pelo brao e ajoelhou-se, o rosto convertido numa mscara de dor de auto-desprezo.
       - Garota cruel! Que est fazendo comigo? Sabe o que sinto por voc... No queria... queria esperar... Precisava dar-lhe tempo para se acostumar comigo, para 
sentir algo por mim, mas Sancerre forou a situao... Ele me conhecia muito bem...
       - Philippe? Mas...
       - Voc o ama, sei muito bem. E se soubesse que estive perto de mat-lo por isso! O cime  um sentimento muito poderoso! Assim como  o amor! Deus sabe o 
quanto quis apaziguar esse amor em mim. Voc tinha quinze anos, meu Deus! Eu j era um homem, mas a desejava... Como se eu imaginasse no que voc se transformaria,quis 
a mulher que voc acabaria sendo um dia... Hassan me compreendeu. At me encorajou. Ele a ama e achou que essa seria a ma neira mais segura de garantir o seu futuro 
e de Qu'Har. No tive menor inteno de faz-lo mudar de idia. Eu a desejava loucamente. Disse a mim mesmo que, to logo nos casssemos, despertaria algu sentimento 
puro em seu corao; eu poderia ensin-la a me amar. Ento Hassan me contou que voc tinha recusado meu pedido. No queria nem mesmo pensar na possibilidade de casar 
comigo!
       - Ele falou que voc queria Sancerre - Jourdan continuou, depois de uns momentos -, no sei como no enlouqueci completamente com a notcia. Quando descobri 
atravs de Hassan que voc vinha para Qu'Har, deixei Paris logo que pude. Jamaile sabia como eu estava apaixonado... ajudou-me... Eu a queria,tanto, Danielle! Eu, 
como um cego imbecil, acreditei que poderia fazer com que aprendesse a gostar de mim. Em vez disso, roubei-lhe o direito de amar quem quisesse. No posso dizer que 
aprovo sua escolha, mas...
       - No pode?
       Danielle deliciava-se com a sensao maravilhosa que experimentava. Tinha certeza absoluta de que no estava dormindo nem sonhando. No acreditava, porm, 
que aquele que falava era Jourdan, que, emocionado, confessava seu amor por ela. Um amor que vinha desde a infncia... Sim, aquele homem suplicante era o verdadeiro 
Jourdan!
       - No brinque comigo - ele pediu. - No, no a culpo por querer se vingar de mim. Catherine me falou a respeito desse seu sentimento... falou-me sobre como 
voc e Philippe planejaram fugir...
       Como Philippe e a irm tinham sido espertos! Danielle pensou. Distorceram os fatos at que ambos, ela e Jourdan, ficassem convencidos de que a mentira era 
a verdade.
       - Catherine me disse que voc queria casar com ela - Danielle observou com cautela, agora duvidando que tudo isto pudesse estar acontecendo.
       Jourdan fez um gesto de desdm.
       - Nunca! -Calou-se e ergueu-se em seguida. - Onde esto suas plulas? Pegue e v dormir. Meia-noite nunca foi uma hora boa para confidncias, Danielle, porque, 
inevitavelmente, as emoes crescem ao mximo, explodem, e levam a outras coisas... coisas que  luz do dia ns dois lamentaremos. Como me julgo um ser humano, e 
no um animal governado por instintos,  bom que voc se v...
       - Voc me ama de verdade? - interrompeu-o.
       - Droga! Claro que a amo! - ele explodiu, num tom de voz nada romntico, - Agora, caia fora daqui e esquea tudo sobre minhas boas intenes.
       Deu as costas para Danielle, que no fez nenhuma meno de sair nem de apanhar o vidro de comprimidos colocado junto  janela. Ela podia sentir a tenso do 
corpo dele, como se ele esperasse por uma deciso dela para se retirar de uma vez por todas.
       - Daniele! - Era mais um lamento que uma ordem. Ele ento se voltou e os olhares se encontraram. - Aviso-a pela ltima vez...
       saia j daqui, ou ter de enfrentar as conseqncias!
       Teimosamente, ela no se moveu. Soltando um gemido, praguejando, Jourdan aproximoU-se dela, desejando aplacar a sede de amar.
       - Voc quis assim! - ele avisou. Abraou-a com fora, a respirao ofegante. - Mas por que se comporta dsse jeito? Para se punir? Ou ser que seu coraozinho 
deseja me dar uma ltima doce lembrana?
       Ergueu-a do cho e a carregou para o div, os dedos trmulos pressionando o corpo frgil e macio, desnudando-o para saciar a curiosidade dos olhos.
       - No vai me beijar? - Danielle perguntou com ar inocente.
       Os olhos dele brilharam debaixo das sobrancelhas espessas. Os corpos se colaram ardentes, quando finalmente ele arrancou o roupo.
       - Danielle!
       Era a splica sussurrada de um homem consciente de que tinha atingido o limite da resistncia e que nada poderia impedi-lo de ir adiante. Danielle sentiu 
a agonia dele comO se fosse a sua, perdendo o controle de si mesma ao abra-lo, os corpos vibrando no calor enlouquecedor do contato.
       - Faa amor comigo, Jourdan! - implorou, os lbios tocando os dele, o corpo trmulo. - por favor, ame-me do jeito que eu o amo.
       Descontroladas, suas bocas se tocaram como se fossem se devorar, degustando a doura, sentindo a paixo subindo pelos seus corpoS.
       Ele explorou cada parte da pele dela, cultuando-a com os dedos, com os olhos, com os lbios. Ela nto respondeu da mesma maneira livre e apaixonada, ambos 
levados pela necessidade de saciar uma sede imensa, que parecia queim-los por dentro.
       O grito vitorioso de Jourdan no momento culminante da posse lembrou a Danielle a primeira vez em que se amaram. Ao ouvi-lo, ela se abandonou por completo 
aos desejos dele.
       Mais tarde, ambos envoltos por um halo de paz, a cabea de Jourdan descansando sobre o peito de Danielle, a ponta da lngua dele brincando maciamente com 
a pele, ele disse...
       - Sua bruxinha... Voc se divertia me atormentando, no  verdade? Fazendo com que me separasse de voc sem necessidade.
       - Porque eu no podia acreditar que era verdade - retrucou Danielle, um pouco indignada. - Achava que voc amava Catherine.
       Ela disse que voc a adorava. E falou que sabia como eu me sentia... Para mim, isso significava que voc percebia meu amor e que sentia somente pena de mim...
       - Na verdade, eu queria dizer que sabia do seu amor por Sancerre, Danielle! Para duas pessoas inteligentes como ns, no acha que fizemos um bocado de confuso?
       - Oh, Jourdan...
       - Oh, Jourdan, o qu? - ele brincou, imitando-a com meiguice.
       - Nada.  que... Oh, Jourdan... estou to feliz porque descobrimos a verdade antes que fosse tarde demais. Imagine se eu no tivesse vindo at aqui esta noite. 
Ns nos separaramos e jamais teramos chegado a conhecer nossos sentimentos mais profundos...
       - Talvez no, quem sabe! Duvido que a teria deixado ir embora, se viesse se despedir de mim...
       - Hassan ficar surpreso... Ele me disse que Philippe exagerou o seu passado de aventuras com mulheres e que eu no devia prestar muita ateno quelas histrias...
       - Bem, no fundo, no fundo, existe algum fundamento. Mas eu nunca cheguei a amar ningum, a no ser... s vezes cheguei a acreditar que o melhor seria apagar 
voc da minha memria, e foi isso o que procurei fazer o tempo todo. Mas sempre fracassei.
       O passado agora no existe, pensou Danielle. Ela er uma criana, ele um homem. Jourdan no poderia mesmo ter lhe sido fiel. 
       - Ns vamos ficar conversando a noite toda? - ela perguntou com impacincia, os olhos arregalados como uma adolescente absolutamente ingnua.
       - Voc tem alguma outra sugesto? - Entreolharam-se alguns segundos, sorrindo com aquelas palavras bem-humoradas e provocativas. - Louvemos a Al, Danielle, 
que me deu aquilo que mais ambicionava; uma jia que guardarei com carinho para todo o sempre, longe dos olhos invejosos de Sancerre.
       A resposta de Danielle desapareceu sob o beijo apaixonado de Jourdan. E os dois amantes giraram num redemoinho de emoes onde nada existia, a no ser o amor.
       
       
         
         
    Fim
Noites do Oriente                                                                                    Penny Jordan
